A Fita Branca

Na sua definição, a cor branca é aquela que faz a junção de todo o espectro de cores, mas, ao mesmo tempo, não absorve cor nenhuma, uma vez que ela aparece com clareza máxima. Para o diretor austríaco Michael Haneke, a cor branca significa a pureza, a inocência e a virtude. Curioso notar que a fita branca à qual o título de seu mais recente filme faz referência é parte, na verdade, de um ritual de punição. Um pai obrigava seus dois filhos a usá-la como forma de evitar o pecado, a mentira, a inveja, a indecência, dentre outras coisas ruins.

Isto, por sua vez, ocorria, pois a história criada pelo diretor se passa num vilarejo alemão às vésperas do início da I Guerra Mundial, quando uma série de ameaças e atos perversos de violência começam a acontecer. Numa localidade pequena, em que todos se conhecem, tal realidade marca também a mudança na rotina do vilarejo, além de criar um ambiente de certa desconfiança e de muita inquietação.

A constatação mais interessante que se vem do fato de assistir “A Fita Branca” é que Michael Haneke, um diretor que é bastante interessado no caráter cotidiano da violência, nos revela que o ambiente externo daquele vilarejo é somente o resultado do que acontece entre quatro paredes, na maioria das casas deste lugar. A maldade, a inveja, a ignorância e a brutalidade é uma coisa que, naquela localidade, se passa de pai para filho. Ou seja, Haneke mostra como a educação influencia na formação do caráter de alguém. Neste sentido, os personagens mais importantes de “A Fita Branca” são as crianças deste vilarejo. No filme, elas são infratores, são vítimas, são testemunhas, são a prova viva de que somos o produto daquilo que vivenciamos.

Obra vencedora do Globo de Ouro 2010 de Melhor Filme Estrangeiro e indicada ao Oscar 2010 da categoria, “A Fita Branca” encontra muito de seu impacto na feliz decisão de Haneke de apresentar sua história em preto e branco (com a brilhante fotografia de Christian Berger). Não sei se isto foi intencional, mas, além de criar um efeito de distanciamento de tempo mesmo, as cenas nesta paleta de cores atenuam de certa forma o tema denso da obra. O que incomoda um pouco – e acredito que esta parte foi, sim, intencional – é o fato de Haneke deixar muitas perguntas sem respostas. Não dá para acreditar na solução oferecida no final. Ela é muito simples. Talvez por isso mesmo, o diretor frise tanto o fato de que poucos meses depois de onde o filme terminou tenha se dado início à I Guerra Mundial, conflito que foi fundamental para a mudança do cenário geopolítico europeu e cujos efeitos foram importantes para a ascensão do Nazismo na Alemanha, quatorze anos depois de seu término. Se o pensamento de Haneke foi fazer um filme sobre a formação da geração que levou ao período mais negro da história da Alemanha, aí, sim, podemos dizer que estamos diante de uma obra brilhante.

Cotação: 7,5

A Fita Branca (Das Weisse Band, 2009)
Direção: Michael Haneke
Roteiro: Michael Haneke
Elenco: Christian Friedel, Ernst Jacobi, Leonie Benesch, Ulrich Tukur, Ursina Lardi, Fion Mutert, Michael Kranz

21 comments

  1. Amanda Aouad 22 dezembro, 2010 at 12:45 Responder

    Acho que intenção foi essa mesma, de apresentar um indício da origem do nazismo. Acho o filme interessante, bem realizado, principalmente pelo aspecto do P&B que você ressaltou. Acabou engolido pelo Segredo dos Seus Olhos no Oscar e esquecido por alguns, mas merece destaque.

  2. Alyson 22 dezembro, 2010 at 13:27 Responder

    Para mim o interessante é que Haneke não fornece todos os significados das reflexões que devem ser tiradas dos personagens com facilidade. É tudo delineado e dedutivo. Não há uma solução limpa, apenas possibilidades, deixando para o espectador ligar os pontos. Mesmo quando há alguns personagens onde a evidencia é maior no envolvimento com os atos. E esse domínio está todo amarrado numa narrativa densa e precisa: Haneke cria um ritmo deliberado, retardando o ritmo narrativo. Assim como em Violência Gratuita, pegamos momentos em que a câmera não se movimenta, mas muita coisa acontece, até quando somos vetados de certas ações.
    .
    Ao término da rodagem vemos um filme arte por excelência: delineado, exigente, disposto a ter o espectador como um racional, motivado a decifrar tantas ambigüidades.
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    Ele realmente não cansa de fazer obras-primas.

