A Mulher de Preto

Na sua essência, a trama do suspense “A Mulher de Preto”, do diretor James Watkins, é muito clichê. Uma mansão localizada num vilarejo remoto do interior da Inglaterra esconde segredos trágicos, que assombram a vida das crianças e das famílias da localidade. Entretanto, chama a atenção o fato de que Watkins foge da convencionalidade em algumas das soluções narrativas que foram adotadas por ele no relato desta história.

Para contar a trama de “A Mulher de Preto”, a impressão que se tem é a de o diretor James Watkins tomou como influência uma obra do gênero de suspense no estilo de “Os Outros”, do diretor espanhol Alejandro Amenábar. Isso está visível em elementos como a direção de arte e a fotografia, com predomínio de tons escuros e das cenas realizadas em meio a fortes nevoeiros, bem como pelo fato da storyline principal do filme ter contornos sobrenaturais, que estão de certa forma relacionados ao protagonista do longa.

O jovem advogado Arthur Kipps (Daniel Radcliffe) não foi enviado por acaso ao vilarejo inglês. Viúvo há 4 anos, pai solteiro, ele nunca parece ter se recuperado do baque da perda da esposa. A ida profissional dele à localidade na qual se passa “A Mulher de Preto”, para cuidar dos papeis do dono da mansão que se revela mal assombrada, é a sua última chance de colocar a sua vida profissional - e, consequentemente, a pessoal - nos eixos.

Diante de tudo aquilo que ele acaba descobrindo na mansão, acaba atraindo a atenção da plateia a aparente conformidade dos habitantes do vilarejo com todos os acontecimentos trágicos que decorrem dos fatos ocorridos na mansão. Talvez porque ele mesmo não tem mais nada a perder, é justamente Arthur que irá fazer algo para tentar devolver a paz para aquela comunidade - e quem sabe encontrar a sua própria paz de volta.

Alguns poderiam dizer que Daniel Radcliffe é a escolha errada para interpretar Arthur Kipps, entretanto ele convence como um viúvo pai de família e entrega a densidade certa ao seu personagem. O peso e a dor presentes em seu olhar contrastam muito bem com a passividade das pessoas com quem ele entra em contato no vilarejo e com a posterior raiva que eles todos demonstram em relação à figura dele. Se “A Mulher de Preto” acerta em deixar a plateia nervosa e ansiosa em vários momentos, o diretor acaba errando por não mostrar o momento posterior da cena que encerra o longa. Os desdobramentos da passagem de Arthur Kipps na pequena cidade inglesa seria algo interessante de se ver.

Cotação: 6,0

A Mulher de Preto (The Woman in Black, 2012)
Direção: James Watkins
Roteiro: Jane Goldman (com base no livro escrito por Susan Hill)
Elenco: Daniel Radcliffe, Sophie Stuckey, Misha Handley, Roger Allam, Ciáran Hinds, Janet McTeer

10 comments

  1. Luís 14 março, 2012 at 03:16 Responder

    Daniel Radcliffe realmente compõe uma atuação madura e bastante sóbria, mas fiquei incomodado com o desenvolvimento do filme e pela opção de torná-lo iluminado demais. A maior parte do filme acontecia num ambiente extremamente iluminado que parece incondizente com um filme de terror. E, ademais, não achei a história verdadeiramente interessante, quero conhecer o texto literário.

    • Kamila 14 março, 2012 at 11:19 Responder

      Luís, sim, a atuação dele é, provavelmente, um dos melhores momentos do filme. Entendo a sua observação sobre essa questão do ambiente iluminado, mas eu acho que combinou sim com esse filme de terror, especialmente se a gente for perceber essa observação que fiz em relação à semelhança com alguns pontos de “Os Outros”.

      Cleber, sim, o Daniel vai continuar a carreira dele, especialmente se fizer escolhas desse tipo, que o distancia do universo “Harry Potter” pelo qual ele ficou mais conhecido.

  2. Paulo Ricardo 14 março, 2012 at 22:11 Responder

    Tem um post que o Cristiano Contreiras postou no facebook que resume bem os estilos de atuação de Daniel Radcliffe.É hilário kkkk!

    • Kamila 15 março, 2012 at 11:54 Responder

      Paulo, eu já conversei com o Cristiano, no twitter, sobre a opinião dele em relação ao estilo de atuação do Daniel e eu, respeitosamente, discordo dele.

  3. Kamila 15 março, 2012 at 11:51 Responder

    João Linno, sim, ele está conseguindo se distanciar dessa imagem, o que será ótimo para a carreira dele.

    Reinaldo, não conhecia o selo Hammer, mas achei esse filme bem satisfatório para a sua proposta. Beijos!

    Amanda, jura que aí esse filme estreou com cópias dubladas? Que curioso!

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