Robocop

publicado em:29/03/14 12:16 AM por: Kamila Azevedo Cinema

Filme que marca a estreia de um dos melhores diretores brasileiros, José Padilha, no cinema hollywoodiano, “Robocop” é um remake de um dos maiores clássicos dos anos 80: “Robocop – O Policial do Futuro”, dirigido por Paul Verhoeven. A trama do longa dirigido por José Padilha parte de uma questão um tanto interessante. Estamos no ano de 2028. A empresa OmniCorp – capitaneada por Raymond Sellars (Michael Keaton) – é líder no segmento de tecnologia robótica. Os Estados Unidos já têm utilizado os drones produzidos pela empresa para fins militares, poupando muitas vidas humanas. Há a intenção de se aproveitar os drones dentro do próprio território norte-americano, criando uma força policial que, da mesma maneira, pouparia inúmeras vidas humanas. Porém, a OmniCorp tem como grande obstáculo para a consecução de seu objetivo a lei proposta pelo Senador Hubert Dreyfuss (Zach Grenier).

O pensamento de Dreyfuss tem muito fundamento. Os drones produzidos pela OmniCorp são máquinas dotadas de programas que permitem que elas sejam, basicamente, executoras de uma função, sem questionar a ordem que lhes é dada. Ao contrário do ser humano, que, para tomar uma decisão de, para entrar no contexto de ‘Robocop”, por exemplo, dar um tiro em alguém, passa por vários processos emocionais até chegar ao seu ato final. Portanto, para resumir algo que é muito complexo, a pergunta inicial por trás do roteiro de “Robocop” é a seguinte: poderão os robôs – que, é importante frisar, são passíveis de erros como os seres humanos, uma vez que programas podem ter códigos equivocados – adquirirem qualidades típicas dos homens?

É esse o grande desafio por trás da OmniCorp: desenvolver um policial que seja metade homem, metade robô e que cause empatia suficiente no grande público, de forma a reverter a opinião pública a seu favor, derrubar a Lei Dreyfuss e poder comercializar esses novos policiais, resistentes e imbatíveis e prontos para combater a criminalidade. É aí que entra a figura de Alex Murphy (o ator sueco Joel Kinnaman, no primeiro grande papel de sua carreira – apesar de ele ser conhecido pela série “The Killing”). Após ser gravemente ferido num atentado, ele é usado como “bode expiatório” para o primeiro modelo daquele que seria o Robocop, o projeto dos sonhos da OmniCorp.

É importante mencionar que Alex Murphy é o candidato perfeito para esse papel: pai e marido amoroso, e policial íntegro e comprometido com a sua função. Quando Alex Murphy passa a ser um homem dentro de uma máquina, o roteiro escrito por Joshua Zetumer é perfeito ao retratar a divisão que existe entre um lado e outro, a diferença da motivação entre um homem e uma máquina, a forma como Murphy passa a ser visto pelas outras pessoas (especialmente as que ele conhece bem) e a forma como o seu comportamento difere quando ele deixa um lado predominar perante o outro. Porém, a constatação mais importante que fica ao observarmos Alex Murphy na nova chance que ele recebeu é a de que o lado humano pode ser preponderante e influenciar o lado máquina, e vice-versa.

Apesar de ser um filme de ação/ficção cientifica propriamente dito, que trata de temas como corrupção policial, desejo de vingança e senso de heroísmo e de dever cumprido; ao mesmo tempo, “Robocop” é um longa diferente, por ter um roteiro que proporciona o espaço para que surjam reflexões como a que estamos fazendo em nossa resenha crítica. Discussões como o uso ético e apropriado das novas tecnologias nunca se tornam cansativas, por serem algo extremamente atual e por nos mostrarem realidades que poderão estar muito próximas a nós num futuro não muito distante.

Em termos cinematográficos, “Robocop” é um competente filme, que tem conflitos que causam empatia na plateia – apesar também do longa original ser muito querido pelos cinéfilos. Mesmo não acrescentando ou justificando a necessidade de uma refilmagem da história, é muito bom que filmes assim possam ser redescobertos por um público mais jovem – que não conhece, por exemplo, a obra de Paul Verhoeven. Porém, nos causa tristeza ver que o estilo ágil e de crítica social presente na obra de José Padilha (como comprovam “Tropa de Elite”, “Tropa de Elite 2” e o documentário “Ônibus 174”) foram totalmente engolidos por Hollywood. Que ele possa ser mais assertivo e ter mais liberdade na próxima oportunidade.



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


Concordaria plenamente com sua crítica se não fosse o último parágrafo. Acho que o filme tem problemas sim, mas não passam pela falta de liberdade de Padilha. Para mim, “Robocop” é um filme reconhecível dele. Vc percebe que é um filme de José Padilha, tanto no discurso altamente politizado (incomum para um blockbuster), como pela construção dos personagens. Enfim, acho que foi uma boa estreia com um filme com algumas arestas, mas de muita personalidade.
Bjs

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Tendo a concordar com Reinaldo, apesar de toda força de Hollywood, acho que Padilha conseguiu impor seu ritmo e suas marcas. É um filme que evoca a questão política e traz muitas semelhanças com os filmes do diretor. Mas, vamos torcer para ele conseguir mais e mais espaço, para fazer filmes melhores sempre. Pois, obras como Ônibus 174 e Tropa de Elite são mesmo superiores a esta aqui.

bjs

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Reinaldo, para mim, “Robocop” é um filme engessado pelo padrão hollywoodiano. Porém, tenho que concordar que o filme tem um discurso altamente politizado e que causa a reflexão na plateia. Eu gostei de “Robocop” por causa disso.

Amanda, não consegui ver a marca de Padilha em “Robocop”. No resto, concordo com seu comentário. Beijos!

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ainda não assisti, mas a sua resenha reflete o pensamento da maior parte dos críticos americanos. acho que já sei o que esperar…
achei bizarro ver alguns brasileiros elogiando efusivamente o filme, dizendo, inclusive, que ele é melhor do que o original. sem chance!

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