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Lendo - "O Diário de Anne Frank"

“Quem mais, além de mim, vai ler estas cartas? Com quem mais, além de mim, posso procurar conforto? Estou sempre precisando de consolo, costumo me sentir fraca, e com frequência deixo de atender às minhas expectativas. Sei disso, e todos os dias resolvo ser melhor.” (p. 152)

Poucos temas foram tão explorados em livros e filmes quanto o holocausto cometido pela ditadura alemã de Adolf Hitler contra os judeus, na década de 1940. Ao mesmo tempo, poucas das obras originadas por este acontecimento histórico possuem o impacto emocional de “O Diário de Anne Frank”, livro escrito pela jovem Anne Frank pelo período (12 de junho de 1942 a 01 de agosto de 1944) em que ela passou confinada com o seu pai, sua mãe, sua irmã e mais 4 outros judeus num anexo localizado no sótão de uma residência em Amsterdã (Holanda). O livro acaba funcionando como um importante registro histórico dos efeitos que a II Guerra Mundial, bem como a perseguição feita por Hitler aos judeus, causaram na rotina, na moral e no lado psicológico dessas pessoas.

Quando entrou no anexo, Anne Frank tinha 13 anos. Por isso mesmo, a primeira parte do seu relato tem muita ingenuidade, especialmente em se tratando do fato que levou Anne e sua família a ficarem escondidos. Eram tempos difíceis, tempos de guerra, dias imprevisíveis, um futuro incerto e o mundo de Anne, nesse período, era alheio a isso, embora fosse uma consequência direta desse fato. Talvez, por isso mesmo, boa parte das primeiras cartas que Anne escrevia ao seu diário eram uma tentativa de mostrar a rotina do anexo, de retratar as atividades que eles faziam para tentar fazer o tempo passar mais rápido, para que eles pudessem chegar um pouco mais perto daquilo que eles acreditavam que fosse ser o fim dos dias deles ali.

Entretanto, na medida em que o livro vai avançando, “O Diário de Anne Frank” tem uma mudança de foco muito forte e que nos faz de testemunhas diretas, como leitores, do processo de amadurecimento pessoal e emocional de Anne. Por isso mesmo, o livro, que tem a visão narrativa predominante de Anne, alterna disposições de ânimo bem variadas. Em certos momentos, a narradora está à beira de uma depressão, em outros ela está revoltada com a impotência diante da situação que vive, em outros ela está esperançosa e otimista diante do futuro e em outros ela faz uma reflexão muito importante não só em relação à situação política que a levou ali, como também sobre o relacionamento delicado que ela tinha com os próprios pais e sobre a forma madura como ela lidou também com a descoberta do amor e da sua sexualidade.

Os oito moradores do anexo foram presos na manhã de 4 de agosto de 1944, provavelmente, por causa da delação de alguém. Chega a ser até curioso que as últimas cartas de Anne ao seu diário revelam que a narradora estava fazendo uma espécie de auto análise muito grande sobre si mesma, sobre a vida no anexo e sobre como a rotina diária ali ocasionou transformações profundas não só nela, como também nos outros sete habitantes do anexo. É como se ela, ao falar sobre a necessidade de reflexão sobre o seu próprio comportamento e de descobrir os benefícios de uma consciência tranquila, estivesse, ela própria, se preparando para o (ou prevendo o seu) fim.

