Além da Vida

publicado em:2/02/11 10:40 PM por: Kamila Azevedo Cinema

Uma coisa muito curiosa aconteceu durante a minha sessão de “Além da Vida”, novo filme de Clint Eastwood. No trailer de “O Ritual”, suspense do diretor Mikael Hafstrom, o personagem interpretado por Anthony Hopkins aparece dizendo a seguinte frase: “aqueles que não acreditam, ficam procurando respostas para os questionamentos que possuem”. De alguma forma, esta afirmação tem muita relação com o que acabei assistindo em “Além da Vida”. No filme de Eastwood, não se tem uma indicação de que os personagens possuem algum tipo de fé, mas, enquanto a história nos é relatada, estaremos acompanhando a jornada deles em busca de respostas.

O roteiro escrito pelo talentoso Peter Morgan nos coloca diante de três pessoas: a jornalista francesa Marie Delay (Cécile de France), o médium George Lonegan (Matt Damon) e o menino Marcus (Frankie e George McLaren). A conexão entre eles fica clara na medida em que a história se desenvolve: os três tiveram um contato próximo com a morte. Um encontro inesperado e fugaz e que, por isso mesmo, os impactou de forma profunda e fez com que a vida deles nunca mais fosse a mesma.

Com a conexão entre os três personagens estabelecida, é hora de Clint Eastwood e Peter Morgan mergulharem mais a fundo nas vidas de Marie, George e Marcus. As experiências que cada um viveram foi suficiente para modificar a essência de cada um deles. Marie tem a coragem de tentar compreender o que lhe aconteceu e compartilhar isso com os outros. George foge e resiste o máximo que pode ao dom que ele possui (o de comunicação com pessoas que se encontram no plano superior) – e isso é a chave para ele não conseguir estabelecer um relacionamento sólido com qualquer pessoa, exceto o irmão mais velho (Jay Mohr). Marcus usa a rebeldia, a sua inocência e o silêncio para confrontar sua própria dor.

A história que nos é relatada é daquele tipo que causa uma identificação imediata. Você pode não ter vivido uma experiência de quase morte, mas você já perdeu alguém que amava muito. Você já sentiu o chão se abrir por debaixo de você e aquela dor profunda no peito. O que “Além da Vida” nos mostra é que é normal querer respostas, a gente necessita disso para poder seguir em frente e continuar a vida. Interessante notar que o filme mostra também o outro lado: o quanto a falta de coragem em enfrentar o que nos machuca pode ser penalizante para alguém. George é um exemplo disso. A jovem interpretada por Bryce Dallas Howard (numa bela participação aqui, lembrando o talento mostrado em “A Vila”) também é uma prova disso. Não enfrentar a nossa própria dor é se tornar prisioneira dela.

Com “Além da Vida”, Clint Eastwood retoma um elemento em que ele é um verdadeiro mestre: aquele drama que se torna familiar para a gente, com pessoas críveis e situações comuns. Aqui, ele retoma uma verve que não se via desde “Cartas de Iwo Jima”. Preste atenção, particularmente, às cenas em que George aceita compartilhar seu dom com outras pessoas – especialmente as que contam com Bryce Dallas Howard e os meninos Frankie e George McLaren. São nelas que se encontram toda a essência deste filme. Esqueça o final hollywoodiano “feliz” que acontece mais na frente. Fique com esses momentos mesmo porque “Além da Vida” fala da retomada do controle da nossa própria existência face o momento em que nos encontramos mais fracos.

Cotação: 9,5

Além da Vida (Hereafter, 2010)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Peter Morgan
Elenco: Cécile de France, Jay Mohr, Richard Kind, Matt Damon, Frankie McLaren, George McLaren, Bryce Dallas Howard, Steve Schirripa



Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


Acredita que o filme ainda não entrou em cartaz na minha cidade?! Pois é. Pra falar a verdade, eu já estava deixando o filme para uma sessão em DVD devido a alguns comentários. Mas, agora esse seu texto, revitalizou a ideia de conferir o filme no cinema. E, farei isso ! [se chegar por aqui. Claro! rs]

[]s

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Raspante, que pena que ainda não estreou em sua cidade. Espero que a obra estreie aí, sim! “Além da Vida” merece ser visto na tela grande. Abraços!

