O Jogo da Imitação

publicado em:16/02/15 11:12 PM por: Kamila Azevedo Cinema

Durante a II Guerra Mundial, a Alemanha utilizava uma máquina chamada “enigma” para criptografar as suas operações de guerra. Decifrar o enigma parecia uma tarefa quase impossível e era um ponto importante para a vitória dos países aliados no conflito. O filme “O Jogo da Imitação”, dirigido por Morten Tyldum, fala sobre a tensa corrida contra o tempo que se instalou numa pequena casa de campo em Bletchley Park, interior da Inglaterra; quando a Marinha britânica e o serviço secreto inglês contrataram uma equipe formada pelas mentes mais brilhantes do país visando decifrar os códigos de guerra utilizados pela Alemanha.

Liderando esta equipe estava o matemático Alan Turing (Benedict Cumberbatch). O seu pioneirismo e a sua visão estratégica – bem como a sua teimosia ao quebrar a cadeia de comando a qual estava submetido visando obter a aprovação para os seus projetos – foram os elementos fundamentais para que a Inglaterra pudesse desvendar os códigos por trás da máquina “enigma”, encurtando a II Guerra Mundial em mais de dois anos, levando ao triunfo dos países aliados.

Turing foi o criador por trás daquele que seria considerado um dos primeiros computadores do mundo e foi a sua máquina, que ele denominou de “Christopher” (em homenagem a um amigo dos tempos de colégio), que fez o que parecia ser impossível. “O Jogo da Imitação” é todo estruturado em cima de Turing e das características que fizeram dele a pessoa certa, no lugar certo, para a função certa. Metódico, inteligente e perspicaz, ao ponto de ter sua proatividade confundida com arrogância, Alan Turing é retratado, no decorrer do filme, como uma típica mente brilhante cheia de questões internas a resolver – especialmente no que diz respeito à forma como ele se relacionava com as pessoas.

Nesse sentido, “O Jogo da Imitação” vai além do retrato de um feito que, com certeza, mudou os rumos da história da humanidade. Ao chamar a atenção para a maneira como os homossexuais eram tratados na Inglaterra da década de 40 e 50 (Turing foi processado criminalmente em 1952 e foi tratado com hormônios femininos e castração química – que o levaram a se suicidar, em 1954), o filme lança uma importante reflexão em cima da maneira como eles foram tratados, especialmente após a II Guerra Mundial.

Em muitas maneiras, “O Jogo da Imitação” pode ser classificado como um filme acadêmico. Em primeiro lugar, por ter uma história baseada em fatos reais, num trabalho excelente do roteirista Graham Moore. Em segundo lugar, a direção de Morten Tyldum segue bem a cartilha dos filmes ingleses recentes que obtiveram um grande sucesso no Oscar, como “O Discurso do Rei” e “A Rainha”. Em terceiro lugar, o elenco, com destaque para Benedict Cumberbatch e Keira Knightley, cumpre bem o seu papel. Em quarto lugar, a parte técnica do filme consegue recriar com sucesso a atmosfera da Inglaterra durante (e pós) II Guerra Mundial. Não à toa, “O Jogo da Imitação” conquistou 8 indicações ao Oscar 2015.

Indicações ao Oscar 2015
Melhor Filme
Melhor Ator – Benedict Cumberbatch
Melhor Atriz Coadjuvante – Keira Knightley
Melhor Diretor – Morten Tyldum
Melhor Roteiro Adaptado – Graham Moore
Melhor Edição – William Goldenberg
Melhor Direção de Arte – Maria Djurkovic e Tatiana Macdonald
Melhor Trilha Sonora Original – Alexandre Desplat



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


Já aqui eu vejo que Morten Tyldum foi além do academicismo. Sim, o filme é talhado para os prêmios, mas há sutilezas que não estavam presentes, por exemplo, em “O discurso do rei” e “A rainha”. A forma como a homossexualidade do protagonista é tratada é de uma fineza e sensibilidade notáveis. A dinâmica do thriller também instiga e a inteligência do roteiro extravasa a mera dinâmica teatral dos referidos filmes ingleses.

Beijos

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Reinaldo, o filme vai além por causa da questão pessoal do Alan Turing, na maneira como ela foi abordada, com a qual concordo contigo.

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É um bom filme, sem dúvidas, mas acho que poderia ter ido além. Benedict Cumberbatch está muito bem como Alan Turing e gosto muito da forma como ele insere o tema da homossexualidade, mas me incomoda a forma como os flashbacks da infância são inseridos.

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Amanda, não tive problemas com os flashbacks da infância, pois acho que essas cenas serviram para ajudar a moldar o Alan Turing na nossa mente.

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Kamila estou devorando filme atrás de filme para chegar afiado na cerimônia do Oscar.Provavelmente vou conferir “O Jogo da Imitação” semana que vem(se estrear na minha cidade),mas esse filme inglês foi “o filme de Toronto de 2014” e sabemos o quanto isso é importante.De lá saíram pérolas como “Quem Quer Ser Um Milionário”,”O Discurso do Rei” e “12 Anos de Escravidão”.Eu já esperava uma nomeação para Benedict Cumberbatch,mas fiquei surpreso com a indicação de Morten Tyldum(já reparou como ele é a cara do Fernando Meirelles?).Quando eu assistir o filme eu leio sua crítica.Depois de saber o final de “Foxcatcher” e “Sniper Americano” eu ando correndo de spoilers…

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Paulo, eu estou atrasada com o Oscar 2015, pois, infelizmente, boa parte dos filmes nem deu as caras nos cinemas da minha cidade – fato que eu lamento muito… “O Jogo da Imitação” é um filme muito acadêmico, mas não me encantou muito. Concordo que Morten Tyldum parece muito com Fernando Meirelles.

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Pois é, Kamila… Quem conhece a biografia do Turing alega que o filme o retrata de forma bem diferente do que ele realmente era – para pior, diga-se de passagem. Ele era um sujeito calmo, tranquilo e amigável, que ajudou muita gente em projetos científicos. Bem diferente do cara que não entende nem um convite para almoçar e demite os outros no melhor estilo Roberto Justus. Outras coisas que o filme não menciona: ele nunca escondeu à sete chaves o fato de ser gay, inclusive porque achava que isso seria um tema superado ao decorrer do seu tempo (se enganou); em momento algum o filme fala sobre o Colossus, o grande computador que de fato revolucionou o processamento de dados; ele foi expulso da Marinha, e não dispensado ao fim da guerra, pelo simples fato de ser gay. Como todo gênio, é mais fácil florear comercialmente o filme e dramatizar o cara como alguém intragável e incompreendido. Mas não deixa de ser uma produção necessária e justa, já que ele foi um personagem bastante importante do século passado, mas completamente ignorado até 2013 – quando ganhou o póstumo pedido de desculpas da realeza britânica. Bjo.

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Dudu, não sabia disso sobre o Turing, sobre a maneira distorcida com que ele foi retratado no filme. Curioso, então, perceber a maneira como o personagem foi abordado no filme.

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