Os Miseráveis

Baseado em um dos musicais mais famosos de todos os tempos, escrito por Claude-Michel Schonberg, com livreto de Alain Boublil e letras de Herbert Kretzmer; o qual, por sua vez, teve como base uma das principais obras do escritor francês Victor Hugo, “Os Miseráveis”, do diretor Tom Hooper, se passa na França do século XIX, acompanhando a vida de Jean Valjean e, por meio dela e das pessoas que ele encontra e que começam a fazer parte de seu dia a dia, dissertando sobre a miséria e a pobreza como fatores predominantes para a realização de atos de necessidade, de violência, de generosidade e de heroísmo.

Condenado a dezenove anos de prisão por ter roubado um pão para matar a fome do filho recém-nascido de sua irmã, Jean Valjean (numa performance sensacional de Hugh Jackman, merecidamente indicada ao Oscar 2013 de Melhor Ator) conheceu o pior lado do espírito humano durante o tempo em que passou encarcerado. Incapaz de recomeçar a sua vida após sair em liberdade condicional (e fugir dela), é justamente ao conhecer a bondade de um monsenhor que o abriga no seu caminho de volta para casa que Jean Valjean muda o seu destino e acaba se tornando um político e proprietário de uma fábrica, que tenta ajudar ao máximo as pessoas que estão em necessidade.

Para a trama de “Os Miseráveis”, devemos prestar atenção em três das pessoas que são ajudadas por Jean Valjean. São elas: Fantine (Anne Hathaway, numa performance emocionante e favorita ao Oscar 2013 de Melhor Atriz Coadjuvante), Cosette (Amanda Seyfried) e Marius (Eddie Redmayne, excelente). Os três atos que compõem a adaptação cinematográfica do musical são centradas nestas três personagens, bem como em Jean Valjean e na figura do Inspetor Javert (Russell Crowe, injustamente criticado de forma negativa pela sua atuação neste filme), que é o homem que, de uma certa maneira, dedica a sua existência a perseguir a personagem interpretada por Hugh Jackman. Todas essas personagens irão se relacionar entre si e suas histórias fazem parte da mensagem que a obra de Victor Hugo deseja passar.

Dos três atos que compõem “Os Miseráveis”, sem dúvida alguma, os que são mais interessantes são os que envolvem Fantine, uma ex-funcionária da fábrica de Jean Valjean que morre na miséria e ganha a promessa de seu ex-patrão de que este irá criar a sua filha como se fosse dele; e Cosette, a filha de Fantine, criada por um estalajadeiro malandro (Sacha Baron Cohen) e sua esposa (Helena Bonham-Carter) em condições péssimas e que ganha a proteção de Jean Valjean. A história de amor que nasce entre Cosette e Marius também é um dos destaques do filme, mas o ato que envolve o jovem aristocrata, que se dedica ao levante popular ocorrido em Paris, em 1832, após a morte do General Lamarque, é totalmente desnecessário e quebra muito o ritmo do longa.

Indicado a 8 Oscars 2013, “Os Miseráveis” falhou em obter uma menção a um dos aspectos mais importantes do filme: a direção de Tom Hooper. Criticado negativamente pela vitória como Melhor Diretor por “O Discurso do Rei”, em 2011, o diretor inglês fez um trabalho impecável na adaptação cinematográfica deste musical. “Os Miseráveis” é um verdadeiro espetáculo visual, com uma parte técnica primorosa e um dos elencos mais talentosos já reunidos para um musical. Hooper merecia uma indicação ao Oscar 2013 não só por conseguir adaptar com louvor uma obra que é amada, como também por ter tomado decisões arrojadas e que funcionaram muito bem no longa, como a apresentação dos números musicais em close-up e, principalmente, o fato de que todo o elenco cantou ao vivo durante as gravações das cenas (não foram usadas músicas gravadas previamente). Isso dá emoção e autenticidade a uma história que, para pegar de jeito o público, tem que se conectar diretamente com ele.

Indicações ao Oscar 2013
Melhor Figurino
– Paco Delgado
Melhor Maquiagem e Cabelo
Melhor Canção Original - “Suddenly”, de Herbert Kretzmer, Alain Boublil e Claude-Michel Schonberg
Melhor Direção de Arte – Eve Stewart e Anna-Lynch Robinson
Melhor Mixagem de Som
Melhor Filme

Melhor Ator –
Hugh Jackman
Melhor Atriz Coadjuvante
– Anne Hathaway

20 comments

  1. elloa 8 Fevereiro, 2013 at 01:15 Responder

    Concordo com seus comentários integralmente!!! Minha torcida forte para o Oscar 2013 na categoria atriz coadjuvante é, sem dúvidas, para a Hathaway. Interpretação fantástica! Me emocionei com a canção “I dreamed a dream”! Vale lembrar que ‘Os Miseráveis’ é uma das obras mais adaptadas para teatro. Fazer o que todo mundo faz, mas deixar a platéia de queixo caído, não é pra qualquer um!

