O Mordomo da Casa Branca

publicado em:18/09/14 12:34 AM por: Kamila Azevedo Filmes

“O Mordomo da Casa Branca”, filme dirigido por Lee Daniels, é uma obra muito clara em suas intenções – apesar de, em alguns momentos, o diretor forçar a barra para enfatizar a sua mensagem principal. Porém, por trás do retrato de acontecimentos importantes da história recente dos Estados Unidos, como a luta pelos movimentos dos direitos civis norte-americano, a Guerra do Vietnã e o Partido dos Panteras Negras; nós temos um relato sobre a natureza de uma relação entre um pai e seu filho.

Cecil Gaines (Forest Whitaker) é o produto dos Estados Unidos escravocrata, nos Estados do Sul, que viu seu pai ser assassinado na sua frente pelo truculento “homem branco” e que passou a sua vida inteira servindo os outros. É o desejo dele de ter uma vida mais digna que o leva a ir progredindo profissionalmente, com as limitações que lhe são impostas, ao ponto de ele se doar também para proporcionar à sua família uma vida confortável.

Seu filho mais velho, Louis Gaines (David Oyelowo) é o produto dos Estados Unidos que estava acordando, nos anos 60, com a luta pelos direitos civis, quando os negros, por meio da resistência civil não-violenta, aspiravam ao alcance da mudança e da igualdade dentro do seu próprio país. Neste sentido, uma frase dita por Cecil é muito emblemática e forte, ao ilustrar essa situação: “os Estados Unidos sempre foram cegos em relação ao que fazem aos seus próprios habitantes. Nós olhamos para o resto do mundo e julgamos. Nós vemos o que acontece nos campos de concentração, mas não reconhecemos o fato de que esses mesmos campos aconteceram por quase 200 anos aqui no nosso país”.

Assim como seu filho, que nasceu em uma sociedade opressora e cruel com os seus iguais, Cecil, de uma certa maneira, também viveu uma realidade oprimida. Apesar de ter uma profissão, ele foi treinado para ser subserviente e para esquecer os seus próprios pensamentos em prol da dedicação e da confiança que devota ao seu patrão (o filme enfoca, principalmente, o período em que ele esteve no olho do furacão, servindo oito presidentes dos Estados Unidos na Casa Branca). Cecil tem uma ética tão grande em torno daquilo que faz que o grande ponto de “O Mordomo da Casa Branca” é a sua transformação, quando ele passa a enxergar aquilo que ele é de verdade dentro do principal símbolo da democracia norte-americana.

Portanto, mais do que uma crônica sobre a história de superação dos negros dentro dos Estados Unidos, “O Mordomo da Casa Branca” é, ao mesmo tempo, o relato sobre uma terra em que tudo é possível. O filme começa, em 1926, com os negros sendo escravizados e tratados como um nada; e termina com a virada, com a eleição de Barack Obama – o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos. É um final épico, típico de Hollywood, para um filme que desperdiça o seu potencial crítico sobre um tema que, infelizmente, continua a ser atemporal, pois, enquanto existir a intolerância, o preconceito e o desrespeito, essa história ainda não terminou.



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


A mensagem do filme é que o cidadão que abaixar a cabeça para os brancos,servir o país e se calar,vai se dar bem e ter emprego,família e ser feliz.O filho dele bate de frente contra o sistema e apoia os panteras negras e faz um discurso bacana dizendo ao pai que não aceita se comportar como um branco e cita o ator Sidney Poitier,esse personagem morre e não é “gratificado por servir ao estado”.Oprah Winfrey está mais vaidosa do que nunca implorando por um oscar a cada gesto exagerado(mas reconheço qualidades na cena que ela pede respeito ao filho e insulta a namorada dele).Forest Whitaker esta correto e o saudoso Robin Williams interpreta o ex presidente Eisenhower,enquando John Cusack mais parece o pica pau com aquele nariz enorme do presidente Nixon(é notório o nariz feio de Nixon,mas não precisa exagerar,em Frost\Nixon de Ron Howard o nariz é sútil,aqui parece o Anthony Hopkins no filme de Oliver Stone).Concorda que Lee Daniels exagera em tudo? direção de atores,paternalismo e maquiagens pesadas.Ele passa a mão na cabeça dos seus protagonistas,ao invés de trabalhar melhor seus dilemas morais.Devia aprender com Clint Eastwood e trabalhar melhor o roteiro e a evolução dos personagens.E a estrutura narrativa do filme foi extraída de “Forrest Gump”.Que bom que a AMPAS concorda comigo e não caiu nessa furada.

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Paulo, discordo! O filme fala sobre essa questão de ser submisso, mas também indica a confiabilidade e o caráter daqueles que se “sujeitam” ao que o personagem de Forest Whitaker se “sujeitava”. Concordo que Lee Daniels exagera em tudo. Aliás, ele força muito a barra, no filme, em algumas cenas. Concordo com sua observação sobre o trabalho dele como diretor neste filme.

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