A Viagem

As línguas maldosas irão concordar com a tradução nacional do título que “Cloud Atlas”, filme dirigido e escrito por Andy Wachowski, Larry Wachowski e Tom Tykwer, recebeu, tendo em vista o fato de que “A Viagem” é, literalmente, uma viagem. No tempo, em influências (cinematográficas ou não) e, principalmente, de pensamentos. Talvez, muita gente, mesmo após os 165 minutos de duração do longa, vai sair da sala de cinema sem entender o que acabou de assistir. Eu concordo que é difícil enxergar as conexões entre as seis histórias que vemos em tela, entretanto, é só prestar atenção nas narrações em off. Elas ajudam muito na tentativa de compreender o filme.

Baseado no livro escrito por David Mitchell, “A Viagem” parte do princípio de que as seis histórias que acompanhamos - como a de um viajante no Oceano Pacífico, lidando com questões ligadas à escravidão; a de uma jornalista que investiga um crime; a de um homem num futuro pós-apocalíptico; a de uma profeta na Neo Seul; a de um editor na Inglaterra e a de um aspirante a compositor - estão conectadas umas às outras na medida em que o passado, o presente e o futuro estão diretamente ligados aos nossos atos; os quais, por consequência, são determinados pelos nossos sentimentos de fé, medo e amor.

Essa intenção de concomitância entre os diversos tempos narrativos está reforçada pela decisão do trio de diretores de colocar os atores principais de “A Viagem” interpretando múltiplos papeis no decorrer do filme. Por exemplo: Tom Hanks, Halle Berry, Hugo Weaving, Hugh Grant e Jim Sturgess dão vida a seis seres deste múltiplo universo narrativo; enquanto que Jim Broadbent, Doona Bae e James D’Arcy interpretam cinco. Ben Whishaw (dono da melhor atuação do filme, como o compositor Robert Frobisher), por sua vez, fica com quatro personagens.

Tudo isso nos mostra como “A Viagem” é um filme pretensioso. Até mesmo essa palavra é injusta para descrever o que é que o filme representa. Na realidade, estamos diante de uma obra complexa em sua estrutura narrativa, na sua concepção artística e na mensagem que nos quer passar. Uma das poucas certezas que temos ao fim de “A Viagem” é sobre a excelência técnica da obra, especialmente no que diz respeito à fotografia, à trilha sonora, à maquiagem, aos figurinos e aos efeitos visuais e sonoros. Provavelmente, esse é um daqueles longas que vai exigir da plateia mais de uma visita e que vai receber, do tempo, o seu devido reconhecimento, quem sabe.

22 comments

  1. Marcelo Keiser 24 janeiro, 2013 at 05:13 Responder

    Eu esperava bem mais desse filme. E provavelmente irei vê-lo na telinha novamente apenas por desencargo de consciência. É inegavel que se trata de um projeto de difícil realização, porém é certo dizer que: tá na chuva é para se molha. E se o resultado duvidoso não tenha alcançado suas pretensões plenamente, não cabe necessariamente ao espectador assumir a responsabilidade do mediano sucesso ao qual esse longa resultou.

  2. Reinaldo Glioche 24 janeiro, 2013 at 13:30 Responder

    Gostei do começo da sua crítica. rsrs. Bem, apesar da eloquência das suas observações, não consegui depurar se sua avaliação do filme é positiva.De qualquer maneira, é uma proposta ambiciosa que precisa ser reconhecida simplesmente pro existir. Mas louvar o aspecto técnico de um filme com tamanha ambição é, no mínimo, uma decepção. Não é mesmo?
    Bjs

  3. Amanda Aouad 24 janeiro, 2013 at 14:26 Responder

    Bom, eu achei pretensioso também, mas tem mesmo uma força ali que me fisgou. Preferi não escrever sobre ele antes de ver uma segunda vez. Acho que essa é a primeira vez que faço isso. Já é um indício de que não é um filme qualquer. E a parte técnica é mesmo impressionante.

