Elefante Branco

publicado em:3/04/13 10:53 PM por: Kamila Azevedo Filmes

Um elefante branco nada mais é do que algo que tem um valor muito alto, porém um custo de manutenção que não justifica a sua utilidade. É o tipo de expressão perfeita para dar nome ao filme homônimo dirigido e co-escrito pelo argentino Pablo Trapero, que encontra na favela chamada pelos personagens de Cidade Oculta (uma forma também muito apropriada de denominar uma comunidade que vive esquecida pelas autoridades civis, totalmente na margem da sociedade, que fica bastante alheia aos problemas que ela vivencia), o ponto de partida para uma trama que tem um viés social muito forte, porém um teor político mais contundente ainda.

A história idealizada por Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre e Pablo Trapero tem como personagens principais dois sacerdotes. O primeiro, Julián (o sempre competente Ricardo Darín), tomou para si a responsabilidade de desenvolver um trabalho social dentro da Cidade Oculta, ao mesmo tempo em que briga pelos direitos de cada um dos habitantes daquele local, enfrentando discussões com autoridades religiosas, políticas, policiais e criminosas. É muita responsabilidade e muito peso para somente uma pessoa carregar. É aí que entra a figura de Nicolás (Jérémie Renier), que Julián vai encontrar se dedicando a uma atividade de evangelização numa tribo de uma localidade remota próxima à Argentina – e tão problemática quanto a Cidade Oculta. Julián pretende fazer de Nicolás seu sucessor na favela.

Por trás de uma trama, como já mencionamos, de teor social e político, encontra-se também uma grande discussão moral, principalmente acerca do trabalho desempenhado pelos sacerdotes e pelos trabalhadores anônimos (como a assistente social interpretada por Martina Gusmán) na Cidade Oculta. A dedicação ao trabalho comunitário, ao compromisso e a lealdade com as questões mais profundas daquelas pessoas – que enfrentam situações que vão desde a falta de condições de moradia, passando pelo desemprego, culminando na briga de poder pelas diversas facções criminosas que ali estão – representam também o reforço de uma escolha diária de enorme sacrifício por parte daqueles que se envolvem nestes assuntos. Por meio da atuação excelente de Ricardo Darín, temos a constatação de que Julián já carregou tanto peso sozinho que está chegando ao seu limite físico e mental. Por meio da performance repleta de silêncios e reflexões do ator francês Jérémie Renier, temos o desenho perfeito de um homem dividido pelo conflito entre a sua vocação e os seus desejos mais íntimos.

Um dos elementos mais positivos de “Elefante Branco” é que o roteiro consegue equilibrar muito bem todos esses conflitos sem prejudicar o desenvolvimento de um em detrimento do outro. Além disso, a direção de Pablo Trapero consegue ser sólida o suficiente a ponto de construir um filme que prende a atenção do espectador do início ao fim. No final, “Elefante Branco” é um longa que manda muito bem o seu recado, principalmente por ter uma relevância no seu tema e por fazer uma crônica muito bem delineada de uma realidade que é muito bem conhecida daqueles que estão inseridos no chamado Terceiro Mundo subdesenvolvido (ou seria em desenvolvimento?). De uma certa maneira, o filme se torna uma obra emblemática, especialmente quando vemos o que está embutido em sua cena final: a mensagem de que a luta nunca cessa.


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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


Eu gosto muito de “Abutres”.Audacioso,corajoso e original o filme é uma denúncia ao sistema de saúde argentino.Um belo filme.Não posso dizer o mesmo de “Elefante Branco” que se perde nos excessos de temas,principalmente na relação de Nicolas e a assistente social.Vale lembrar que a trilha sonora de Mychael Nyman e o plano sequencia no final é muito bom.E nós brasileiros entendemos muito de “Elefante Branco”,afinal teremos vários estádios(inclusive em Natal) que após a Copa do Mundo 2014 não terá utilidade nenhuma.

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Paulo, ainda não assisti “Abutres”, mas esse é um filme muito bem recomendado. Discordo do seu comentário sobre “Elefante Branco” pelas razões elencadas em meu texto.

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Mais uma bela leitura de um filme obrigatório. Para mim Trapero já se firmou como um dos grandes cineastas da atualidade. E veja “Abutres”.
Bjs

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Este filme é um exemplo de toda a corrupção que existe na América Latina, quase sempre sem punição alguma para os culpados.

O cinema de Trapero é sempre voltado para a crítica social e a corrupção, além deste bom filme, vide o ótimo e citado acima “Abutres” e também o pouco visto “O Outro Lado da Lei”, em que Trapero mostra a corrupção policial na Argentina, tanto em Buenos Aires como no interior do país.

Até mais

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Reinaldo, obrigada. Tentarei assistir “Abutres”.

Hugo, exatamente. E essa é uma realidade universal, quase, infelizmente. Não é algo comum somente ao nosso continente. Boa observação sobre o cinema de Trapero. É bem isso mesmo!

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Gosto muito de Elefante Branco também, acho que é um filme instigante e com um viés político importante, como você ressaltou. Agora, concordo que Abutres é um filme ainda melhor, um soco no estômago, faço coro para que veja, hehe.

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A trama não me chamou muita atenção Kamila, apesar de gostar do Trapero, Darín e Gusmán, mas o cinema argentino vem dando lições no nosso!

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