Antes da Meia-Noite

Boa parte do encanto por trás de “Antes do Amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol”, filmes dirigidos e co-escritos por Richard Linklater, se encontrava no fato de que as duas obras mais insinuavam do que realmente falavam, na medida em que a história de encontros e desencontros envolvendo Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) nos fazia crer que, apesar da conexão entre eles ser única e da atração física e emocional entre eles ser aparente, a relação entre os dois nunca passaria do terreno platônico.

Por isso mesmo, quando foi anunciado o longa que – aparentemente – finalizará esta trilogia, foi grande a preocupação entre os fãs dessa história, pois “Antes da Meia-Noite”, também dirigido e co-escrito por Richard Linklater, finalmente mostraria aquilo que os fãs sempre imaginavam: Jesse e Celine juntos, com uma vida em comum, como casal. A transição do relacionamento da seara platônica para a da realidade deixou na mente dos aficionados pelos dois filmes anteriores a seguinte pergunta: será que isso faria com que a história perdesse aquele seu encanto inicial?

Basta o primeiro ato de “Antes da Meia-Noite” para que esses medos sejam dizimados por completo. O relacionamento que se estabeleceu entre Jesse e Celine, nove anos após os acontecimentos retratados em “Antes do Pôr-do-Sol”, é tudo aquilo que a gente esperava que a união fosse. Casados, pais de duas lindas meninas gêmeas; os dois, antes de serem companheiros, são, acima de tudo, amigos. Conversam sobre tudo, sem medo de magoar um ao outro. Se, antes, as preocupações de Jesse e Celine eram com a vida deles em si e a forma como eles foram se modificando ao longo de todo aquele tempo; agora, eles lidam com problemas maiores, problemas de gente adulta – como os pontos turísticos que as filhas desejam conhecer, o ressentimento de Jesse em não ser um pai mais presente para o filho mais velho e as dúvidas profissionais de Celine, entre outros.

“Antes da Meia-Noite” acompanha o período de férias de Jesse e Celine na cidade de Messínia, no sudoeste da Grécia. Na noite anterior à partida deles para Paris (cidade na qual eles fixaram residência com a família), eles ganham de presente do casal que lhes serve de anfitrião na cidade uma noite no hotel mais legal de Messínia. Boa parte dos 108 minutos de duração do filme acompanha o casal fazendo aquilo que eles sabem de melhor: conversar, durante o passeio que eles fazem pela localidade até chegarem ao quarto de hotel que continua a ser palco de um duelo de palavras, em que Jesse e Celine colocam em pratos limpos tudo aquilo que eles não conseguiam dizer um ao outro por causa do desgaste normal da rotina diária de um casamento que envolve filhos e uma vida profissional agitada.

Já disse isso aqui uma vez, e faço questão de repetir: o maior apelo por trás do casal formado por Jesse e Celine não é nem o fato dos dois personagens terem sido construídos de uma forma quase impecável por Richard Linklater e os atores Ethan Hawke e Julie Delpy; e sim a questão de que essa é uma história que, ao contrário do normalmente visto no cinema, retrata um amor real, com o qual todos podemos nos identificar, uma vez que esta trilogia mostra o amor na sua fase mais sublime (o nascimento), na sua fase mais propícia (quando os dois vértices do relacionamento se encontram na mesma sintonia) e na sua fase mais madura (quando os problemas do dia a dia invadem e o diálogo, a sinceridade e o sacrifício são os ingredientes chaves para a receita de um relacionamento bem sucedido). Tudo isso está perfeitamente ilustrado por uma das cenas do ato final de “Antes da Meia-Noite”, quando Jesse olha para Celine e fala: “se você quer o amor verdadeiro, então é isso aí. E, se você não pode enxergá-lo, então você é cega”.

8 comments

  1. Otavio Almeida 27 agosto, 2013 at 13:03 Responder

    Mandou bem, Kamila. E eles conversam no fim sobre um relacionamento maduro, real, sem contos de fadas. Mas não sei como será o dia seguinte. Nunca sabemos no fim desses filmes. O encanto, na verdade, acabou. Eu acho que a cena do pôr-do-sol me diz o que acontecerá. Pelo menos, enquanto não temos uma continuação.

    Bjs!

    • Kamila Azevedo 27 agosto, 2013 at 17:11 Responder

      Otavio, obrigada! Concordo que é um filme sobre um relacionamento maduro, real e sem conto de fadas. E gosto da ideia de um final inconclusivo. Concordo que o encanto acabou e que o longa, talvez, nos mostre que, nem sempre, eles serão felizes, que poderão viver um caminho separados, apesar da conexão deles. De todo jeito, não sei se teremos continuação. Não sei se quero a continuação. Para mim, esse final foi perfeito.

  2. Matheus Pannebecker 18 setembro, 2013 at 23:45 Responder

    Esse filme é particularmente especial para mim. Assim como nos anteriores, tenho muita identificação pela história e pelas circunstâncias e sentimentos de Jesse e Celine. Eu não gostava da ideia de uma continuação para “Antes do Pôr-do-Sol”, mas “Antes da Meia-Noite” trouxe um olhar maduro e realista sobre aquele relacionamento. E fugir dessa análise seria loucura. Uma continuação muito necessária, enfim.

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