Django Livre

De uma certa maneira, ao assistirmos a “Django Livre”, novo filme dirigido e escrito por Quentin Tarantino, nos lembramos bastante de sua obra anterior, “Bastardos Inglórios”, na medida em que ambos os longas possuem a vingança como tema central. Além disso, o desenvolvimento da narrativa de “Django Livre” recorda muito a de “Bastardos Inglórios”, especialmente no fato de que Tarantino passa boa parte da duração do seu filme construindo um contexto, ligado a algum fato histórico, que leva à consolidação da motivação do plano de vingança da personagem central.

“Django Livre” se passa em 1859, dois anos antes do início da Guerra Civil norte-americana, que foi o conflito que colocou em lados opostos os Estados do Sul defensores da escravidão contra os Estados do Norte que defendiam um pensamento contrário. Um fator importante que Quentin Tarantino acrescenta a essa história é a figura de Django (Jamie Foxx), um escravo liberto que vai se levantar contra aqueles que mantinham escravos, pois era sua intenção encontrar e libertar a sua esposa, Broomhilda (Kerry Washington, repetindo a parceria que fez com Foxx em “Ray”), que era mantida como escrava na fazenda de Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), que era oriundo de uma família com um histórico longo dentro do comércio de escravos.

Entretanto, ao contrário do que assistimos em “Bastardos Inglórios”, “Django Livre” não ganha a partir do momento em que a missão da personagem principal começa a ser cumprida. O filme encontra seus melhores momentos no primeiro ato, quando Quentin Tarantino se propõe a trabalhar a relação que se desenvolve entre Django e o Dr. King Schultz (Christoph Waltz, em uma performance sagaz indicada ao Oscar 2013 de Melhor Ator Coadjuvante), um caçador de recompensas que ensina os meandros dessa profissão para o ex-escravo e acaba se tornando parceiro dele, não só profissional, como também na jornada pessoal de Django em busca da esposa (e até mesmo quando estamos aqui, o longa se sobressai quando a interação entre os dois personagens, valorizada pela sólida atuação de Leonardo DiCaprio, domina a tela).

Indicado a cinco Oscars 2013, incluindo os de Melhor Filme e de Roteiro Original, “Django Livre” é um filme que comprova a maturidade técnica de Tarantino como diretor (nesse ponto, nos referimos ao fato de que ele consegue equilibrar as suas influências externas, como as do spaghetti western, com uma linguagem mais tradicional e clássica do ponto de vista cinematográfico), mas que, ao mesmo tempo, revela que Quentin se entregou a uma certa dose de exagero. Em muitos momentos, “Django Livre” soa mais longo e, especialmente, mais violento do que deveria ser. Entretanto, ao mesmo tempo, o filme emana muita paixão e convicção - e isso é um reflexo direto da forma apaixonada com que Tarantino faz cinema, a qual acaba comovendo e contagiando a muita gente.

Indicações ao Oscar 2013
Melhor Fotografia - Robert Richardson
Melhor Edição de Som
Melhor Filme
Melhor Ator Coadjuvante
- Christoph Waltz
Melhor Roteiro Original - Quentin Tarantino

23 comments

  1. Alessandro 31 janeiro, 2013 at 02:40 Responder

    Que bom que mais alguém percebeu essa evolução e maturidade técnica da direção de Tarantino.
    É sem dúvidas, ao menos para mim, sua melhor direção, e merecia muito esta indicação, ainda mais quando vemos nomes como David O. Russell e Benh Zeitlin indicados.

    • Kamila Azevedo 31 janeiro, 2013 at 02:58 Responder

      Alessandro, acho que essa evolução e maturidade técnica do Tarantino, como diretor, está às claras desde “Bastardos Inglórios”. Ele está merecedor de uma indicação ao Oscar dessa categoria, mas não posso julgar os trabalhos de Russell e Zeitlin, já que não assisti aos seus filmes.

      , concordo. O filme poderia apelar menos para as cenas de violência, ou ser menos incisivo nesse sentido.

    • jorge 6 fevereiro, 2013 at 23:52 Responder

      Penso totalmente ao contrario, django livre é um filme esplendido cem duvida um dos melhores filmes de todos os tempos ,um filme que mostra a dura realidade que foi a escravidao,parabens ao autor

  2. Reinaldo Glioche 31 janeiro, 2013 at 13:19 Responder

    Concordo com suas observações. É um filme em que Tarantino se projeta muito bem tecnicamente, mas que não repete a força narrativa e o apuro de linguagem que foi “Bastardos inglórios”. Agora, o que é Leonardo DiCaprio em cena, hein? Das melhores atuações que eu vi nos últimos dois anos…
    Coisa bárbara!
    bjs

  3. Amanda Aouad 31 janeiro, 2013 at 17:38 Responder

    Concordo que a direção aqui é melhor que o próprio roteiro, o que é curioso pelo fato da indicação ao contrário ao Oscar. Django é muito longo, não apenas pela duração, mas pela sensação de que a cada cena o assunto já acabou e fica mais um tempo até mudarmos para a próxima. Quanto as atuações Christoph Waltz, Leonardo Di Caprio e Samuel Jackson estão incríveis.

