Getúlio

De uma certa maneira, “Getúlio”, filme dirigido por João Jardim, guarda muitas semelhanças com um longa como “A Queda! - Os Últimos Dias de Hitler”, filme dirigido por Oliver Hirschbiegel. Especialmente na forma como nos leva à intimidade de dois líderes políticos controversos nos momentos derradeiros de seus respectivos governos, fazendo com que a gente fique um pouco mais próximo dos sentimentos e das decisões que ali estavam presentes.

O roteiro de George Moura aborda os 19 últimos dias de vida de Getúlio Vargas (Tony Ramos), o “Pai dos Pobres”, considerado por muitos historiadores o maior presidente que o Brasil já teve, principalmente pelo legado que ele deixou em relação às leis trabalhistas e pela visão em criar a Petrobras, por exemplo. Apesar de ser venerado pelo povo, Getúlio também recebia a sua dose de críticas, especialmente por causa do seu período como presidente-ditador durante o Estado Novo.

O ocaso de Getúlio Vargas começa no dia 05 de agosto de 1954, quando um atentado a tiros na Rua Tonelero fere o jornalista Carlos Lacerda (adversário político mais ferrenho de Vargas, interpretado, no filme, por Alexandre Borges) e mata o Major Rubens Florentino Vaz, da Força Aérea Brasileira. As investigações posteriores do caso levam à descoberta de que a autoria e, provavelmente, o mando do crime foram de pessoas próximas do então presidente (especialmente os integrantes de sua guarda pessoal) e isso macula ainda mais a sua imagem, que já vinha sofrendo com as constantes denúncias de corrupção em torno de seu governo.

Esse atentado é o princípio de clamores liderados pela imprensa e pelos militares pela renúncia ou licença de Getúlio Vargas do cargo de presidente. Chama a atenção no retrato de João Jardim sobre Getúlio Vargas o fato de ele se manter impassível diante o tormento que passava, bem como a sua dignidade e a sua firmeza de propósito em tentar fazer o que era correto, até o fim, em 24 de agosto de 1954, quando ele cometeu suicídio. Também é importante observar a forma resignada com a qual Vargas encarava o seu futuro - sentimento notado principalmente na forma como ele se abria com a sua filha, a fiel escudeira Alzira (Drica Moraes).

Em muitos momentos, “Getúlio” é uma verdadeira aula de história. Filmado sob um ponto de vista documental, a câmera de João Jardim só se abstém de documentar um momento histórico quando joga o seu olhar sob a personagem principal. Getúlio, na maior parte das vezes, é visto em closes, talvez para tentarmos ficar o mais perto possível de sua pessoa íntima, naquele que foi, provavelmente, o momento mais delicado de sua vida. É notável o trabalho de reconstituição histórica e ajuda muito o fato de o filme ter sido rodado dentro do Palácio do Catete, sede da presidência naquela época. E, mais ainda, é admirável o trabalho desenvolvido pelo elenco, com destaque para Tony Ramos, Drica Moraes e os atores que interpretam os personagens chave do gabinete do governo. “Getúlio” é um belíssimo filme, de linguagem cinematográfica tradicionalíssima e que mostra o atual patamar técnico do cinema brasileiro.

4 comments

  1. Reinaldo Glioche 23 maio, 2014 at 02:25 Responder

    Sua crítica foi realmente a mais entusiasmada que li sobre o filme. Francamente, não o achei tão exuberante, ainda que seja um filme do tipo que o cinema brasileiro precisa se habituar a conceber…
    bjs

    • Kamila Azevedo 24 maio, 2014 at 00:45 Responder

      Reinaldo, eu gostei do filme. Gostei bastante. E concordo: o cinema brasileiro precisa se habituar a produzir obras desse tipo.

  2. Amanda Aouad 28 maio, 2014 at 14:51 Responder

    Muito interessante essa sua comparação com A Queda, de certa forma me faz rever algumas questões que me incomodaram no filme. De qualquer maneira, não me empolgou tanto, só destaco a atuação de Tony Ramos e Drica Moraes. Mas, também concordo que o Brasil precisa de mais obras do tipo.

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