O Palhaço

Existe algo que é chamado de “síndrome do palhaço triste”, que faz referência àquele profissional que sorri quando, na verdade, quer chorar. Esta é a definição perfeita para Benjamim (Selton Mello), o protagonista de “O Palhaço”, filme que marca a segunda incursão de Mello, um dos melhores atores brasileiros da atualidade, na cadeira de diretor. A realidade é que, na maior parte do longa, Benjamim parece estar totalmente inerte à realidade na qual está inserido: a do palhaço Pangaré, que divide a cena com seu pai Valdemar/Puro Sangue (Paulo José), e de responsável pela companhia que viaja cidades do interior do Brasil com o Circo Esperança, que é de propriedade de seu pai.

Benjamim, aliás, é uma personagem extremamente bem construída pelo roteiro escrito por Selton Mello e Marcelo Vindicato. É como se ele não existisse, uma vez que não possui carteira de identidade, CPF ou comprovante de residência. É como se ele fosse aquela pessoa cujo copo está tão transbordado, mas que, ao mesmo tempo, não tem a mínima capacidade de reagir a isso. Benjamim seria um eterno refém de sua existência se não fosse o seu pai olhar para ele para dizer que, se a pessoa não está feliz com o que faz, deve procurar seu próprio caminho. Era esta “coragem” que ele necessitava para decidir caminhar com as suas próprias pernas e se descobrir, tentar ver qual é a dele.

É esta jornada pessoal de Benjamim que move toda a trama de “O Palhaço”. É por meio da tentativa, dos acertos e dos erros de seu protagonista que vemos todo este cenário sendo desenvolvido. Neste sentido, curioso ver a conjuntura que Selton Mello decidiu ancorar a sua história: dentro de uma divertida companhia de circo, com personagens que são quase uma caricatura de si mesmos. Mais peculiar ainda é ver que, por trás de tanta alegria, existe tanta melancolia, tantos silêncios e lacunas que só acabavam sendo preenchidas, vejam só, pelo olhar de uma criança filha de um casal da companhia. Era ela a única a perceber tudo que se passava ao seu redor.

Diferente de “Feliz Natal”, Selton Mello, dessa vez, preferiu acumular as funções de diretor e de protagonista. Que bom que isso não foi em detrimento de algumas dessas tarefas, uma vez que, como diretor e ator de “O Palhaço”, Mello corresponde à altura das expectativas. Seu filme é uma obra repleta de beleza, com detalhes minuciosos que devem ser olhados com atenção (a personagem infantil é somente um deles que citamos aqui) e com aquele tipo de história de apelo universal que deveria ser regra, e não exceção no cinema brasileiro.

Cotação: 8,5

O Palhaço (2011)
Direção: Selton Mello
Roteiro: Selton Mello e Marcelo Vindicato
Elenco: Selton Mello, Teuda Bara, Moacyr Franco, Paulo José

19 comments

  1. victornassar 19 novembro, 2011 at 16:28 Responder

    Atendeu minhas expectativas! Selton Mello conseguiu transmitir um personagens carregado de emoções, mas que pouco externa, muito contido. Engraçado como o filme, mesmo com muitas e muitas homenagens, em participações especiais, ainda consegue unir as diversas “gags” em um propósito na história. Mesmo com pequenos “contos” [que, por sinal, funcionam muito bem soltos] não há aquela sensação de história fragmentada, que tende a se perder no meio do caminho.

    Enfim, adorei o filme! Acho que foi um dos grandes do ano e faz a gente sentir um orgulho danado do cinema nacional.

  2. Fabrício 19 novembro, 2011 at 21:37 Responder

    Gostei muito do filme…e olha que esperava uma comédia de humor popular, no entanto, a obra é extremamente leve e sensível. O que me surpreendeu mesmo foi a cena do delegado à la Tarantino (será delirio meu?), Moacyr Franco dá um show.

    • Kamila 19 novembro, 2011 at 21:44 Responder

      Victor, exatamente. Perfeito comentário. Concordo com tudo.

      Amanda, concordo contigo também!

      Fabrício, Moacyr Franco, realmente, dá show nesta cena. E não acho que é um delírio seu, não! rsrsrs

  3. Flá Costa* 20 novembro, 2011 at 14:26 Responder

    Ai quero muito ver, até porque amo Selton Mello, e as críticas em geral são boas!!!

    O problema é que nem o namorado nem as amigas estao interessados: vou acabar indo sozinha!

    beijoca

    • Kamila 20 novembro, 2011 at 20:24 Responder

      Gabriel, assista, sim, ao filme, se você puder.

      Reinaldo, ainda não?? Corra pra assistir. 🙂 Beijos!

      Flá, Selton é ótimo como ator e tem se mostrado um excelente diretor. Vá sozinha mesmo, mas não perca a chance de conferir o filme. Beijos!

  4. Elton Telles 20 novembro, 2011 at 15:23 Responder

    Ao longo do filme, algumas coisas me incomodaram, sim, mas todas foram praticamente diminuídas pelo singelo e encantador ato final, que caramba, me fez quase aplaudir de pé ao espetáculo =]

    bjs!

  5. Rafael Carvalho 21 novembro, 2011 at 05:11 Responder

    Pensando no estilo de O Palhaço, a mise-en-scène de Selton Mello me lembra muitíssimo os trabalhos de Wes Anderson, o que já é uma grande diferença em relação a seu filme anterior. E isso só reforça o talento de Mello em compor tramas e atmosferas tão distintas

    De qualquer forma, independente das referências, O Palhaço é simples, sem grandes pretensões, mas é tão bem cuidado, os personagens tão interessantes (assim como bizarros), tem um humor tão legal (leia-se, não idiota) que o filme cativa pelo conjunto. É dos melhores do ano, uma glória para o cinema nacional que tava penando em 2011.

    • Kamila 23 novembro, 2011 at 03:16 Responder

      Rafael, não consigo enxergar essa semelhança do Selton Mello diretor com o Wes Anderson. Mas, concordo que a atmosfera deste filme é completamente diferente da estreia dele como diretor. E assino embaixo do segundo parágrafo de seu comentário!

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