Fahrenheit 11 de Setembro

No seu livro “Stupid White Men – Uma Nação de Idiotas”, o diretor Michael Moore afirma que os Estados Unidos são o país que todos amam odiar. De certa maneira, esta frase também pode descrever o tipo de relação que os norte-americanos possuem com o diretor, uma pessoa de natureza polêmica. Moore adora criar controvérsias e estar no centro dos debates. Com seu novo documentário, “Fahrenheit 11 de Setembro”, Michael Moore toca, mais uma vez, o dedo na ferida dos norte-americanos.

“Fahrenheit 11 de Setembro”, na realidade, foi feito para justificar o já antológico discurso de agradecimento de Michael Moore na cerimônia de entrega dos prêmios Oscar 2003 – quando ele ganhou o prêmio de Melhor Documentário pelo excelente “Tiros em Columbine” -, no qual ele disse que, na qualidade de diretor de documentários, que lida com temas reais, ele nunca poderia apoiar um presidente fictício (George W. Bush) na sua guerra fictícia (contra o Iraque). Por esta razão, “Fahrenheit 11 de Setembro” começa com a imagem do candidato democrata Al Gore sendo aclamado como o novo presidente dos Estados Unidos até que a rede de televisão Fox News decidiu ir contra a corrente e declarar George W. Bush como o novo presidente da nação. Moore faz uma simples pergunta: será que tudo isso foi somente um sonho? Infelizmente, isto não era fruto da imaginação dos norte-americanos.

A partir daí, Michael Moore desfila seu acervo de imagens e informações – as quais foram devidamente checadas – para provar como George W. Bush “roubou” a presidência de Al Gore e o quanto ele era incompetente para administrar o país. O presidente parecia viver em um eterno estado de férias durante os primeiros meses de seu mandato e sua equipe de governo parecia mais um bando de marionetes cujo único propósito era difundir a ideologia de Bush pai. Moore não tem medo de ridicularizar ninguém e, logo, as máscaras de todos iriam cair.

O divisor de águas do governo Bush, claramente, foi o atentado de 11 de Setembro. Os efeitos – e, por quê não, causas – deste acontecimento tomam boa parte do tempo de duração de “Fahrenheit 11 de Setembro”. Nada escapa à fúria crítica de Moore: a incredulidade diante do alerta de que um atentado terrorista era eminente no país, a recusa por parte do governo de investigar as razões por trás disto ter ocorrido, a extradição de membros da família Bin Laden que residiam nos Estados Unidos e o subseqüente estado de medo constante dos norte-americanos (tema que já havia sido tocado por Moore no já citado “Tiros em Columbine”).

Entretanto, Moore se esforça em mostrar como o governo Bush criou uma guerra contra um inimigo – o Iraque – sem razão aparente. Tudo está ali: soldados cruéis e outros que não acreditam na luta que travam ou que não se sentem bem em ter que matar outras pessoas; Lila Lipscomb, uma mãe indignada com a morte do filho na guerra; métodos escusos de recrutamento de soldados e, por outro lado, congressistas que se recusam a enviar seus filhos para a guerra que eles mesmos ajudaram a criar; e a morte de civis iraquianos inocentes. No meio de tudo isto, Moore ainda encontra espaço para esmiuçar as curiosas relações existentes entre membros da família Bush, dos Bin Laden e os sauditas; além da comprovação de que a invasão ao Iraque seria extremamente benéfica para certos membros do governo Bush. O pior é que tudo isto ocorre com a conivência da sociedade, da imprensa e dos políticos – até mesmo dos oposicionistas.

Uma imagem possui um alto poder de influência. Michael Moore sabe – e tira grande proveito – disto. Nas mãos de seu diretor, “Fahrenheit 11 de Setembro” virou uma arma extremamente potente, uma vez que, lançado no ano em que George W. Bush concorreu à reeleição como Presidente dos Estados Unidos contra o Senador John Kerry, poderia ter influenciado toda uma população a retirá-lo do poder ao votar no candidato do partido democrata (não era mera coincidência o fato de que o filme atacava o ponto principal da campanha de reeleição de Bush: a de que ele era o único homem que podia combater a ameaça do terrorismo). Apesar desta sua “estratégia” não ter dado certo, Moore não tem do que se queixar, afinal ele proporcionou às pessoas a oportunidade de conhecer o outro lado, discutir e contestar o que estava acontecendo. Lembrar que o cinema também é um meio de reflexão e discussão é o grande feito da carreira de Michael Moore.

3 comments

  1. Hugo 29 agosto, 2013 at 18:49 Responder

    Este ótimo doc foi o primeiro a meter o dedo na ferida das vergonhosas invasões ao Iraque e Afeganistão. Depois vários outros filmes e docs esmiuçaram o tema.

    Se você quer saber todos os bastidores da absurda eleição de 2000, assista o ótimo “Recontagem” com Kevin Spacey.

    Sobre 11 de Setembro, procura os docs “Loose Change 9/11” e “TerrorStorm”, este segundo de um jornalista radical chamado Alex Jones.

    Abraço

    • Kamila Azevedo 30 agosto, 2013 at 00:21 Responder

      Maurício, também gosto muito desse documentário.

      Hugo, sim, foi o primeiro filme a ter coragem de criticar abertamente George W. Bush, num momento em que ele tinha uma boa aceitação popular e apoio dentro do próprio Estados Unidos. Já assisti “Recontagem”, tem até uma crítica sobre esse filme aqui. Anotei as duas outras dicas de filme, que ainda nem conferi.

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