    • Kamila Azevedo 24 janeiro, 2013 at 20:11 Responder

      Marcelo, eu nunca crio expectativas em relação a um filme como “A Viagem” e acho que essa é a maneira correta de começar a assistir a um filme assim, que tem uma proposta diferente do que a gente considera comum. Sim, é um projeto de difícil realização, mas acho que a complexidade dele vem muito das falhas do roteiro, ou melhor, da falha do roteiro em conseguir deixar as conexões mais claras para a plateia. Por isso que o resultado acaba sendo duvidoso. E não quis deixar a impressão de que a falta de compreensão do espectador é culpada pelo sucesso mediano de “A Viagem”. Pelo contrário. Se existe falha de comunicação, a culpa é de quem realizou a obra…

      Reinaldo, obrigada! Acho que a minha avaliação do filme é neutra. Acredito que eu preciso assistir ao filme novamente pra poder saber se realmente o apreciei ou não. Concordo com o fato de que “A Viagem”, mesmo com ambição, merece nosso reconhecimento por se propor a ser diferente do que é comumente visto no cinema. Não acho que louvar a qualidade técnica de um filme assim é decepcionante. Acho que decepcionante é o filme não ter conseguido se comunicar devidamente com a plateia. Beijos!

      Amanda, eu também fui fisgada pelo filme. Assisti “A Viagem” com muita atenção. Acho que a sua decisão de não escrever sobre o filme até revê-lo foi muito prudente. Eu mesma tive dificuldades de conseguir terminar essa resenha crítica. Porque não sabia direito como me expressar sobre o filme. E não sei se consegui fazer isso direito.

  4. vianapatricio 24 janeiro, 2013 at 15:13 Responder

    O filme requer além da atenção para conectar-se as ideias e histórias entrelaçadas, o senso tecnológico espiritual, qual seja, a ciência das sucessões das vidas que se ligam de forma coesa e racional na busca da harmonização e despertamento dos seres para algo maior que suas personas, que sua necessidade egoica de ser tudo e ter tudo, menos o sentir-se Ser ao presenciar-se no vibrar de sua essência. O filme remonta essa conectividade das existências, porém peca bastante ao trazer tudo como que uma repetição. As vidas se sucedem, e isso é um fato, por mais que queira-se ainda negar tal realidade, a ciência espírita já provara tal questão, que parece ser algo atual, mas que já é uma verdade e vivência milenar para os orientais. A dúvida e negação permanece apenas naqueles que insistem em permanecerem presos à cultura religiosa Ocidental ainda tão arraigada. Mas como dizia, essa repetição não é bem verídica, não repetimos papéis e mudamos apenas a “carcaça física”, claro que demoramos a mudar de postura, mas o propósito desse princípio da pluri-existencialidade é o aprimoramento tecno-moral, e o filme traz apenas a evolução tecnológica, em quanto que a moral é deixada de lado. Acredito que a lógica arquitetada para trazer essa realidade ainda pouco aceita aqui no Ocidente não foi tão inteligente, não pela falta de inteligência na conectividade das ideias propostas, mas pela complexidade que fora remontada uma ideia que ainda é tão pouco aceita justamente pela falta de compreensão e abertura ao novo. Mas se o que era desejado era justamente marcar um entrave nas nossas mentes, ainda tão minimizadas a essa questão das sucessões existenciais, acho que então serviu apenas para isso, para cutucar aqueles que comodamente preferem negar a pensar em tal possibilidade, pois agora já podem mesmo que complexamente, se ver na possibilidade disso tudo ser não mais que ficção, mas sendo a própria realidade.

    • Kamila Azevedo 24 janeiro, 2013 at 20:17 Responder

      Celo, boa visão sobre “A Viagem”, mas eu acho que o filme se centra mais no fato de que tudo está interligado. Abraço!

      Viana, seu comentário fica como um excelente complemento ao texto, uma vez que você oferece uma visão bem interessante em cima do que está escrito e, principalmente, do filme. Acho que o que prejudicou “A Viagem” foi justamente isso a que você se refere: a estrutura complexa da narrativa. Acho que houve uma grande falha de comunicação que impediu que a gente compreendesse bem todo o propósito do filme. A mensagem do filme é muito boa, muito bonita, mas acho que faltou uma simplicidade maior. Porque ser complexo é complicado, mas ser difícil é mais complicado ainda.

  5. Rafael Carvalho 25 janeiro, 2013 at 03:19 Responder

    Olha, esse filme sinceramente não funcionou tão bem comigo. Eu nem me importo em não compreender exatamente todas as interconexões e acho que essa necessidade de amarrar todas as pontas é também um exercício simplista; mais interessa as sensações que esse tipo de proposta parece evocar do que uma compreensão racional da coisa toda. Mas o maior problema aqui é que os personagens e suas histórias não me cativaram, nenhum deles. O filme passa quase todo desinteressante e sem atrativos. Queria até ver de novo, mas aguentar 3h com esses personagens aí não me parece ideia das mais agradáveis.

