A Hora Mais Escura

11 de setembro de 2001. Uma data impossível de se esquecer. Nela, os Estados Unidos sofreram o maior ataque terrorista da sua história, em dois símbolos da arquitetura do país: o World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington. Numa ação orquestrada pela Al Qaeda, liderada por Osama Bin Laden, morreram cerca de 3000 norte-americanos. Em consequëncia disso, os Estados Unidos, em meio ao medo e a paranoia que passaram a dominar o país, passaram a se dedicar a um plano de vingança, que era uma questão de honra quase pessoal. Foi assim que vimos o país se envolver em conflitos no Afeganistão e no Iraque sempre em busca do seu objetivo principal: desmantelar a Al Qaeda por meio da captura - vivo ou morto - do seu maior líder: Osama Bin Laden.

A consecução do plano norte-americano ocorreu no dia 01 de maio de 2011, dez anos após a realização dos atentados terroristas no país, quando o presidente Barack Obama anunciou ao mundo que, por meio de uma operação conjunta realizada por uma força especial formada por Fuzileiros Navais e pela CIA (a agência de inteligência dos Estados Unidos), Osama Bin Laden foi capturado e morto no esconderijo em que morava na cidade paquistanesa de Abbottabad. Tudo o que sabemos sobre este fato histórico é a versão oficial relatada pelo presidente e divulgada pelos meios de comunicação. Não existe foto do corpo de Osama Bin Laden. Não existe vídeo oficial da operação.

O filme “A Hora Mais Escura”, da diretora Kathryn Bigelow, tenta desvendar um pouco do mistério envolvendo esse acontecimento. O roteiro escrito por Mark Boal (em sua segunda parceria consecutiva com a diretora) tem como base depoimentos e relatos escritos daqueles que estavam envolvidos na operação que levou à morte de Osama Bin Laden. Na embaixada norte-americana no Paquistão, uma equipe da CIA - liderada pelas personagens interpretadas por Jennifer Ehle e Kyle Chandler - se dedica aos esforços para descobrir o paradeiro e, consequentemente, capturar Osama Bin Laden. Com uma ampla rede de informantes e, principalmente, profissionais, eles logo chegam aos principais interlocutores do líder da Al Qaeda.

Todos os esforços empreendidos por essa equipe, em “A Hora Mais Escura”, estão representados em uma única personagem: Maya (Jessica Chastain, em performance indicada ao Oscar 2013 de Melhor Atriz). Uma agente jovem, cujo tempo de profissão na CIA, até aquele momento, tinha sido totalmente dedicado à essa operação. Por ter perdido amigos durante essa atividade, para ela, capturar Osama Bin Laden também era uma questão de honra. Talvez, por isso mesmo a insistência dela em seguir sua intuição e a pista que ela acreditava ser a correta, tendo momentos até mesmo de insubordinação perante os seus superiores. Maya viveu tudo isso intensamente, sem tempo para si mesma. Ela não iria perder 10 anos da sua vida em vão. Ela entrou nesse jogo para ganhar e passaria em cima de quem quer que fosse para atingir o seu objetivo.

No decorrer de “A Hora Mais Escura” é muito importante observar o tom documental e anticlimático adotado pelo roteiro de Mark Boal e pela direção de Kathryn Bigelow. Eles sabiam a importância do material que tinham na mão. Este filme tem potencial de se tornar um documento fundamental sobre um dos momentos recentes mais importantes da história dos Estados Unidos. Está tudo na tela: as técnicas de interrogatório subversas (com direito a cenas de tortura que causaram polêmica no país) e que, posteriormente, foram proibidas por lei; a lentidão da CIA em reagir quando a pista que Maya seguia foi confirmada como procedente (foram mais de 100 dias até a operação ser autorizada) e, principalmente, a competência dos norte-americanos no que diz respeito à realização de ações rápidas e que não devem deixar muitos vestígios - eles possuem pessoal preparado e, especialmente, a tecnologia para isso.

Um filme indicado a cinco Oscars 2013, “A Hora Mais Escura” segue a linha do antecessor da dupla Kathryn Bigelow e Mark Boal, “Guerra ao Terror”, filme vencedor de seis Oscars, em 2010. As duas obras ficam como um importante registro de um determinado momento histórico dos Estados Unidos que, até hoje, tem a sua ressonância dentro do país, tendo em vista que eles ainda estão envolvidos em ações no Afeganistão. Neste sentido, aqui temos perfeitamente delineado uma das funções principais do cinema: a de nos ajudar a compreender o mundo em que vivemos. Porém, “A Hora Mais Escura” vai além, pois, ao se dedicar a um determinado capítulo de um livro que ainda está em aberto, ele dá aos norte-americanos, de maneira ainda mais forte, com imagens contundentes capturadas pela câmera de Kathryn Bigelow (o trabalho dela na cena da operação que levou à morte de Osama Bin Laden é notável), a sensação que o dever foi cumprido, pelo menos em parte.