    Beijos, Ka.

  3. Mayara Bastos 22 dezembro, 2010 at 20:28 Responder

    Achei um filme intenso, que dá para compreender a intenção do diretor em criar este clima e o comportamental dos indivíduos de uma vila “pacata”. E a fotografia é primorosa.

    Beijos! 😉

  4. Rafael Carvalho 22 dezembro, 2010 at 22:58 Responder

    O mais interessante nesse filme é como o Haneke filma a violência, a tortura moral e psicológica, sem nunca mostrar esses aspectos de fato. Tudo está nas entrelinhas, na forma como os pais repreendem tanto aquelas crianças que, posteriormente, irão expurgar todo o sofrimento que receberam nos próprios adultos. E é fácil pensar que aquelas crianças serão os adultos que apoiarão Hitler mais tarde. Mas acho que o filme é mais univesal que isso porque revela a própria gênese do mal, de como é possível criar (educar) seres humanos hediondos.

    Sobre as perguntas que o filme deixa sem respostas (aparente e intecionalmente), acho que é um dos grandes destaques da obra porque a grande questão é que os adultos nunca perceberam o mal que fizeram à humanidade criando seus filhos daquela maneira.

    Enfim, com cereteza, esse é um dos melhores filmes do ano. E Haneke é um dos melhores cineastas em atividade no mundo hoje. Pronto, falei!!

  5. Reinaldo Matheus Glioche 23 dezembro, 2010 at 12:38 Responder

    rsrs. Precisaria reproduzir a minha crítica ao filme para fazer justiça a essa demanda… mas em linhas gerais, o que quis dizer é que Haneke, como vc bem apontou, desvela o peso de uma educação repressora. A atemporalidade do comentário e a recusa em fomentar um fim legítimo para aquela história reforça a intenção de Haneke de mapear as origens do mal (como um todo) e não de uma de suas facetas (o nazismo).
    É mais ou menos por aí. Vc já leu a minha crítica, mas a época ainda ão havia visto. Se puder, gostaria que lesse de novo: http://claquetecultural.blogspot.com/2010/02/oscar-watch-critica-fita-branca.html

    Beijos

  6. Matheus Pannebecker 23 dezembro, 2010 at 18:23 Responder

    Eu tinha muito medo de assistir “A Fita Branca”. Achava que ia ser aquele tipo de filme que todo mundo ama e chama de cult e que eu não conseguiria entender =P Mas sabe que me surpreendi? Pelo menos pra mim o filme é ÓTIMO!

    • Kamila 23 dezembro, 2010 at 21:24 Responder

      Reinaldo, então concordamos com tudo, pelo jeito. Lerei sua crítica. Beijos!

      Pedro, não acho que seja um filme vazio, mas a conclusão é vazia, sim.

      Matheus, o filme é bom mesmo!

  7. Cassiano 23 dezembro, 2010 at 18:31 Responder

    Oi Kamila, permita-me discordar, e me alongar.

    Na verdade nem sei se discordo, pq li isso em seu texto.

    A obra é sim simples, e a solução simplista. Obviamente que não podemos dizer que o nazismo nasceu disso, mas podemos sim dizer que o problema alemão com o judeu nasceu disso pq após a primeira guerra mundial, com a alemanha se reconstruindo, diz-se que os judeus (em sua maioria comerciantes) exploravam o fato da necessidade para cobrar mais caro pela água por exemplo.

    Mas eu sou fã de Haneke e nem acho q ele queira passar uma mensagem, ele gosta de brincar conosco, lembra da cena da morte que ele congela e volta atrás em Violência Gratuita.

    A Fita Branca é uma aula de educação (ou de não educação). Ora somos os únicos seres na terra que pensamos. Possuimos a inteligência, mas somos tão violentos quanto qualquer outro animal.

    Essa é a discussão q Haneke propõe na maioria de seus filmes. Pq temos que bater numa criança para ensinar? Pq temos que reprimir o sexo se é com ele que nos perpetuamos? Pq temos que ser arredios ao amor se é ele quem interessa no final das contas? Tudo isso tá no filme, e essa discussão é a mais rica da sétima arte e é por isso q somos tão apaixonados por ela.

    • Kamila 23 dezembro, 2010 at 21:25 Responder

      Cassiano, claro que te permito discutir o que quiser aqui! 🙂 O Haneke tem um cinema complicado para mim, mas acho que seu comentário elucida muito bem o cinema dele e o que é “A Fita Branca”. Obrigada!

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