Simplesmente Eu, Clarice Lispector

De muitas formas, a escritora Clarice Lispector era uma mulher inatingível. Para muitos, seus livros são difíceis de compreender, necessitando várias leituras, em vários momentos distintos de vida, para serem adquiridos ou entendidos os seus significados. Para muitos, ela mesma era enigmática e misteriosa, com uma imagem austera. Para muitos, ela era considerada, como bem Benjamin Moser definiu na biografia que escreveu sobre ela, a Esfinge do Rio de Janeiro. Porém, de uma forma ou de outra, Clarice Lispector atingiu e emocionou, com sua escrita, a vida de muitas pessoas, se transformando na maior escritora brasileira de todos os tempos.

O espetáculo teatral “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”, dirigido, escrito e estrelado por Beth Goulart, tenta ser mais uma obra a jogar uma luz em cima de uma figura que é deveras fascinante. De acordo com o release oficial, o monólogo “é um diálogo da escritora com quatro de suas personagens em busca do entendimento do amor, suas incertezas e contradições”. Desta forma, tendo como base depoimentos, entrevistas e correspondências de Lispector, entramos em contato com Clarice, ao mesmo tempo em que, por meio de personagens que ela mesma criou (para os livros “Perto do Coração Selvagem”, “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” e os contos “Amor” e “Perdoando Deus”) somos confrontados com a crueza e a força de suas palavras e do universo literário que ela criou.

No palco, uma decoração de cena simples, porém sofisticada. Uma espécie de divã (seria a escrita de Clarice uma espécie de confessionário?), uma máquina de escrever e duas cadeiras. A predominância do branco chama a atenção, de forma acertada, para os figurinos vestidos por aquela que é a dona absoluta desse espaço: a atriz Beth Goulart. Vencedora do Prêmio Shell de Melhor Atriz, em 2009, Goulart conseguiu incorporar por completo não só quem era Clarice Lispector, como também passar toda a densidade e emoção contida nos textos que foram escritos pela autora. É um trabalho sensacional e completo, digno de todos os elogios e de todos os prêmios que ela conquistou.

Além da atuação excelente de Beth Goulart e do ótimo trabalho de concepção dos elementos artísticos (especialmente a direção de arte, os figurinos e a iluminação) que compõem “Simplesmente Eu, Clarice Lispector”, chama a atenção, na peça, o fato de que o roteiro enfoca, principalmente, as diversas contradições existentes na própria figura de Clarice Lispector. A escritora era intensa, devotada à sua emoção, ao amor e, principalmente, à sua arte. Uma incongruência ou outra é até normal em pessoas com esse perfil. No final, é bom sempre se apegar às frases de Clarice Lispector. Para citar uma relacionada diretamente ao título da peça: “simplesmente eu sou eu. E você é você. É vasto, vai durar. Por enquanto tu olhas para mim e me amas. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo”. Clarice sabia das coisas...

Simplesmente Eu, Clarice Lispector
Direção, Roteiro e Elenco: Beth Goulart
Peça vista no Teatro Riachuelo, no dia 27 de novembro de 2012.

4 comments

    • Kamila Azevedo 4 dezembro, 2012 at 17:18 Responder

      Amanda, eu gosto muito da literatura da Clarice Lispector e, mais ainda, da figura enigmática que ela era. Acho que assisti à peça, muito em parte, por causa disso. Desse desejo de também entendê-la e ver como ela era por trás de tanta arte intensa. A peça é sensacional! Espero que tenha a chance de conferir.

  1. Clóvis Tayllon 12 dezembro, 2012 at 19:56 Responder

    Se trata de uma peça? Ao ver o título da matéria, achei que era um livro a respeito da autora. Eu não estou completamente familiarizado com a Clarice como pessoa, muito embora eu admire a escrita e as obras dela, bem como o que ela representou e ainda representa para a literatura brasileira. Fica a dica.

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