Indicações ao Oscar 2013
Melhor Edição - William Goldenberg e Dylan Tichenor
Melhor Edição de Som
Melhor Filme
Melhor Atriz - Jessica Chastain
Melhor Roteiro Original - Mark Boal

25 comments

  1. Otávio Almeida 19 Fevereiro, 2013 at 01:12 Responder

    Agora que Kathryn Bigelow fez um filme melhor que “Guerra ao Terror”, ela não vai ganhar o Oscar.
    E Jessica Chastain está extraordinária nesse filme. Maya não apenas localiza Bin Laden. Ela faz TODOS os homens do filme comerem na palma de sua mão. Ninguém escapa. Queria essa mulher em Brasília.

    Bjs!

    • Kamila Azevedo 19 Fevereiro, 2013 at 01:27 Responder

      Otavio, por incrível que pareça, preferi “Guerra ao Terror” que “A Hora Mais Escura”. Entretanto, concordo que a Kathryn Bigelow merecia, ao menos, uma indicação para Melhor Direção. A Jessica Chastain está extraordinária mesmo. Adorei o seu texto e o paralelo que você fez entre a Maya e a entrada dela num mundo dominado por homens.

        • Kamila Azevedo 19 Fevereiro, 2013 at 13:07 Responder

          , pois é! Essa questão da cotação é uma coisa muito subjetiva. A nota de “A Hora Mais Escura” acabou ficando maior que a de “O Lado Bom da Vida”, sendo que eu gostei muito mais do filme do David O. Russell se comparado ao da Kathryn Bigelow. Beijo! 🙂

          • vianapatricio 19 Fevereiro, 2013 at 14:20

            É verdade, até porque o sistema não capta o peso que deveria ser dado para roteiro e eu acho que deveria ser acrescido um novo critério tipo “história”, não sei se isso já é considerado no roteiro, pois o peso maior para mim em um filme é sem dúvida a “história”, esse item iria melhor definir a demonstração de sua visão ante o filme de uma forma mais global. Beijos meu amor! =***

          • Kamila Azevedo 19 Fevereiro, 2013 at 17:13

            , sim, a história já é considerada no roteiro. Faz parte desse critério, digamos. Para mim, ter uma boa história também é o aspecto mais fundamental de um filme. E “A Hora Mais Escura” tem uma história interessante e muito bem trabalhada pelo roteirista! Beijo! 🙂

  2. Hneto 19 Fevereiro, 2013 at 13:07 Responder

    A Maya de Jessica Chastain é tão indigesta que não raro me vi torcendo pela Al-Qaeda, assim como torcia pelos índios nas sessões de western na TV.

    Seria a versão de saias (se ela usasse saias) do inspetor Javert de Os Miseraveis.

  3. Reinaldo Glioche 19 Fevereiro, 2013 at 14:20 Responder

    Na minha avaliação é o filme mais fraco entre os indicados a melhor filme. De longe. Cheio de problemes estruturais, se legitima na técnica apurada com que Bigelow o ergue e no roteiro bem desenvolvido no espaço-tempo de Boal. Acho que sua crítica é feliz em apontar tanto os méritos quanto o status quo de “A hora mais escura”, mas senti falta de uma avaliação a respeito da falta de uma posição clara a respeito do que relata.
    Bjs

    • Kamila Azevedo 19 Fevereiro, 2013 at 17:20 Responder

      Herculano, a Maya é, sim, uma personagem indigesta. Mas, não me vi, em nenhum momento, torcendo pela Al-Qaeda… Nem acho um paralelo entre ela e o Inspetor Javert.

      Otavio, não liga pro pessoal do Filmow! Lá, qualquer opinião mais forte ou contrária à maioria é criticada…

      Reinaldo, não achei o mais fraco dentre os indicados a Melhor Filme, mas foi, sem dúvida, um dos que menos me empolgou. Discordo que a obra tenha problemas estruturais, até porque o roteiro de Mark Boal é o elemento que mais se destaca em “A Hora Mais Escura”, além, é claro, da habilidade da Kathryn Bigelow com o cinema de ação. Obrigada pela consideração à crítica. Digo aqui minha opinião em relação à posição central do filme: discordo do plano de vingança dos Estados Unidos. Acho que Bin Laden deveria ter sido capturado e julgado pelos crimes que cometeu. Mas, pedir isso de um país machucado seria demais. Bin Laden teve o fim que muita gente gostaria que ele tivesse.

