Corações Sujos

Baseado no livro homônimo escrito por Fernando Morais, “Corações Sujos”, filme dirigido por Vicente Amorim, tem um contexto histórico muito bem definido. A história se passa no período após o final da II Guerra Mundial, em 1945, quando a colônia japonesa no Brasil, que, naquela época, era composta por mais de 200 mil imigrantes ficou dividida em dois grupos: aqueles que acreditavam na vitória japonesa no conflito (uma vez que o Japão nunca tinha perdido uma guerra) e aqueles que aceitavam a verdade da rendição japonesa aos países aliados (Estados Unidos, Inglaterra e União Soviética).

O título do filme faz justamente referência à alcunha que aqueles que aceitavam a rendição japonesa no conflito ganharam dos membros do outro grupo, que acreditavam que tudo isso não passava de uma fraude criada pelos países aliados. A falta de tolerância entre as opiniões diversas foi que levou a uma verdadeira guerra local que acarretou na realização de atentados pelo Estado de São Paulo, no período de janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, que resultaram na morte de 23 imigrantes japoneses e deixaram cerca de 150 imigrantes feridos.

O diretor Vicente Amorim conta esta história usando como pano de fundo uma história de amor. Miyuki (Takako Tokiwa) é a professora de uma pequena comunidade formada por imigrantes japoneses, no interior do Estado de São Paulo. Casada com Takahashi (Tsuyoshi Ihara), que, assim como muitos outros imigrantes, era um dedicado trabalhador braçal, o mote do roteiro escrito por David França Mendes, é mostrar a professora assistindo, aos poucos, o seu marido sucumbir à influência do Coronel Watanabe (Eiji Okuda) e se transformar num assassino frio, que não contesta nenhuma das ordens que recebe. Ao mesmo tempo, ao testemunharmos a derrocada dessa história de amor, somos também os olhos que veem uma comunidade anteriormente pacífica se transformar numa localidade dominada pela dor  advinda da perda de pessoas queridas.

Uma obra bastante ambiciosa e toda falada em japonês, “Corações Sujos” se apoia, basicamente, na força da história que deseja contar, a qual tem um potencial narrativo muito bom. Além disso, o filme encontra no seu elenco um ponto bastante positivo, na medida em que os atores conseguem passar bem a profundidade do conflito intelectual, emotivo e físico pelo quais as pessoas daquela determinada colônia japonesa passaram. Entretanto, o longa peca por ter uma conclusão muito poética, que termina por não combinar com toda a densidade do que acabamos de assistir, uma vez que esta é uma história sobre a perda da inocência - seja ela da infância, do amor ou das expectativas que lançamos em cima das pessoas que fazem parte de nosso dia a dia.

6 comments

  1. Reinaldo Glioche 24 novembro, 2012 at 12:34 Responder

    Tenho interesse por esse filme e gostei da sua análise. Confesso que a obra de Vicente Amorim me desperta interesse e mantenho as boas expectativas em relação a este filme. Quanto ao final poético, me parece uma assinatura de Amorim – ainda que vc pontue que não funcione tão bem aqui.
    Bjs

Deixe uma resposta