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Belo texto, gostei bastante de sua comparação com a frase de Anthony Hopkins e com a essência do que Clint Eastwood passa nesse filme. Gostei bastante do filme também.

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Teu ótimo texto mostra bem a essência intimista que esse filme transparece, é uma pena como a recepção tem sido morna mesmo..aliás, bem fria. Eu penso que o filme tem sido incompreendido, na verdade a narrativa demasiada lenta tem prejudicado, na minha opinião. Pois, Clint não tem pressa de desenvolver seus personagens de maneira direta, os sentires e também a emoção é gradual, surge aos poucos.

O filme não tem o intuito de mostrar o “além”, na verdade o elemento espiritual vem mais como um fator de convicção que o personagem de Damon e de Cécile De France sentem — eles sabem que existe algo além do plano carnal, sabem que após a morte existe algo que vai além do terrestre. E é interessante como nos identificamos com eles, afinal, apesar de tantas crenças e ideologias, o ser humano ainda envolve-se no próprio mistério de Vida. O que é a existência? Há tantas perguntas sem respostas, né mesmo? E gosto também de como o roteiro lida com o sofrimento, a dor e a emoção da perda de entes queridos. Os personagens enfrentam as perdas, a passagem, a morte…algo tão difícil de lidar.

É um filme cuidadoso, muito bom mesmo.

Beijo!

Ps: a proposta dos filmes ainda está de pé! E é via sedex, hein? (piada interna) hahahaha!

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Acho que apenas eu e o Caetano nao gostaram desse filme, deve ser coisa de santoamarense chato. O pior, se é que é possível, é a forçada interseção entre as histórias: é de chorar, de raiva.

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Cristiano, também fico muito decepcionada e desapontada com a recepção que este filme teve. Até porque a obra é maravilhosa e merecia ser vista dessa forma. Não achei a narrativa lenta, mas concordo que Clint deu tempo aos seus personagens se desenvolverem, sem pressa. Adorei a segunda parte do seu comentário! Beijo! E eu vou pensar na sua proposta! rsrsrsrsrs

Reinaldo, obrigada! 🙂 Beijos!

Por que você faz poema?, não sei sinta sozinho nem chato! Muita gente não gostou desse filme.

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Como o Alan, estranhamente ainda não estreou em minha cidade – filmes assim são geralmente os primeiros escolhidos pelos programadores. Mas soube que estreará neste fim de semana, e finalmente poderei assisti-lo, tirar minha própria conclusão – e ver se ela combinará mais com a maioria dos cinéfilos, que falaram mal, ou com a minoria, que apontaram coisas boas no filme de Eastwood (e aqui entra você).
Beijos!

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Definitivamente não gostei desse filme, desde ‘Menina de Ouro’ não gosto dos filmes que Clint tem feito, esperava-se (muito) mais do que esta bagunça. Um filme confuso, que parece não saber o que quer dizer, estrelado por personagens sem a menor graça. Até mesmo Clint surpreende com uma mão pesada, criando momentos de pieguice extrema – como o final que é realmente uma catastrofe. Mas, opiniões a parte, que bom que gostou Kamila!

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Sou fã da filmografia de carteirinha de Clint Eastwood.Esse homem me proporcionou grandes emoções em Menina de Ouro,Sobre Meninos e Lobos e Gran Torino e a cada obra Eastwood reafirma a sua excelencia.Não Vejo a hora de assistir Além Da Vida.Beijos.

*Nem vou zuar seu Corinthians Kamila.Esse ano nem chegou a 1°fase da libertadores.Ano passado vcs perderam pro meu Mengão e esse ano foi pro Tolima??

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Weiner, espero que você goste do filme. Beijos!