      • Hneto 20 Fevereiro, 2013 at 12:29 Responder

        Do Javert ela tem um pouco daquela obsessão desenfreada, e como adepto das mais estapafúrdias teorias da conspiração, não acredito que tenha acontecido nada daquilo, nada.

        • Kamila Azevedo 20 Fevereiro, 2013 at 12:49 Responder

          Herculano, realmente, a obsessão dela é capturar o Osama Bin Laden. Ela faz disso quase que a missão principal dela. Também tenho minhas dúvidas sobre o fato de tudo aquilo ter acontecido realmente.

  4. Amanda Aouad 20 Fevereiro, 2013 at 03:06 Responder

    Acho um filme problemático, não pela técnica, que é bem feita, mas pelas entrelinhas. Através de Maya, Mark Boal e Bigelow acabam dando subsídios históricos para que os Estados Unidos considerem mesmo esta, uma guerra justificável.

    • Kamila Azevedo 20 Fevereiro, 2013 at 11:28 Responder

      Amanda, concordo. Uma guerra justificável, pois aquilo se tornou uma questão de honra pessoal. Mexer com esse tipo de coisa fica bem complicado e, talvez, por isso mesmo o filme tenha causado polêmica nos EUA.

  5. bruno knott 21 Fevereiro, 2013 at 02:07 Responder

    Já eu não concordo com o comentário da Amanda, apesar de entender o ponto de vista… não acho que o filme seja um tipo de manifesto e sim uma bela experiência cinematográfica… a sequência final é absurdamente bem construída de fato!
    tá no meu top 3 dos indicados ao Oscar, junto com a indomável sonhadora e os miseráveis.

  6. Reinaldo Glioche 21 Fevereiro, 2013 at 14:35 Responder

    Eu tb acho que Bin Laden teve o que mereceu e não tiro o direito dos EUA de perseguir o terrorista que maculou a memória do país. Mas a questão não é essa. Quando digo que “A hora mais escura” tem problemas estruturais não me refiro à construção do roteiro, muito bem engendrado por Boal. E sim aos seguintes pontos: há leviandade ao estabelecer se houve de fato aquisição de informação relevante em matéria de inteligência sob o uso de tortura; os dilemas éticos e morais do país e da CIA não são suficientementes encampados por um filme que se pretende factual; o roteiro simplifica algumas nuanças da caçada ao terrorista e faz da postura da protagonista um grito feminista; o filme não levanta elaborações próprias e Bigelow opta por “reaproveitar” conclusões já aventadas em seu filme anterior, “Guerra ao terror”, que tinha um problema – no sentido de proposição de conflito no roteiro – distinto. Na minha avaliação sãos estes os indistinguíveis e comprometedores problemas estruturais do filme. Outro aspecto é que enquanto nação, é óbvio que os EUA queriam vingança. Discutir as bifurcações entre justiça e vingança renderia mais frutos ao filme. Se lembra das comemorações em Times Square na ocasião da morte de Bin Laden? Bigelow perdeu ótima oportunidade de investigar mais a fundo a alma america, e também a humana. Mas esse “equívoco” não imputo a seu filme pq ele não se predispõe a isso.É apenas um acréscimo a esse nosso interessante debate.
    Beijos

  7. Clóvis Tayllon 21 Fevereiro, 2013 at 17:06 Responder

    E eu que não dava nada para esse filme, acabei me apaixonando por ele. Não acho que a intenção da Bigelow aqui seja levantar reflexões morais e sim retratar esse momento histórico de uma maneira bastante objetiva. O excelente roteiro do Boal não só faz um belo trabalho em retratar esse obscuro episódio como trabalha muito bem as motivações da protagonista. Sim, concordo que o filme é anticlimático, mas acho que isso cai bem muito bem no longa. “A Hora Mais Escura” é um filme bastante sóbrio, que não dá espaço a emoções. Acho importante que a morte do Bin Laden não seja transformada no ápice emocional do longa, mas que seja mostrada como aquilo que o filme vinha trabalhando até então: o alvo sendo abatido e o fim da missão da Maya. Além do roteiro, destaco a direção fenomenal da Bigelow (injustamente preterida ao Oscar desse ano) e a atuação magistral de Jessica Chastain (minha favorita pra ganhar o carequinha dourado no domingo).

