O Visitante

De uma certa maneira, o professor universitário Walter Vale (Richard Jenkins, indicado ao Oscar 2009 de Melhor Ator), personagem principal de “O Visitante”, filme dirigido e escrito por Thomas McCarthy, lembra bastante o protagonista de “As Confissões de Schimidt”, de Alexander Payne. Assim como o estatístico Warren Schmidt (Jack Nicholson), Vale é um cara que não vive, mas que vê a vida passar diante de seus olhos e que, quando menos espera, vai reencontrar a alegria de experimentar o dia a dia e todos os encantos simples que podem ser encontrados na nossa rotina. 

O roteiro é muito competente na construção do personagem principal. Viúvo, Walter Vale vive sozinho o tempo inteiro e, apesar de ter uma rotina bastante ativa (como professor universitário e escritor), ele faz todas as suas atividades diárias de uma forma totalmente automática e sem qualquer entusiasmo. A impressão que dá, para a gente, é a de que Walter necessita de uma força enorme para terminar cada dia de sua existência. 

Assistir a um filme assim, sobre um homem que não faz qualquer esforço para cativar aqueles que estão ao seu redor seria uma experiência muito chata, então, Tom McCarthy coloca Walter Vale de encontro com o casal Tarek (Haaz Sleiman) e Zainab (Danai Jekesai Gurira). Os dois estão morando de forma clandestina no apartamento de Walter e o professor irá descobrir isso quando viaja para Nova York para apresentar um trabalho cuja autoria não é dele (apesar do nome dele estar discriminado lá) em um congresso da sua área profissional. 

O importante aqui é saber que, quando Tarek e Zainab entram na vida de Walter Vale, o professor universitário irá fazer uma série de pequenas modificações em sua rotina. Nada muito sério, mas atos suficientes para fazer com que ele transforme-se em um ser bem mais aberto às pessoas, às situações e que, finalmente, decide agir, se posicionar diante de tudo o que vê e tomar as decisões que ele já devia ter tido a coragem de tomar, pois elas só vão lhe trazer a felicidade que estava faltando. 

Existem diretores que são mestres em um determinado estilo de filme e no desenvolvimento de certos temas. Thomas McCarthy tem uma especialidade: fazer obras sobre homens que saem de suas reclusões após encontrarem pessoas que possuem o poder de transformar a vida deles – tema também de sua obra anterior, “O Agente da Estação”. Essa sacada já foi muito bem explorada no trailer de “O Visitante” – a qual se apoiava num slogan que fazia referência ao fato de que Walter conseguiu encontrar pessoas especiais e que tiveram efeito positivo na vida dele dentre o mundo de gente que vive em Nova York, uma das maiores cidades do mundo! E, se no seu filme anterior, McCarthy teve a magistral atuação de Peter Dinklage, aqui, ele conta com outro ator bastante confiável: Richard Jenkins.

Cotação: 7,5

O Visitante (The Visitor, 2007)
Diretor: Thomas McCarthy
Roteiro: Thomas McCarthy
Elenco: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Jekesai Gurira, Hiam Abbass, Richard Kind

20 comments

  1. Bruno Soares 19 novembro, 2009 at 01:24 Responder

    Parece tristonho. Gostaria de ver pelo Jenkins mesmo.

    Minha desconfiança com relação a À DERIVA é por ser do Dhalia, que acho um péssimo diretor. Mas os elogios em Cannes me deixaram curioso.

    Bjs!

    • Kamila 19 novembro, 2009 at 01:36 Responder

      Bruno G., é um bom filme. Eu recomendo! 🙂

      Bruno S., é um filme tristonho, mas que tem um ar muito otimista. “À Deriva” é EXCELENTE! Um trabalho bem maduro. Eu também recomendo! Beijos!

  2. Wally 19 novembro, 2009 at 03:12 Responder

    Amei este filme. Achei bonito demais e imensamente comovente. O retrato humano é devasador e o social, importante. Aquele desfecho, em seu simbolismo, me abalou.

