Lendo - "Amor sem Fim"

“Como alguém num sonho, eu era ao mesmo tempo a primeira e a terceira pessoa. Eu agia, e me via agindo. Eu pensava, e via meus pensamentos projetados numa tela. Como num sonho, minhas reações emocionais eram inexistentes ou inapropriadas”. (p. 29)

Um ano. Três acontecimentos trágicos. Três visitas a uma delegacia de polícia. Passar por situações desse tipo não deixa ninguém incólume. Transformações na personalidade de um ser podem ser observadas. Mudanças no ambiente acontecem. Sentimentos se modificam. “Amor Sem Fim”, livro escrito por Ian McEwan, é uma história de transformação, em que somos convidados a acompanhar como a vida tranquila, feliz e bem sucedida do escritor Joe Rose dá um giro de 360 graus.

Tudo começa num dia qualquer, quando Joe está realizando um piquenique para celebrar a volta de sua companheira, Clarissa Mellon, após a chegada dela de uma longa viagem de trabalho. Um acidente trágico envolvendo um balão muda drasticamente os planos do casal para aquele dia e coloca Joe de encontro com a figura de Jed Parry, herdeiro solitário de uma fortuna, homem isolado, religioso fanático e com um leve desequilíbrio emocional e mental. É essa figura que desenvolverá um estranho amor com uma mistura confusa de obsessão por Joe, a ponto de se transformar num elemento incômodo à vida e à rotina do escritor.

Neste ponto, é importante prestar atenção a um conceito que nos é apresentado por Ian McEwan: o da Síndrome de De Clérambault. A doença se revela através da sensação do portador de que seus pensamentos estão sendo controlados por “forças externas”. No caso de Jed, ele acreditava piamente que Joe jogava com o sentimento dele e que Deus tinha um propósito muito bem definido para o encontro deles, para que eles tivessem vivido juntos aquela experiência no dia do acidente com o balão. Isto se converte, no livro, em um caso de obsessão tão forte a ponto de Jed ser capaz de infringir um grande mal ao ser que ele mais ama, no caso, Joe.

Ao fazer o retrato desse cenário, Ian McEwan foi muito perspicaz na redação de sua narrativa. Em um determinado ponto, o próprio leitor irá se questionar, várias vezes, se Joe está realmente são ou se a situação com Jed é fruto de seu pensamento ou uma reação de choque normal de alguém que viu o que ele testemunhou no dia do acidente de balão. “Amor sem Fim” se apoia, em boa parte dos seus capítulos, ao desenrolar dessa tensão, dessa dúvida razoável.

O resultado é um livro tão ágil em sua narrativa que nos prende a atenção de uma forma irreversível. O contraste da racionalidade do olhar de Joe ao narrar – com a distância emocional necessária – sua história com a constatação de que ele, ao longo dos acontecimentos, como o próprio protagonista dela, perdeu o controle da emoção e da razão várias vezes é só um dos pontos mais geniais do livro de um dos melhores escritores da atualidade. Ian McEwan, aliás, parece ser um especialista nesse tipo de personagem principal: aquela que vê a sua realidade de acordo com a sua própria experiência, se esquecendo de colocar o ponto de vista dos outros dentro dessa equação – vide o seu personagem mais bem construído: Briony Tallis, de “Reparação”.

Amor sem Fim (2011)
Escritor: Ian McEwan
Editora: Companhia das Letras

Adaptação Cinematográfica: "Amor Para Sempre" (2004), de Roger Michell.

10 comments

    • Kamila 16 agosto, 2011 at 19:37 Responder

      João Linno, é muito legal o livro. Se puder ler, leia. Beijos!

      Matheus, eu adoro o Ian. Este é o terceiro livro dele que leio!

      Cleber, pode comprar sem problema o livro. É muito bom!

    • Kamila 17 agosto, 2011 at 22:20 Responder

      Cassiano, nem eu sabia nada sobre essa síndrome. Entrei em contato por causa do livro, que é excelente. E, sim: adoro o Ian McEwan.

  1. Mayara Bastos 17 agosto, 2011 at 22:48 Responder

    Adoro Ian McEwan, é um belíssimo contador de histórias, mas esse ainda não li, mas está na lista. Recentemente, li “Amsterdam”, que além de envolvente, gostei do uso do mistério, ao mesmo que tem aquele tom de humor.

    Beijos! 😉

  2. Cristiano Contreiras 18 agosto, 2011 at 05:04 Responder

    Que interessante, agora me interessei MAIS pela obra, Ka!
    Sério, eu quase comprei, ontem, na Saraiva. Vou comprar esse final-de-semana, confesso que acho McEwan um escritor super sensível. Ele tem um olhar profundo, bem intimista, sobre a humanidade. Gosto disso! Esse me parece ser um excelente livro, procurarei!

    Ótimo post, beijo!

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