    Nota: 9,7

    Abs.

    • Kamila Azevedo 21 Fevereiro, 2013 at 17:44 Responder

      Bruno, também acho que o filme não se propõe a ser um manifesto. Mas, pra mim, está longe de ser uma bela experiência cinematográfica. A sequência final é muito bem construída e dirigida e é, sem dúvida alguma, o grande momento de “A Hora Mais Escura”. Ao contrário de você, esse filme não está no meu top 3 de indicados ao Oscar.

      Reinaldo, deixa eu corrigir uma coisa: eu não acho que Bin Laden tenha tido o que merecia. Eu acho que ele deveria ter sido julgado pelos crimes que cometeu. O que eu afirmei foi que o fim que ele teve foi compreensível, tendo em vista o fato de que ele virou o cara mais procurado pelos Estados Unidos. Concordo que a Bigelow, em seu filme, perdeu a chance de penetrar um pouco mais na alma machucada dos norte-americanos. Esse é um assunto que ainda mexe com muita gente. Em relação aos problemas estruturais que você aponta em relação ao filme, concordo que a protagonista representa um grito feminista, mas acho que o filme tem uma postura bem clara em relação à tortura que foi utilizada para levantar informações. Isso, definitivamente, não foi tratado de forma leviana. Acho, porém, que você tem razão em relação a outros pontos.

      Clóvis, concordo com a intenção que você aponta no trabalho de Bigelow. Eu também acho que foi isso que moveu a direção dela em “A Hora Mais Escura”. O tom anticlimático combina bem com o filme, eu concordo. Acho que a sobriedade cabe num filme que tem a intenção de ser puramente factual. Concordo com seu comentário, exceto com a questão Jessica Chastain. Gosto muito dela, mas a minha favorita é a Emmanuelle Riva.

  8. museudocinema 28 Fevereiro, 2013 at 15:52 Responder

    Kamila, vou discordar. Acho que realmente a Bigelow tinha em mãos um produto que poderia se tornar algo grande, mas ela erra feio, novamente. O único resquicio de humanidade do filme é vindo de Jessica Chastain, e muito mais pelo mérito da atriz do que da diretora. O outro lado da história (Afeganistão) é tão profundo qto um prato.

    • Kamila Azevedo 28 Fevereiro, 2013 at 16:09 Responder

      Cassiano, sinta-se à vontade pra discordar! Você acha mesmo que o único resquício de humanidade que existe no filme é a Maya?? A Maya é uma personagem muito controversa… Muito forte! Especialmente em suas motivações. Acho que a Jessica Chastain realiza um grande trabalho aqui, mas acho que essa personagem tem algumas características bem preocupantes.

  9. Elton Telles 3 Março, 2013 at 20:06 Responder

    Considero este filme um triunfo em todos os aspectos.
    Acredito que seja cedo para mensurar o seu valor, mas como o texto indica, pode servir como um grande documento histórico no futuro.
    Bigelow, mais uma vez, em trabalho de descrição fabuloso e Mark Boal com um roteiro detalhista e muito bem recortado.
    Um dos meus favoritos ao Oscar 2013, merecia muito mais a estatueta do que o verdadeiro vencedor.

    • Kamila Azevedo 5 Março, 2013 at 01:20 Responder

      Elton, também acho que é cedo pra mensurar o valor desse filme. E acho que ele será valorizado na medida em que os anos passam. A parceria entre Bigelow e Boal funciona muito bem. Espero que eles continuem trabalhando juntos.

  10. Renato Alves 7 Abril, 2013 at 18:01 Responder

    Gostei do filme. Dentre o padrão americano de fazer auto defesa sobre tudo……esse foi um dos trabalhos menos “americanos” que encontrei. ~Daria uma nota 6,5 no geral.

  11. Cine Resenhas | Melhores de 2013: Filme 1 junho, 2014 at 06:29 Responder

    […] “No decorrer de “A Hora Mais Escura” é muito importante observar o tom documental e anticlimático adotado pelo roteiro de Mark Boal e pela direção de Kathryn Bigelow. Eles sabiam a importância do material que tinham na mão. Este filme tem potencial de se tornar um documento fundamental sobre um dos momentos recentes mais importantes da história dos Estados Unidos.” – Kamila Azevedo [Cinéfila por Natureza] […]

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