Cleber, eu discordo que o filme seja confuso e não saiba o que dizer. Se os personagens não têm a menor graça é porque eles são pessoas comuns. Eles poderiam ser eu ou você…

Paulo, eu adoro o Clint e fico feliz de vê-lo dirigindo um grande filme depois de tanto tempo! Não respondo provocações de futebol! rsrsrrs

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Bela análise! Mais um bom trabalho do diretor. Acho que o filme não recebeu críticas positivas nos EUA porque os americanos não são tão abertos ao tema como os brasileiros. A crítica daqui, no geral, está gostando.

Clint não erra!

Bjs!

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Kamila, realmente Clint é mestre em dramas q traz algo familiar. Só não acho nem um pouco o final hollywoodiano.

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Eu acho que é um filme que levanta questões diferentes nas pessoas, o que torna o longa difícil de uma análise, uma vez que não conseguiu se conectar comigo. Mas gosto da direção do Clint e dos seus pontos levantados.

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Otavio, obrigada! Concordo que é um bom trabalho dele. Uma pena mesmo que a crítica não tenha recebido bem este filme lá fora. Beijos! Clint DIFICILMENTE erra! rsrsrs

Cassiano, o final é convencional demais, não achou???

Luís, esse longa conseguiu se conectar demais comigo!

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até então,não estava curioso pra assistir ao filme,mas sinceramente o seu texto (um dos únicos o elogiando por sinal) me deixou bastante curioso.
Abraços

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Lindo texto! Fiquei desanimada com alguns comentários, apesar de ter gostado do trailer. Parece ser um gênero diferente para Clint. Fiquei bem animada depois de sua análise.

Beijos! 😉

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Kamila, como tu sabes, não gostei desse filme… Achei a história morna, os personagens desinteressantes e o desenrolar dos fatos muito devagar. Gostei de uma coisa ou outra (o tsumami é ótimo e a Bryce Dallas Howard também), mas nada que apague a péssima impressão que fiquei desse filme. E aquele final foi de doer de tão cafona…

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Mayara, obrigada! 🙂 Espero que goste do filme, quando o assistir. Beijos!

Matheus, não achei os personagens desinteressantes. Eles são pessoas comuns! Essa é a graça deles. Também achei o final muito cafona!

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Gostei também do filme, mas não tanto quanto você. De qualquer forma, o velho Clint dá um banho nos filmes de temática espírita feitos no Brasil, porque não é panfletário nem quer vender uma crença. Ele está mais interessado na trajetória de seus personagens. E isso que você apontou da procura por resposta é o que, de fato, une aqueles personagens. Todos são muito bem construídos. E a Bryce Dallas Howard dá um show. Uma das melhores coadjuvantes do ano para mim desde já!!!!

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Grande filme, sereno, delicado, melancólico e emocionante. Eastwood mostra o quão brilhante é seu cinema, ao conseguir transformar em exemplo de sobriedade uma premissa que poderia facilmente descambar para o sensacionalismo. E, no caminho, nos presenteia com inúmeras cenas inesquecíveis (a começar pelo tsunami que abre ALÉM DA VIDA).

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Rafael, concordo que o filme dele dá de banho nos de temática parecida que passaram no Brasil este ano! Concordo com você sobre a Bryce Dallas Howard.

Wallace, comentário perfeito. Não poderia falar melhor sobre o filme.

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Também gostei bastante do filme, e acho que posso dizer que é o melhor trabalho de Eastwood desde CARTAS DE IWO JIMA. Eastwood e Morgan fazem um trabalho inteligente ao não conceberem uma obra doutrinadora como muitas vistas por aí, e tampouco sua ênfase é na questão do “além”; eles querem mesmo é entender a dor de seus personagens e as suas ações. O filme tem falhas, mas dar maior importância a elas é desperdiçar a chance de se envolver num trabalho tão sensível como esse. Também escrevi sobre o filme, se quiser passar por lá. Dei 6/10, e pretendo rever. Abraço.

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Embora que a uol mostrou os 10 piores filmes de acordo com os críticos esse filme tenha entrado, eu pretendo arriscar e tirar minha própria conclusão.

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Mateus, concordo contigo que este é o melhor trabalho do Eastwood desde “Cartas de Iwo Jima”. Perfeito o que você disse. Abraços!

Nayara, arrisque sim! 🙂

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