42: A História de uma Lenda

O esporte pode ser interpretado de muitas maneiras: como uma forma de diversão, como uma maneira para se obter uma boa qualidade de vida, como um negócio, entre outros. Porém, algumas vezes, o esporte significa também a oportunidade de vermos um fenômeno social acontecer, na medida em que ele acaba influenciando na cultura e na política de um determinado país. Isso foi visto, por exemplo, no Brasil, na década de 80 (antes da abertura política do Brasil), com a chamada Democracia Corintiana, que marcou um período da história do Sport Club Corinthians Paulista em que as decisões importantes, como contratações e regras de concentração, eram decididas por voto entre os jogadores - com a decisão sendo inteiramente respeitada pela comissão técnica e direção do clube.

O filme “42: A História de uma Lenda”, escrito e dirigido por Brian Helgeland, também fala sobre um momento histórico em que o esporte acabou influenciando diretamente na mentalidade e na cultura norte-americana, quando, em 1946, Branch Rickey (que, no filme, é interpretado por Harrison Ford) o dirigente e gerente geral do Brooklyn Dodgers, time de beisebol da liga norte-americana, tomou uma decisão que mudaria o curso da história do esporte: acabar de uma vez por todas com o racismo no beisebol, pois ele acreditava que os jogadores negros eram os melhores na modalidade e ele queria levar o time dele até a conquista da World Series.

Neste momento, é importante fazer um adendo. Na conjuntura histórica na qual se passa, “42: A História de uma Lenda” nos mostra que após a II Guerra Mundial, os jogadores clássicos do beisebol, como Joe Di Maggio, voltaram à liga como heróis de guerra e aclamados pelo público aficionado pelo esporte. Porém, apesar disso, os jogadores negros continuavam reclusos a uma liga própria, sem poderem participar da liga principal, com os jogadores dos outros times. Ou seja, aquilo que conhecemos, atualmente, como Major League Baseball (o maior torneio do esporte nos EUA), era formado por times compostos totalmente por jogadores brancos. O preconceito, é importante observar, não estava restrito somente aos campos de beisebol, na medida em que os negros também sofriam com a segregação em serviços básicos do dia a dia, como restaurantes, postos de gasolina, aeroportos, lanchonetes e, até mesmo, no uso de banheiros públicos.

Era preciso alguém de caráter resiliente para poder enfrentar tudo isso e também a importante responsabilidade de ser o primeiro jogador negro da liga profissional norte-americana de beisebol. O escolhido por Branch Rickey foi Jackie Robinson (Chadwick Boseman), Oficial condecorado do Exército norte-americano na II Guerra Mundial e jogador de extrema agilidade e talento. O roteiro escrito por Brian Helgeland é perfeito no retrato dos muitos obstáculos que Robinson enfrentou para poder se firmar na liga profissional - são bem pungentes as cenas que mostram os atos de racismo e de violência psicológica e física que Robinson sofreu, dentro de seu próprio time, dentro das arenas do esporte, por parte de seus colegas de profissão e da torcida. Ao mesmo tempo, como uma boa história de redenção, “42: A História de uma Lenda” nos mostra como, pouco a pouco, Jackie Robinson conseguiu vencer cada uma dessas resistências, se transformando num dos jogadores mais bem-sucedidos da liga norte-americana de beisebol, um ídolo independente de torcida e que abriu caminho para muitos outros atletas negros do esporte.

Dirigido e escrito com competência e sensibilidade por Brian Helgeland, “42: A História de uma Lenda” é um filme que aproveita aquilo que de melhor - e de mais difícil - existe na jornada vivida por Jackie Robinson e sua família a partir do instante em que Branch Rickey o escolheu para ser aquele que iria quebrar barreiras em nome de um bem maior: da queda do preconceito e da intolerância para se ver nascer o respeito entre as diferentes raças. Essa é uma mensagem de apelo universal e que precisa ser reforçada sempre, de vez em quando. Talvez, por isso mesmo, “42: A História de uma Lenda” tenha sido tão bem sucedido nos Estados Unidos, país em que o beisebol tem um apelo e ídolos enormes - e no qual a figura de Jackie Robinson ainda é muito reverenciada. Talvez, também, ao mesmo tempo, por isso mesmo, “42: A História de uma Lenda” não tenha tido tanta ressonância assim no Brasil, sendo lançado diretamente em DVD. Entretanto, este é um filme que, não só por sua qualidade cinematográfica, mas, principalmente, por trazer uma história que merece ser conhecida, precisa ser descoberto com urgência.

1 comment

  1. celosilva365 10 setembro, 2013 at 02:51 Responder

    Também gostei, em alguns momentos me sensibilizou de fato, gosto como o diretor trata da temática sem ser melodramático. A cena em que o outro jogador o abraça em meio a uma chuva de preconceito, é das mais sensíveis.

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