Ferrugem e Osso

Ferrugem e Osso” é mais do que o título do filme dirigido pelo francês Jacques Audiard. Não vamos saber logo de cara, uma vez que isso será desnudado aos poucos pelo roteiro, mas essas duas características resumem os dois personagens principais da obra: Stéphanie (Marion Cotillard) e Alain Van Versch (Matthias Schoenarts). Eles se conhecem após Stéphanie ser vítima de violência na boate em que Alain trabalha como segurança. O relacionamento que surge entre eles será atípico, porém o que iremos testemunhar no decorrer dos 120 minutos do filme é a transformação dos dois depois da vivência de acontecimentos que poderiam mudar ou, neste caso, mudaram as suas vidas para sempre.

Stéphanie tem as suas duas pernas amputadas depois de sofrer um acidente em seu ambiente de trabalho (ela treinava baleias em um show tipo o que é apresentado no Sea World, parque temático que fica localizado nos Estados Unidos). Para ela, a readaptação à nova vida será muito difícil e a impressão que temos é a de que ela vive em uma permanente inércia, sem saber direito como reagir a tudo aquilo que lhe aconteceu. Quem irá exercer um papel fundamental para a recuperação de Stéphanie é Alain, com quem ela, aos poucos, vai deixando de ser “enferrujada” (para fazer uma analogia com o título do filme) em relação aos vários aspectos de sua – nova – vida.

Por outro lado, Alain é um osso duríssimo de roer. Desempregado e pai solteiro de um filho de cinco anos, ele encontra abrigo na casa de sua irmã. Vivendo de bicos e complementando sua renda em lutas disputadas sem qualquer condição, digamos, profissional, Alain é um reflexo da realidade cheia de dor a qual se acostumou. A consequência disso é que ele não consegue dar amor àqueles que estão ao seu redor, sendo duro com seu filho e se relacionando de forma puramente passional com as diversas mulheres que entram na sua vida – incluindo, Stéphanie. Pela forma como ocorre, a transformação de Alain é uma prova concreta de que, às vezes, só mesmo um grande baque da vida para nos fazer acordar de vez.

Ferrugem e Osso” é um filme que, esteticamente, difere muito de “O Profeta”, filme anterior dirigido por Jacques Audiard. De uma certa maneira, no entanto, os dois longas possuem o mesmo tema central: as mudanças internas pelas quais passam os personagens centrais – apesar de “Ferrugem e Osso” não ser tão impactante quanto “O Profeta”. Mesmo assim, o filme de Audiard chama a atenção pelo silêncio que permeia as cenas (muito bem pontuado, diga-se de passagem, pela trilha sonora de Alexandre Desplat) e que são decorrentes do fato de que Stéphanie e Alain internalizam muito seus sentimentos. Essa característica facilita muito a performance dos dois atores. Tanto Marion Cotillard, quanto Matthias Schoenarts estão excelentes como os protagonistas de “Ferrugem e Osso”, na medida em que se comunicam perfeitamente com a plateia por meio de gestos e olhares.

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