    • Kamila Azevedo 8 Fevereiro, 2013 at 01:51 Responder

      Elloa, obrigada! A Anne Hathaway entrega uma grande atuação neste filme, sem dúvida alguma. Também me emocionei com “I Dreamed a Dream”. O trabalho do Tom Hooper foi sensacional.

  2. Clóvis Tayllon 8 Fevereiro, 2013 at 01:52 Responder

    Não tenho muito a acrescentar a sua crítica, Kamila. Ela exprime bem o que eu achei do filme, sobretudo a parte que toca a direção do Hooper. Eu não acho que o levante liderado pelo Marius quebrou o ritmo do longa, mas penso que certos aspectos do roteiro deveriam ter sido mais bem trabalhados. Um dos pontos fundamentais da trama como as interações entre o Valjean e o Javert não me convenceram como deveria. Embora, isso talvez se deva ao Crowe – que apesar de não cantar e atuar tão mal quanto querem nos fazer acreditar – não mostra vitalidade suficiente no papel. Também tenho problemas com a montagem, que me pareceu meio brusca às vezes. Mas apesar dos tropeços, o longa possui muitos pontos positivos, desde o elenco fenomenal até a impecável direção de arte. E, é claro, a ressonância emocional da obra literária continua presente. Tom Hooper assumiu a árdua tarefa de adaptar um musical mundialmente famoso, que por sua vez já é baseado em um clássico de mais de mil páginas, e nos entregou um filme de dar orgulho ao gênero.

    OBS: o alívio cômico vindo dos personagens da Bonham Carter e Baron Cohen, na minha opinião, trouxe um pouco de leveza a uma trama que precisa dela. Adorei o número principal deles. E mesmo com pouco tempo de tela, minha torcida no Oscar ainda vai pra Hathaway. Quase me debulhei em lágrimas quando ela cantou “I Dreamed a Dream” e são poucas as vezes que me emociono a tal ponto. Ah sim, os atores mirins estão ótimos!

    Nota: 9,2

    Abraços!

    • Kamila Azevedo 8 Fevereiro, 2013 at 02:23 Responder

      Clóvis, entendo as relutâncias em relação às interações entre Javert e Valjean. Elas também foram problemáticas e acho que isso prejudicou o trabalho do Russell Crowe. Para mim, “Os Miseráveis” teve mais pontos positivos que negativos. Não gostei do tal alívio cômico vindo das personagens da Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen. Achei desnecessário aquilo. Eu me emocionei muito com a Anne Hathaway cantou “I Dreamed a Dream” e me emocionei MUITO no final do filme… Aquele número final é sensacional.

  3. celosilva365 9 Fevereiro, 2013 at 14:36 Responder

    Ainda não tive oportunidade de assistir, mas gostei de sua crítica, me animou. Em geral, tenho visto o pessoal falar mal do filme, mas seu ponto de visto me parece bem perto do que eu imagino sobre o filme.

  4. bruno knott 9 Fevereiro, 2013 at 21:31 Responder

    alguns críticos e blogueiros que respeito bastante falaram sobre problemas na direção de Tom Hooper aqui, mas assim como você achei que ele fez um excelente trabalho aqui, de fato um ESPETÁCULO.
    é o meu favorito dos indicados ao Oscar, junto com A hora Mais escura.

    • Kamila Azevedo 14 Fevereiro, 2013 at 00:42 Responder

      Clóvis, me refiro à cena anterior com o Hugh Jackman, a Anne Hathaway, a Amanda Seyfried e o Eddie Redmayne.

      Celo, quando assistir ao filme, espero que volte com o seu veredicto final sobre “Os Miseráveis”.

      Bruno, para mim, o filme é um espetáculo mesmo. E é meu favorito, até agora, dos que assisti e estão indicados ao Oscar 2013 de Melhor Filme.

  5. Weiner 10 Fevereiro, 2013 at 19:00 Responder

    Não conseguiria apontar erros marcantes em OS MISERÁVEIS. Quase tudo que os críticos veem apontando como engano, eu adorei. Curti a atuação de Russel Crowe (a km de ser vergonhosa, como 10 em 10 críticos disseram), curti muito mais a direção de Tom Hooper (mostrando finalmente porque é um diretor com Oscar) e por nenhum instante a duração me incomodou.
    Também não achei falho o ato sobre a revolução, é muito pertinente dentro da narrativa e ao meu ver não compromete o ritmo.
    Grande elenco!
    Beijos!