    • Kamila Azevedo 31 janeiro, 2013 at 19:15 Responder

      Reinaldo, obrigada! O Leonardo DiCaprio está excelente e merecedor de uma indicação ao Oscar que acabou não vindo. Uma pena! Beijos!

      Amanda, sim, a direção é bem melhor que o roteiro. De qualquer forma, Tarantino foi indicado e isso era merecido pelo bom trabalho desempenhado aqui. Concordo com sua observação de que o filme é muito longo. Concordo com os três atores que você destaca.

      João, e merece mesmo a atenção! Abraços!

  4. Alvaro 31 janeiro, 2013 at 22:41 Responder

    Django é um corte epistemológico na história, tanto do Cinema, quanto na obra de Tarantino. Nota 10, com louvor, em todos os quesitos.

    • vianapatricio 7 fevereiro, 2013 at 01:50 Responder

      Não concordo muito, acho que é um filme bastante insuficiente de história, que precisa apelar drasticamente para cenas que desgastam por excessos desnecessários. Parece mais um conto de fadas do velho oeste.

  5. Matheus Pannebecker 1 fevereiro, 2013 at 00:32 Responder

    “Django Livre”, na minha opinião, é muito mais “Kill Bill” do que “Bastardos Inglórios”. Na realidade, o que esse novo filme de Tarantino tem em comum com “Bastardos” é justamente aquilo que não gosto: esse flerte muito perigoso dele com o excesso de diálogos, com sua própria vaidade. Mas gostei muito de “Django Livre”, que é muito divertido e com um elenco afiadíssimo (Waltz e Jackson os meus favoritos).

  6. Vulgo Dudu 1 fevereiro, 2013 at 20:12 Responder

    Caraca, Kamila! Não venho aqui há tanto tempo… A página está linda demais! Digna do seu talento com as palavras. Se tudo der certo, ou seja, se o trânsito colaborar, confiro o filme hoje à noite!

    Bjo!

    • Kamila Azevedo 2 fevereiro, 2013 at 13:03 Responder

      Alvaro, respeito, porém me permita discordar de sua opinião.

      Matheus, eu também gostei bastante de “Django Livre”, mas o filme poderia ser MENOS, e foi muito MAIS, com muitos excessos desnecessários.

      Dudu, obrigada!! Espero que goste de “Django Livre”. Beijo!

  7. Elton Telles 3 fevereiro, 2013 at 16:05 Responder

    Assino embaixo da sua crítica, Ka, inclusive quando diz dos excessos do filme. Tarantino obviamente se empolgou ao contar sua história de vingança bang bang, mas isso não desclassifica o filme de forma alguma. É um ótimo entretenimento. Só senti falta de mais “seriedade” e “dramaticidade” como havia em “Bastardos Inglórios”, por exemplo, em Shossana.

    O elenco é excepcional. E se Leonardo DiCaprio (com méritos) recebe bastante distinção e alguns chegam a considerá-lo injustiçado pelo Oscar tê-lo esnobado, chamo a atenção para o impecável Samuel L. Jackson num papel difícil, de uma personagem bem nojento e adorável por isso diante dos olhos do público hehe. Ele, sim, deveria ser lembrado na premiação.

    Quanto às referências do westen, não sei se há tantas, a não ser autorreferências. “Django Livre” é um Tarantino legítimo. E isso é muito positivo.

    Bjs!

    • Kamila Azevedo 3 fevereiro, 2013 at 18:11 Responder

      Elton, os excessos podem não desclassificar o filme, mas o prejudicam, deixam o longa um tanto cansativo. Concordo que o filme funciona como entretenimento e acho que ele tem esse objetivo mesmo. Não é um drama mais propriamente dito, como foi “Bastardos Inglórios”. Acho que o Leonardo DiCaprio foi injustiçado, sim, no Oscar desse ano. O Samuel L. Jackson também está excelente, com uma personagem que é muito difícil e que causa nojo na gente mesmo. Mas, não acho que ele merecia uma indicação. Acho que o Leonardo DiCaprio merecia mais, pela importância que sua personagem tem para a trama de “Django Livre”. Beijos!

