O Lobo de Wall Street

publicado em:29/01/14 1:24 AM por: Kamila Azevedo Cinema

“Me deixe te dizer uma coisa. Não existe nobreza na pobreza. Eu fui um homem pobre, e eu fui um homem rico. E eu escolheria ser rico todas as vezes”. Essa frase é dita pelo corretor da bolsa de valores Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio, em atuação vencedora do Globo de Ouro 2014 de Melhor Ator em um Filme de Comédia/Musical e indicada ao Oscar 2014 de Melhor Ator), protagonista do longa “O Lobo de Wall Street”, dirigido por Martin Scorsese, em uma das cenas mais importantes da obra. Essa frase é fundamental para entendermos quem é Jordan Belfort: um homem que estabeleceu uma meta para a sua vida e fez todo o possível – e o impossível – para alcançar os seus objetivos.

Como bem nos mostra o roteiro escrito por Terence Winter (conhecido pelo trabalho em séries como “The Sopranos” e “Boardwalk Empire”), na busca pelo seu projeto de vida, Jordan Belfort não hesitou em ser antiético, amoral e criminoso. Sua riqueza foi construída em cima da realização de golpes (notadamente, por meio de vendas de ações fraudulentas) em cima de investidores que confiavam seus – em alguns casos, parcos – recursos na empresa que ele construiu ao lado do sócio Donnie Azoff (Jonah Hill, indicado ao Oscar 2014 de Melhor Ator Coadjuvante): a Stratton Oakmont.

De uma certa maneira, Jordan Belfort lembra a outra personagem interpretada por Leonardo DiCaprio nos cinemas, em 2013: Jay Gatsby, de “O Grande Gatsby”, filme dirigido por Baz Luhrmann. Assim como Gatsby, Belfort levava um estilo de vida marcado por muito luxo, luxúria e ostentação. Assim como Gatsby, Belfort oferecia festas megalômanas, regadas a muita bebida, música, drogas e mulheres. Sendo que, ao contrário de Gatsby, que promovia festas para preencher o seu vazio existencial; Belfort realizava festanças para alardear a sua condição financeira e seduzir outros a embarcar dentro do sonho que ele possuía e que ele acreditava poder passar para outras pessoas.

Desta forma, uma coisa chama a atenção no trabalho de direção de Martin Scorsese em “O Lobo de Wall Street”. Não só ele tira de Leonardo DiCaprio uma das melhores atuações de sua carreira (que, com certeza, seria considerada a favorita para vencer o Oscar 2014 de Melhor Ator, se não fosse a presença imbatível de Matthew McConaughey, em “Clube de Compras Dallas”), como também ele retrata toda essa história com muita imparcialidade, sem fazer qualquer tipo de julgamento sobre a postura e os atos de Jordan Belfort – uma personagem que, diga-se de passagem, é muito difícil de causar empatia com o público e isso é mais um tributo à performance sensacional de DiCaprio, que embarcou na visão de seu diretor e nos mostra Belfort com todas as suas vulnerabilidades e seus defeitos.

Uma obra indicada a 5 Oscars 2014, “O Lobo de Wall Street”, na realidade, é um filme que não tem o objetivo de fazer uma análise a respeito de Wall Street como palco sujo para aqueles que são dominados pela ganância e arrogância e pelo desejo de sempre querer mais e mais e mais. O longa acaba sendo sobre a figura magnética que é Jordan Belfort, que soube muito bem se posicionar dentro do jogo de Wall Street, pagar pelos seus pecados (ele passou 22 meses na prisão por crimes relacionados à manipulação do mercado de ações) sem se redimir e ressurgir das cinzas aproveitando aquilo que ele tinha de “melhor”: a capacidade de cativar (basta ver o brilho atento no olhar dos que escutam Belfort falar em suas palestras sobre como se tornar um grande vendedor) as pessoas a fazerem, exatamente, aquilo que ele quer que elas façam.

Indicações ao Oscar 2014
Melhor Filme
Melhor Ator – Leonardo DiCaprio
Melhor Ator Coadjuvante – Jonah Hill
Melhor Diretor – Martin Scorsese
Melhor Roteiro Adaptado – Terence Winter



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


Para mim é o melhor Scorsese desde “Os bons companheiros”. Tb vi essa relação entre Belfort e Gatsby. O próprio DiCaprio já admitiu ser fascinado pela ambiguidade do sonho americano. Os dois filmes não deixam de ser leituras venenosas, e particularmente pessimistas, desse famigerado sonho. A análise de Wall Street é o que menos interessa a Scorsese, diferentemente de Oliver Stone no clássico Wall Street. Aqui é o aspecto humano que se sobressai com a insana atuação de DiCaprio no melhor momento de uma carreira cheia de melhores momentos.
Bjs

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Gostei da análise, Kamila. Concordo. E também com o Reinaldo no comentário acima. Acho que é o melhor Scorsese desde “Os Bons Companheiros”, embora eu considere que ele tenha feito outros grandes filmes no período.

Bjs!

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Reinaldo, é um ótimo filme do Scorsese, sem dúvida. Verdade. Bem notado sobre essa reflexão dos dois filmes em cima da ambiguidade do sonho americano. É bem isso mesmo.

Otavio, obrigada! Não sei se consideraria o melhor Scorsese desde “Os Bons Companheiros”. Talvez, o melhor Scorsese desde “Os Infiltrados”, que gosto MUITO!

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Essa cena final que você cita, para mim resume o filme. Um cara cheio de lábia, tendo olhos afoitos por aprender o caminho do “sucesso fácil”. É isso, o sonho americano jogado e ridicularizo na tela, talvez por isso, tantos nos Estados Unidos não tenham gostado dele.

Quanto a votação pelos melhores de Scorsese, gosto muito de Os Infiltrados, mas acho que ficaria com Otávio e Reinaldo, rs.

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Otavio, pois é. Para mim, “Os Infiltrados” consegue ser muito melhor que o filme original, “Conflitos Internos”. Um grande trabalho do Scorsese.

Amanda, exatamente. Perfeita a sua observação.

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