  6. Gabriela Souza 13 Fevereiro, 2013 at 12:54 Responder

    Olá Kamila,sempre acompanho o que você escreve no cinefila!Passei essa semana no site e vi que você não comentou o Bafta.Eu acompanhei a premiação e acho que foi previsível em algumas categorias ( melhor ator,diretor,filme,atriz,atriz coadjuvante e ator coadjuvante…).Parece-me que a Academia não tem outro caminho a não ser dar o Oscar de melhor filme para Argo e fazer o que a maioria das premiações vem fazendo,separar o Ben ator-de escolhas passadas lamentáveis e atuações idem- do agora diretor mais sério.Os votantes do Oscar costumam ser muito conservadores em al guns quesitos mas , premiar Lincon a esta altura seria o conservadorismo máximo. Algumas premiações no Bafta me pareceram até um pouco forçadas ,no sentido de tentar impulsionar algumas candidaturas,como no caso deEmmanuelle Riva e Christoph Waltz que é claro estão maravilhosos em seus filmes mas, a meu ver ficou parecendo um ato político da mesma forma que encher
    Les Miserables prêmios…
    Tenho acompanhado também http://data.huffingtonpost.com/2013/01/oscar-predictions e o http://www.goldderby.com/ que tem sido muito precisos nas avaliações relativas a temporada de premiações.Li também o que você escreveu sobre a possível vitória da atriz de Amour no Bafta e uma possível corrida de três atrizes ao Oscar, discordo. Acredito como já disse antes que a escolha pela atriz francesa no Bafta é uma tentativa de impulsionar sua candidatura, o que me parece difícil o filme só arrecadou 3 milhões nos EUA, ela foi esquecida pela maioria das premiações (SAG ,Globo de Ouro ,Spirit….) e nem mesmo fez campanha em Hollywood para sua votória.O que nos leva a Chastain que esta num filme extremamente controverso,impopular(basta olhar a impopularidade do filme no twitter),um papel que surpreendeu alguns por sua indicação,pois ela passa três horas de filme resumida a caretas e olhares- soa exagerada na minha opinião.Então alguns podem dizer,bom Chastain tem os críticos.Tem mesmo?Bom no Critics choice ela foi premiada mas , Lawrence tinha uma candidatura triplha : melhor atriz,melhor atriz em comédia e atriz em filme de ação.Nos dois ultimos não havia como não premiá-la então, acabaram adiando a briga. Então ,acredito que o SAG foi divisor de águas.A vitória de Jennifer no sindicato de atores é mais forte que a de Riva no Bafta.Claro se você olhar as estatísticas nos ultimos anos vai preceber que o Bafta cravou nove em dez vitórias na categoria de melhor atriz, o Sag seis em dez.Todavia, houve uma mudança crucial no calendário do Oscar e então o Bafta teve uma lista bem diferente esse ano.
    Já na categoria de ator coadjuvante,outra que gera alguma emoção,acho difícil premiarem Waltz novamente em um intervalo de tempo pequeno,por algo que ele já fez antes- a parceria com Tarantino( por mais que eu ame Waltz em Django).Tudo leva crer que Tommy seja premiado talvez sua maior ameaça venha de De Niro.

    • Kamila Azevedo 14 Fevereiro, 2013 at 00:47 Responder

      Weiner, concordamos em tudo, exceto no ato sobre a revolução. 🙂

      Gabriela, não assisti ao BAFTA, por isso a ausência de comentários, mas agradeço as suas considerações sobre o tema. Sim, o Oscar para “Argo” parece ser inevitável mesmo. As vitórias de Emmanuelle Riva e Christoph Waltz só comprovam o equilíbrio das suas respectivas categorias. Para ser sincera, ainda não arrisco palpites de vencedores em Melhor Atriz e Melhor Ator Coadjuvante. Acho que as duas estão bem abertas. Obrigada, mais uma vez, pelo comentário e pelas visitas!

  7. Otávio Almeida 14 Fevereiro, 2013 at 12:17 Responder

    É um belo filme. Não me interessa se a câmera foi colocada aqui e ali, como apontaram algumas pessoas que não viram, de fato, o filme. Dá uma quebrada no ritmo quando acompanhamos as trocas de atos, mas tudo volta ao normal quando Jean Valjean, o personagem central, volta à trama. “Os Miseráveis” é um turbilhão de emoções e funciona. Bjs!

    • Kamila Azevedo 14 Fevereiro, 2013 at 19:41 Responder

      Otavio, concordo! Eu achei a direção do Tom Hooper perfeita e foi um dos aspectos mais injustiçados desse filme. Para mim, a jornada de Jean Valjean que comanda o filme e é nisso que ele deveria ter enfocado, mas concordo que “Os Miseráveis” é um turbilhão de emoções e funciona por demais!

  8. Luis Galvão 15 Fevereiro, 2013 at 00:32 Responder

    Kamila, concordo plenamente contigo! Em todos os aspectos (da direção ao levante). Acho um belo filme, mas, infelizmente, ainda acredito que talvez seja para um público mais específico mesmo.

  9. Matheus Pannebecker 18 Fevereiro, 2013 at 00:02 Responder

    Esse filme foi uma bela surpresa. Incluindo até mesmo o Tom Hooper, que, apesar de continuar com aqueles enquadramento tortos, mostrou uma grande evolução como diretor: poucos conseguiriam comandar a parte musical de “Os Miseráveis” com a mesma firmeza dele. O elenco também está ótimo e o filme em si é o melhor musical que vemos em anos – e o que melhor compreende o uso da música como elemento narrativo.

    • Kamila Azevedo 18 Fevereiro, 2013 at 01:19 Responder

      Matheus, eu adorei “Os Miseráveis”. Muito mais do que eu esperava. Os destaques, além da parte técnica, são a direção e o elenco, que como eu disse, é o melhor grupo reunido para um musical que eu já vi!

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