  8. Ricardo Gerhardt 8 fevereiro, 2013 at 17:48 Responder

    Eu acho que as pessoas que comentaram sobre as cenas de violência excessiva não conhecem o DJANGO original que é base deste REMAKER, onde foi estrelado por “Franco Nero” ( que tambem esta neste filme do Tarantino) acho que 1966 se não me engano, Django arrastava um caixão com uma metralhadora enorme dentro dele. e quando ele a usava, isso sim era violência desnecessária, “Tarantino” só deixou o filme ao estilo “Tarantino de ser”. Tanto que ninguém divulgou ser um REMAKER pois esta um tanto quanto diferente do originail, principalmente a historia do filme. Mas vale lembrar que Djando teve mais 4 continuações, mas somente o 5 foi chamado de “Django 2 A Volta do Vingador”.

    • Kamila Azevedo 14 fevereiro, 2013 at 00:50 Responder

      Ricardo, você está certo. Não conheço o “Django” original, mas não acho que esse filme do Tarantino seja uma refilmagem dessa obra. É uma homenagem a esse tipo de filme…

  9. Clóvis Tayllon 21 fevereiro, 2013 at 16:23 Responder

    Concordo contigo quanto aos excessos do filme, Kamila. O longa soa exagerado tanto no roteiro quanto na direção. A história se apoia às vezes em muitos diálogos, tal como acontecia em “Bastardos Inglórios”, sendo que “Django” falta a dramaticidade deste último. Acho que Tarantino exagerou demais nas doses de sangue e o uso que ele fazia de uma trilha sonora mais pop em determinados momentos deixava tudo com um tom cartunista demais. Devido a essa linguagem HQ que ele emprega aqui, acho que “Django Livre” é mais parecido com “Kill Bill” do que “Bastardos Inglórios”. Contudo, o filme entretém bastante e o elenco é excelente! Destaque para o Christoph Waltz e o injustiçado DiCaprio, que deveria estar a concorrer ao Oscar esse ano.

    Nota: 9,0

    Abraços!

    • Kamila Azevedo 21 fevereiro, 2013 at 18:47 Responder

      Clóvis, o maior problema de “Django”, além dos excessos, é que ele é muito irregular, alternando bons e maus momentos. Muita gente tem achado isso mesmo: que “Django Livre” lembra mais “Kill Bill” que “Bastardos Inglórios”. Para mim, o Leonardo di Caprio e o Samuel L. Jackson estão melhores que o Christoph Waltz, que corre o sério risco de virar uma caricatura de si mesmo…

  10. Rômulo Reis 24 março, 2013 at 23:11 Responder

    Kamila, descobri teu blog hoje através da postagem sobre Agua Viva, da Clarice. Gostei e isso me despertou o interesse de ler outras postagens.
    Quanto ao Django, creio que este seja o filme mais sensível de Tarantino. A vingança não é um fim em si mesmo, ela apenas se manifesta, quando necessária, durante a odisseia em busca de seu amor: Brunilda. Ao contrário de muitos filmes estadunidenses onde o branco é o heroi ( Lincon, por exemplo ) e que mostra a busca do fim da escravatura com um mote pretensamente humanitário ( não podemos esquecer que, acima de tudo, a escravidão por ser um regime de relações de mando direito, de falta de autonomia da vontade, bem como a falta de direitos subjetivos, era um grande entrave ao regime econômico capitalista, de cunho liberal ), Django Livre foge à regra.
    Tarantino, ao contrário de Bastardos Inglórios, não reinventa a história, apenas a conta por um ângulo insólito: o negro como seu próprio emancipador. Não são à toa as entradas de hip hop, de black music, afinal, é a inserção cultural que o negro paulatinamente conquistou num país marcado pelo preconceito.
    Candie diz à certa altura: “Muita mentira foi contada nesta mesa”. O personagem está, à primeira vista, se referindo ao teatro montado por Django e schultz, mas Tarantino, inteligentemente, não! Candie tinha acabado de fazer uma explicação “científica” com o crânio de um ex escravo, de modo a tentar embasar a servidão do negro. Nas entrelinhas (para nao ser melodramático) as mentiras contadas que Tarantino se refere sao, portanto, a de um positivismo/cientificismo burro, pilar da crença da inferioridade do negro, pilar do preconceito ianque. Tarantino se mostrou engajado, sério, sem ser piegas, sem perder seus traços. Não foi Candie, o loiro, quem percebeu o golpe, foi seu empregado, que, embora paradoxal, é tão negro quanto o literata Alexandre Dumas.
    Aliás, Tarantino, com seus personagens, quebra qualquer maniqueismo recorrente em filmes de viés político.
    Se muitos reclamaram por o filme se “arrastar” a partir da metade, nao podemos esquecer que daí há a preocupação pelo intimismo, pelo desenvolvimento dos personagens, pela contradição.
    Onde o filme aparentemente se perde é justamente quando talvez se encontre.

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