O Concerto

Antes do diretor Darren Aronofsky descobrir a música de Tchaikovsky para o seu brilhante filme “Cisne Negro”, o diretor Radu Mihaileanu utilizou o Concerto para Violino e Orquestra composto pelo compositor russo para ilustrar, em “O Concerto”, a paixão de um maestro chamado Andrey Filipov (Aleksey Guskov) pela música clássica, bem como a busca dele (a loucura, essa seria a verdade) pela perfeição idealista e, aqui, temos mais um diálogo involuntário com a obra de Aronofsky.

Considerado um mito dentro de sua profissão, Andrey Filipov era o maestro da Orquestra do Teatro Bolshoi, um dos mais tradicionais da Rússia. Em 1980, ao fazer um concerto com a música de Tchaikovsky no teatro do grupo, viu sua apresentação ser interrompida por um dos enviados do ditador russo porque ele era considerado um traidor do seu país, por abrigar em sua orquestra músicos de origem judia. Após este acontecimento, Filipov e sua orquestra nunca mais conseguiram trabalhar no país e a sensação que ficou, especialmente no maestro, era a de frustração, por uma obra especial, na qual ele trabalhava com a sua solista violinista favorita, nunca ter alcançado o grande público em sua completude.

Eis que, trinta anos depois, Filipov terá a chance de colocar sua obra de amor em prática, mais uma vez, num concerto a ser realizado num teatro francês, em que ele forja ser o maestro e líder principal da Orquestra do Teatro Bolshoi. A peça que eles armam é muito bem feita: com direito a empresário (justamente o cara do Partido Comunista que arruinou com os sonhos dele naquela apresentação de 1980) e aos membros originais de sua orquestra, exceto a solista, que, agora, foi substituída pela talentosa e prodígio Anne-Marie Jacquet (Mélanie Laurent, de “Bastardos Inglórios”), profissional a quem Filipov acompanha de longe e com olhares bastante atentos.

Uma ideia maluca, você pode pensar, nunca dará certo, mas é justamente esta premissa inusitada que faz de “O Concerto” um filme delicioso de se assistir. A obra equilibra muito bem momentos de pura comicidade com instantes sérios, que fazem a volta a este passado inconclusivo de Andrey Filipov. O longa acaba encontrando seu ápice no ato final, em que temos o concerto que ele tanto sonhava se realizando. E esta cena é uma prova de que o destino é uma coisa muito curiosa e dele não se pode fugir. A gente precisa dele para seguir em frente e, nesse caso, ele é representado pela música, que acaba libertando e emocionando, não só aqueles que estão em tela, mas a gente também, que está aqui do outro lado e se envolve com tudo isso.

Cotação: 9,0

O Concerto (Le Concert, 2009)
Direção: Radu Mihaileanu
Roteiro: Héctor Cabello Reyes e Thierry Degrandi (com a colaboração de Matthew Robbins e Alain-Michel Blanc)
Elenco: Aleksey Guskov, Dmitri Nazarov, Mélanie Laurent, François Berléand, Miou-Miou, Valeriy Barinov, Lionel Abelanski

22 comments

  1. Roberto Queiroz 6 abril, 2011 at 23:31 Responder

    Kamila,

    Eu tô tentando baixar esse filme há tempos. Na época entrou em circuito apenas em uma sala aqui no RJ (na sessão das 21 horas). Eu vi o trailer e fiquei encantado logo de cara. Está na minha black list (lista de filmes a serem vistos).

  2. Flávio 7 abril, 2011 at 00:04 Responder

    Oi Kamila, tem um simpatia particular pela Melanie, que me lembra uma mistura mais jovem da Rosanna Arquete com a Natasha Kinski. Vou procurar acompanhá-la de perto. Torço para que Melanie consiga melhores oportunidades, como essa.

    • Kamila 7 abril, 2011 at 02:41 Responder

      Roberto, aqui passou em somente uma sala. Na sessão cult.

      Flávio, a Melanie ganhou muitos fãs com “Bastardos” e acho que esse filme conseguiu ser lançado aqui por causa do sucesso dela no filme do Tarantino.

      Amanda, que bom! Espero que o assista e goste.

  3. Reinaldo Matheus Glioche 7 abril, 2011 at 14:26 Responder

    Sua admiração pelo filme é tocante. Ainda tenho que conferir… De qualquer jeito o contraditório já se estabeleceu. Uma vez que a grande maioria das críticas que li a respeito dessa produção foram negativas…
    A ressalva, porém, reside na sua sensibilidade.
    bjs

  4. Paulo Ricardo 7 abril, 2011 at 15:51 Responder

    Esse post seu veio a calhar Kamila.Semana passada eu estava conversando com um amigo que é fã de cinema e estavámos falando da importancia da trilha sonora em um filme.E na minha opinião o diretor que melhor sabia traduzir a música para a obra era Stanley Kubrick.2001-Uma odisséia no espaço virou um marco(que nunca ouviu aquela trilha que fecha o filme),O Iluminado era sons com trilhas sombrias(a cena do menininho no velotrol é uma aula de condução de som) e De Olhos Bem Fechados em que Jocelyn Pock(acho q estou falando o nome errado rss)com um piano traduzia tensão as cenas em que Tom Cruise era seguido.E pode acgreditar Kamila,as idéias malucas que dão certo rss,beijos.

    • Kamila 7 abril, 2011 at 23:20 Responder

      Reinaldo, foi mesmo?? Só leu críticas negativas??? Beijos!

      Cassiano, também acho que você irá curtir. 🙂

      Paulo, “As Horas” também usa muito bem a trilha sonora a seu favor. Pode ser que as ideias malucas são aquelas que dão certo, mas nem sempre isso acontece. rsrsrsrs

  5. Andinhu S. de Souza 7 abril, 2011 at 23:22 Responder

    Que coincidência. Assisti esse filme esta semana aqui no cinema. E sai com um sorriso estampado no rosto de tanta satisfação. Eta filme lindo! Fez falta na lista do Oscar.

    A cena do concerto é impossível assistir sem abrir um sorriso no rosto, aliás o filme já se habilita de um humor gostoso, por vezes exagerado confesso, mas que não estraga a ótima experiência.

    Adorei teu Blog. Vou linkar no meu. Abraços!!

  6. Paulo Ricardo 8 abril, 2011 at 05:29 Responder

    As trilhas de Johnny Greenwood(Sangue Negro),Antonio Pinto e Jacques Morelenbaum(Central do Brasil),Gustavo Santaolalla(Babel),Hans Zimmer e James Newton Howard(Batman-O Cavaleiro das Trevas) e Philip Glass(As Horas e Notas Sobre um Escandalo) estão no meu top five de composições para o cinema.Bjs.

    • Kamila 8 abril, 2011 at 22:46 Responder

      Andinhu, eu também adorei esse filme. Exatamente, concordo com teu comentário! Obrigada pela visita, comentário e link! Abraços!

      Paulo, meu favorito é Philip Glass, seguido de Alexandre Desplat. Beijos!

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