    Nota 8.5

  3. Alexandre 19 novembro, 2009 at 05:00 Responder

    Jenkins é aquele cara que vc já viu em 1000 filmes mas nunca lembra seu nome. É mais um dos inpumeros exemplos de bons atores que ficam sendo “jogados de lado” enquanto outros vivem deitados na fama.

  4. Reinaldo Matheus Glioche 19 novembro, 2009 at 12:34 Responder

    Oi Kamila tudo bem?

    Tb me ocorreu esse pensamento quando eu vi o filme. O estado de espirito do personagem e essa “imobilidade emocional” detectada nele são tb muito fortes no filme de Alexander Payne. Que legal vc ter tido o mesmo “estalo” que eu. Gostei do filme, embora – para forçar a comparação, ache As confissões de Schimidt superior. Bem, de qualquer jeito, me lembro de ter ficado fulo da vida com a indicação de Jenkis ao oscar. Queria muito que Eastwood por seu sublime trabalho em Gran Torino fosse lembrado. De qualquer maneira após ver o filme, concordei com a indicação. Richard Jenkis é um ator muito talentoso e embora, na minha avaliação, a performance de Clint ainda fosse melhor, Jenkis merecia o reconhecimento e a honra de uma indicação ao oscar.

    De alhos para bugalhos: Vi que vc viu chumbo grosso. Eu adorei esse filme. Bem divertido.
    Bjs Ka

    • Kamila 19 novembro, 2009 at 23:49 Responder

      Wally, concordo contigo!

      Alexandre, exatamente! Jenkins é um dos atores mais confiáveis da indústria. Que bom que ele obteve o reconhecimento que merecia por este filme.

      Reinaldo, tudo bem, obrigada. E com você? Eu também acho “As Confissões de Schmidt” superior. E eu prefiro a performance do Jenkins neste filme do que a do Eastwood em “Gran Torino”. E eu não gostei de “Chumbo Grosso”. Beijos!

  5. Madame Lumière 19 novembro, 2009 at 13:30 Responder

    Obrigada pela resenha e pelas referências com outras obras principalmente Confissões de Schimidt. Este filme se torna mais interessante e válido para uma sessão cinema se percebemos que existem vários Walter Vales na sociedade atual, automatizados e solitários em maior ou menor grau, ao menos, alguma vez alguém já apertou o piloto automático em estado de apatia total mesmo que ainda mantém suas agendas bem ocupadas com carreira estável e todo o mais. A beleza deste filme é perceber que também há pessoas que nos salvam de um ingrato e cotidiano anonimato e que pequenas mudanças pessoais são produtivas principalmente quando ativadas com a ajuda de outras pessoas.
    Abraço,

  6. André C. 19 novembro, 2009 at 17:35 Responder

    Kamila,
    não assisti As Confissões de Schimidt, mas se O Visitante o lembra, deve ser um grande filme, pois O Visitante me surpreendeu bastante, no fundo nossos comentários foram bem parecidos!

    Beijos,
    André

    • Kamila 19 novembro, 2009 at 23:50 Responder

      Madame Lumiére, belo comentário! Abraços!

      André, que bom! Beijos!

      Cassiano, exatamente! A presença do casal muda por completo a vida dele.

  7. Matheus 20 novembro, 2009 at 01:51 Responder

    Kamila, eu gostei bastante de “O Visitante”, em especial do Richard Jenkins, que mereceu a indicação ao Oscar.

    ps: o nome do personagem de Nicholson em “As Confissões de Schmidt” é Warren, não Walter xD

  8. Rogerio 21 novembro, 2009 at 13:56 Responder

    OI Kamila,
    Interessante a sua resenha que voce foi mais a fundo nas sensacoes do Walter e nem entrou no merito da questao da imigraçao e deportacao de estrangeiros.Se eu nao tivesse visto o filme, nem iria ter vontade de ver pela resenha, pq nao achei o filme tao tristonho assim.
    Nao vi Confissoes de Schmidt, entao nem sei julgar as comparacoes.
    Oque é unanime é a atuaçao de Jenkins, ótima!!
    bjus.

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