    • Kamila Azevedo 25 janeiro, 2013 at 13:31 Responder

      Rafael, se você não se sentiu cativado pelos personagens e pela história, realmente, fica difícil que o filme funcione contigo. Acho que você pode tentar ver de novo. Quem sabe os personagens não te cativam, dessa vez? 🙂

  6. Emerson 26 janeiro, 2013 at 11:25 Responder

    Os irmãos Wachowski enveredaram novamente para uma ficção que mescla religião apocalíptica com amor espiritual. Como em Matrix se utilizam da filosofia budista, mas dessa vez com um pé no espiritismo, a mensagem fica mais clara para os orientais, creio que não souberam deixar isso claro a nós, meros ocidentais que desconhecemos muito da cultura milenar do oriente. Eu jamais tinha me atentado para o lado budista de Matrix, pensava no Oraculo como uma representação grega, que se evidencia na frase de Sócrates e a própria presença deste no Oraculo de Delfos, no entanto, quando conversei com um Taiwanês, este me deu sua versão do filme segundo uma ótica budista, e realmente era aquilo. A Viagem segue essa linha também e mais algumas experimentações, no entanto, não foram claros o suficiente como em Matrix, é o ponto negativo do filme, que não deixa de ser bom!

    Abraço!

    • Kamila Azevedo 27 janeiro, 2013 at 01:37 Responder

      Emerson, comentário interessante, mas, pra ser bem sincera, acho que “A Viagem” é muito diferente de “Matrix”. Abraço!

  7. Paulo Ricardo 27 janeiro, 2013 at 20:37 Responder

    Kamila,eu assisti esse filme no cinema e estava com muitas expectativas mas não entendi a parte final.É um dos filmes mais confusos dos últimos anos.O fato de 4 atores interprar diferentes personagens atrapalha bastante.Na sessão que eu estava presente muitas pessoas saíram.É um filme de forte apelo espirita.Mas admito que não consegui entender a proposta do filme e vou ter que rever.Só não sei quando.Merecia uma nomeação ao Oscar na categoria maquiagem.Beijos.

    • Kamila Azevedo 28 janeiro, 2013 at 00:43 Responder

      Paulo, eu não assisti ao filme com expectativas e acho que isso acaba sendo o mais adequado. Não diria que esse filme é confuso, mas ele é complexo, difícil de entender por causa disso mesmo. É uma obra ambiciosa e pretensiosa. Na minha sessão, muita gente saiu também. O filme tem um apelo espiritual e uma mensagem interessante e precisa ser revisto, mais de uma vez. E merecia mais de uma indicação ao Oscar… Beijos!

  8. bruno knott 28 janeiro, 2013 at 10:38 Responder

    Pois é, A Viagem pede por um pouco mais de atenção… aí a experiência fica muito melhor. Sem dúvida ele pede por uma segunda assistida, algo que espero fazer ainda este ano.

  9. museudocinema 29 janeiro, 2013 at 18:48 Responder

    Deixar que o tempo o julgue? Bom, geralmente no cinema isso é indicativo de qualidade. Eu confesso que ainda não senti vontade de ver essa “viagem” dos irmãos, agora casal de irmãos. Mas sua defesa é algo a computar favoravelmente. Qto a O Mestre Kamila, é imperdivel.

    • Kamila Azevedo 29 janeiro, 2013 at 21:12 Responder

      Cassiano, “A Viagem” tem muita qualidade. Mas, é um filme difícil, com uma comunicação meio complexa com a plateia. E quero muito assistir a “O Mestre”.

  10. Otávio Almeida 30 janeiro, 2013 at 14:20 Responder

    Tem razão. No final só temos certeza da excelência técnica do filme. Mas acho que o filme pára por aqui. O tempo não vai dizer mais nada além do que já temos. Porque não estamos mesmo falando de um filmão. Pode escrever isso aí. Eu garanto.

    Bjs!

  11. Luiz Felipe 17 fevereiro, 2013 at 02:16 Responder

    A todos a grande resposta está no final quando a “tradição oral” fica depois me milênios marcada frente a tantos interesses comerciais (comida), guerras, violências, ódios e amores… e o beijo verdadeiros dos “velhos” ao se despedirem dos netos e estudantes… diz tudo!

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