Magic Mike

Levemente baseado na experiência pessoal do ator Channing Tatum, que, antes de alcançar o estrelato como ator de cinema, trabalhou como stripper, “Magic Mike”, do diretor Steven Soderbergh, tem uma trama que, na realidade, é um verdadeiro clichê do cinema. No longa, Tatum interpreta Mike, que é a estrela dos shows de strip masculino promovidos pelo clube Xquisite, de propriedade de Dallas (Matthew McConaughey). Entretanto, Mike deseja muito mais do que isso para a sua vida e a intenção dele é juntar o máximo de dinheiro possível para que ele possa dar entrada num empréstimo e começar seu negócio de móveis personalizados.

Um elemento curioso sobre “Magic Mike”, no entanto, é que o roteiro escrito por Reid Carolin se esquece dessa trama principal por boa parte dos 110 minutos de duração do filme. O enfoque maior do longa é a relação que se estabelece entre Mike e Adam (Alex Pettyfer), um jovem que ele conhece no ramo da construção (um dos muitos empregos que o protagonista possui) e que ele acaba introduzindo ao mundo do strip masculino. Mike toma Adam como protegido e cuida dele, como se fosse um irmão mais velho, dentro e fora dos palcos.

Por meio da relação construída entre Mike e Adam, temos a constatação de um dos pontos mais legais de “Magic Mike”: mostrar as formas distintas pelas quais duas pessoas podem encarar a mesma realidade. Explico: Mike possui um objetivo na vida. Ele pode ter se acomodado naquilo que ele faz, atualmente, mas ele é um profissional dedicado e, no fundo, trabalha para buscar isso. Ao contrário de Adam, que cai de para quedas num mundo que ele desconhecia por completo, mas que acaba se deslumbrando com tudo aquilo que lhe é oferecido (dinheiro fácil, mulheres e diversão).

É justamente deste conflito que podemos tirar a moral (se é que isso existe mesmo) em “Magic Mike”. O filme, na verdade, é um confronto de Mike consigo mesmo. Um choque de realidade, por meio do contato dele com diferentes pessoas (destacamos também aqui, nesse sentido, o encontro de Mike com a irmã de Adam, interpretada por Cody Horn), por meio da vivência dele de diversas experiências (de alegria e de decepção), sempre tendo em busca a conclusão daquele clichê que mencionamos no início de nosso texto. Tudo o que assistimos nesta obra busca justamente colocar Mike diante da grande decisão que ele tem que tomar em sua vida. Uma pena que a cena que retrata justamente a realização do propósito do personagem forçar uma conclusão tão apressada para um longa que possui um carisma todo próprio - uma vez que você não acredita na mudança de rumo da personagem e, muito menos, no desenrolar do sentimento que move essa decisão.

14 comments

  1. vianapatricio 27 novembro, 2012 at 02:07 Responder

    Acredito que o filme possa e deva ter sim uma boa história mas, ainda assim, prefiro me ater à filmes que tenham por via de sua comunicação uma edificação maior que o sentido idealizado.

    • Kamila Azevedo 27 novembro, 2012 at 02:12 Responder

      Viana, também gosto muito mais de filmes que tenham uma comunicação melhor que o sentido que ele idealiza. Filmes que me ajudem a compreender o mundo em que estamos inseridos.

  2. Reinaldo Glioche 27 novembro, 2012 at 16:51 Responder

    Não acho que a ocupação principal do roteiro seja o caminho para o “sonho de vida” e sim esse conflito (por vezes capenga, concordamos) de Mike consigo mesmo – cristalizado a partir de sua relação com Adam. Enfim, Magic Mike não é nenhuma maravilha, mas é bem melhor do que sua (bela?) embalagem sugere…
    bjs

    • Kamila Azevedo 27 novembro, 2012 at 19:18 Responder

      Reinaldo, bom, você está certo, mas acho que o filme peca pelo final, que achei muito forçado, como bem disse em meu texto. Beijos!

  3. Amanda Aouad 27 novembro, 2012 at 19:28 Responder

    Então, eu acho que o problema é mais ou menos esse que você apontou, a questão do desenvolvimento do personagem Mike. A parte final é jogada na tela, mudando o foco do que foi apresentando antes, e aquela cena final é lamentável, até os atores pareciam desconfortáveis em cena. Poderia desenvolver o drama de uma forma mais adulta, séria, ficaria mais interessante.

  4. Paulo Ricardo 28 novembro, 2012 at 20:31 Responder

    Kamila “Magic Mike” dividiu muito a critica(O site Rotten Tomatoes aponta para criticas pesadas).Não vou falar sobre Channing Tatum(que esse ano provou que é ator e não celebridade) ou Soderbergh(já afirmei aqui no site que prefiro ele envolvido em roteiros do porte de “Traffic”,”Erin Brokovich” ou “Irresistivel Paixão”).Matthew McDounaghey foi nomeado ao Spirit Awards e vc considera como possivel nomeado ao Oscar?

    Beijos!

    • Kamila Azevedo 29 novembro, 2012 at 01:40 Responder

      Paulo, a indicação de Matthew McConaughey ao Spirit Awards foi uma surpresa que, na minha opinião, não deverá se repetir nem no Golden Globe, muito menos no Oscar. A atuação dele não merece indicação… Beijos!

  5. Elton Telles 29 novembro, 2012 at 16:09 Responder

    Concordo com boa parte do seu texto, Ka, mas pra mim, o pior aspecto de “Magic Mike” é o seu desfecho moralista. O filme já estava bobo desde o princípio – ainda que o início é um filme bem animado e empolgante -, mas depois vira uma comédia romântica sem sal e afunda com um conservadorismo que não combina com o filme, a refutação de Mike em não querer ser Magic Mike… poxa… desnecessário.

    achei o filme bem medíocre mesmo. Uma pena, porque o mundo do strip masculino é pouco explorado e quando é, sai isso aí… não que eu sinta falta, mas… haha!

    Bjs

    • Kamila Azevedo 30 novembro, 2012 at 01:19 Responder

      Elton, obrigada! O desfecho é mesmo muito moralista, além de forçado, como eu mesma disse. O pior nessa mudança de rumo do filme é que o amor que, supostamente, se desenvolve não tem carisma, muito menos faz a gente crer nesse sentimento. Fica uma coisa muito solta e forçada mesmo. O conservadorismo do final vai contra, realmente, o desenvolvimento prévio da trama, mas essa deve ter sido alguma concessão feita… Não diria que o filme é medíocre, mas, sim, muito mal desenvolvido. Beijos!

  6. Matheus Pannebecker 6 dezembro, 2012 at 16:45 Responder

    Kamila, fiquei particularmente decepcionado com esse filme. Ele foi, para mim, menos divertido do que poderia ser, sem falar que aposta em dramas muito batidos. O Soderbergh ainda teve a chance de quebrar o preconceito com a nudez masculina – algo que não vemos de forma tão escancarada no cinema – mas também não conseguiu trabalhar essa abordagem direito. Uma pena! =/

    • Kamila Azevedo 7 dezembro, 2012 at 02:46 Responder

      Matheus, eu não diria que esse filme me decepcionou. A trama é muito batida mesmo e o final é muito forçado. Concordo em relação ao seu comentário sobre o Soderbergh.

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