Intocáveis

O prólogo de “Intocáveis”, filme dirigido por Eric Toledano e Olivier Nakache, é muito importante para estabelecer o tipo de relacionamento que se desenvolve entre um milionário tetraplégico francês chamado Philippe (François Cluzet) e o seu cuidador Driss (Omar Sy). Entretanto, a cena mais fundamental para o longa francês é justamente a que se segue após este prólogo e os créditos iniciais, quando vemos a sala da luxuosa casa que Philippe habita repleta de candidatos à vaga de auxiliar do milionário em suas atividades rotineiras. Não existe dúvidas de que Driss se destaca em relação aos outros postulantes ao cargo, não só por causa da sua aparência alta e forte, mas porque ele está totalmente deslocado ali. Você sabe que ele não foi feito para esse trabalho.

Driss acaba de sair da prisão, onde ficou por um período de seis meses por causa de um assalto. Ele é grosso, impaciente e só conhece uma maneira para se impor diante da vida e, principalmente, das pessoas: com a força. É assim que ele confronta Philippe pela primeira vez, querendo forçar o milionário a assinar o papel de dispensa da entrevista para que ele possa ganhar uma espécie de Bolsa Família do serviço de apoio que o governo francês dirige aos desempregados do país. Ao decidir contratá-lo, talvez, Philippe achou que estivesse ensinando uma lição à Driss, quando, na verdade - e aqui está um dos melhores elementos de “Intocáveis” -, o aprendizado ali seria uma via de mão dupla.

Quando Philippe e Driss encontram-se na posição igualitária de estarem bem distantes daquilo que eles acreditavam ser a sua zona de conforto é que “Intocáveis” decola por completo. A falta de compaixão que Driss sente pela situação difícil de saúde que Philippe tem que lidar diariamente é, curiosamente, a melhor coisa que poderia acontecer ao milionário. Ao mesmo tempo, se ver na condição de cuidador de um homem completamente dependente dele, com uma situação de vida totalmente diferente da que ele sempre conheceu, também muda, de uma certa maneira, a rotina e a mentalidade de Driss.

Trata-se, sem dúvida alguma, de um encontro necessário e definitivo, pelas transformações profundas que incute na dupla de personagens centrais de “Intocáveis”, um filme bastante cativante e com muito senso de humor que nos mostra que, por meio do respeito e da tolerância aos opostos, pode nascer, sim, uma amizade. Baseado em uma história real, foi um dos grandes destaques do cinema, em 2012, indicado a vários prêmios, mas que foi, aos poucos, sendo, literalmente, atropelado por uma co-produção francesa e austríaca chamada “Amor”, do cineasta austríaco Michael Haneke.

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