Em muitos momentos de “O Diário de Anne Frank”, a autora demonstra uma certa preocupação com o fato de que ela acreditava que as pessoas nunca iriam se interessar pelo que uma jovem de 13 anos (quando foi presa, Anne tinha 15 anos) escrevia. Em outros instantes de seu diário, Anne divide conosco a vontade que ela tinha de mudar o mundo, de ser útil e de poder continuar vivendo após a morte. Anne tinha um dom: o de utilizar as palavras para escrever todos os seus pensamentos e sentimentos. Ao fazer isso, acabou escrevendo um livro que chega a ser um verdadeiro testemunho não de sofrimento, mas, de uma certa maneira, de conforto e de ajuda. Anne, provavelmente, não sabia a força que tinha e nem imaginava que seu livro teria o mesmo apelo quase 60 anos após ser lançado. “O Diário de Anne Frank” é um exemplo de resiliência e de perseverança em meio ao pior momento da vida de uma pessoa. Anne Frank faleceu aos 15 anos, no campo de concentração de Bergen-Belsen, provavelmente de tifo. A missão dela foi cumprida: ela mudou pra melhor e inspirou, com certeza, as pessoas que leram o seu relato a fazerem o mesmo.

O Diário de Anne Frank (30ª Edição - 2010)
Editora: Record
Autora: Anne Frank (Por Otto H. Frank e Mirjam Pressler)

14 comments

  1. Flavio Junio 11 julho, 2012 at 12:55 Responder

    Ótimo texto Kamila. Recentemente assisti ao filme Minha querida Anne Frank, de 2009 creio eu, e me emocionei bastante com a história dessa menina, que sem exageros é uma das mais famosas personalidades femininas da história.

    • Kamila Azevedo 11 julho, 2012 at 19:26 Responder

      Flavio, obrigada! Eu nunca assisti a nenhum filme baseado nesse livro, que, por sinal, demorei demais pra ler. Era pra ter feito isso antes, mas tinha medo da temática. Que bom que perdi a frescura!

      Pedro, eu preciso assistir a esse filme de 1959. Todo mundo fala sobre ele.

    • Vanessa 21 julho, 2012 at 15:00 Responder

      Vi o filme ontem e já li o livro. O filme está disponível na íntegra no You Tube, vale à pena ver, mas é claro que não se compara ao livro. Ainda sim o recomendo, são 3h de duração.

  2. Jeniss Walker 12 julho, 2012 at 00:25 Responder

    Tenho esse livro em casa. Nos estudos sobre 2º Guerra Mundial, no curso de História que faço aqui na UFMT, é uma fonte interessante de pesquisa (uma pena que não haja um grupo de pesquisa no curso que se interesse pela conexão literatura-história do século XX). Não gosto muito da Anne Frank do início do livro (as vezes passa a impressão que quer que todos prestem atenção nela). Mas conforme o fim vai chegando, a história melhora muito. Gosto da dinâmica entre os europeus descritos pela Anne. Uma ou outra leitura desse clássico é sempre boa pedida.

    O texto está muito bom. Abraço, Kamilla :)

  3. Luís 12 julho, 2012 at 07:03 Responder

    Seu texto é muito bom e quase me convenceu a ler essa obra que, honestamente, não tenho a mínima vontade de conhecer bem como não me interessa conhecer os títulos cinematográficos oriundos da escrita da garota. Realmente não me sinto interessado, feliz ou infelizmente, mas penso que eventualmente eu o vá ler.

    • Kamila Azevedo 12 julho, 2012 at 14:20 Responder

      Jeniss, eu também tenho esse mesmo livro em casa. Eu não diria que não gosto da Anne Frank do início do livro, porque eu a compreendo. Deve ter sido difícil para uma jovem como ela se ver naquela situação, mas o que mais me chamou a atenção no livro foi a forma como conseguimos perceber todo o processo de amadurecimento de Anne, a forma como ela foi se transformando no convívio no anexo. Obrigada! Abraço!

      Luís, eu nunca tinha lido esse livro, apesar de sempre ter tido muita vontade de fazer isso. Até demorei demais a lê-lo. Espero que, se chegar a ler a obra, goste tanto quanto eu.

  4. Elloa 15 julho, 2012 at 18:18 Responder

    Que bom saber da existência destes filmes! Quero ver também! Também já tinha lido o livro e gostei muito do seu relato sobre ele. Kamila, o blog tá a cada dia melhor, parabéns!

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