O Abutre

publicado em:23/03/15 11:55 PM por: Kamila Azevedo Filmes

No livro “Showrnalismo: A Notícia como Espetáculo”, o jornalista José Arbex Jr. fala sobre um tema que tem muita relação com o filme “O Abutre”, dirigido e escrito por Dan Gilroy: o tratamento dado, pelos meios de comunicação, à notícia como um verdadeiro espetáculo. A espetacularização da notícia é uma tendência vista, principalmente, no telejornalismo e isso consiste do fato de transformar a notícia em um produto de entretenimento. Um exemplo vivo disso é o que assistimos em programas ditos sensacionalistas, como o finado “Aqui Agora” e o atual “Cidade Alerta”.

A personagem principal de “O Abutre”, Lou Bloom (Jake Gyllenhaal), um vigarista de primeira linha, enxerga nesse filão uma oportunidade (honesta, apesar das controvérsias) de crescimento profissional. Desta maneira, ele se joga, diariamente, na noite de Los Angeles, monitorando a frequência radiofônica da polícia da cidade, em busca “das notícias que vão causar IBOPE” – ou seja, crimes ocorridos em bairros de classe média alta, com vítimas improváveis, que vão ajudar ao noticiário local criar uma atmosfera de insegurança na cidade que não dorme.

O roteiro escrito por Dan Gilroy é uma peça meticulosa, que analisa, não somente a ética de trabalho dos chamados nightcrawlings, que são os profissionais freelancers, que trabalham nas ruas em busca dessas notícias espetacularizadas; bem como a relação que eles estabelecem com a mídia televisiva, que, por sua vez, vai pautando os assuntos que são levados ao público de acordo com a sua melhor conveniência.

Entretanto, “O Abutre” tem um diferencial muito importante: a forma como ele conduz a construção de Lou Bloom. Ambicioso, inteligente e perspicaz, ele logo entende como tomar as rédeas desse jogo e vai, aos poucos, se firmando num ramo em que a concorrência é muito ferrenha. A adaptação de Lou ao mundo dos nightcrawlings não é nada traumática, pois ele tem um perfil completamente antiético que se encaixa muito bem na conjuntura na qual o filme se passa.

Se você for um profissional da área de comunicação, “O Abutre” terá muito a lhe ensinar. Especialmente sobre como não agir diante da notícia, na medida em que o filme faz uma reflexão muito interessante acerca da distorção dos valores-notícia e da desvirtuação da própria função do jornalismo, que é comunicar uma informação ao público e refletir sobre as consequências desses dados para a vida daquela comunidade em particular.

Neste sentido, os abutres como Lou Bloom, que vivem mesmo dos restos das carniças; distorcendo, manipulando e recriando a realidade; usando a informação como uma peça de xadrez num jogo que visa o seu próprio benefício e lucro, prestam um verdadeiro desserviço à sociedade. Nunca um ator tão simpático como Jake Gyllenhaal foi tão odiado. Ele está transformado em tela.



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


bela análise, kamila!

devo dizer que quando eu era criança eu assistia “aqui agora”… haha

o abutre nos permite fazer diversas reflexões… é um filme incrível! uma pena o gylleenhaal não ter sido nem indicado.

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Sua critica está ótima e faço coro com a sua análise.Jake Gyllenhaal merecia uma nomeação ao Oscar e “O Abutre” é um filme muito atual,sobre a mídia sensacionalista e como a tragédia humana virou um espetáculo na televisa(eu DETESTO programa policial,Datena,Faccioly,Luis Bacci…eu tenho nojo disso).Assisti “O Abutre” duas vezes e a primeira imprensão foi melhor.Comparei Lou Bloom ao Travis Bickler de “Táxi Driver”,mas o personagem de Gyllenhaal é um psicopata,Travis não.Gyllenhaal quer ser parte do sistema,quer dinheiro,progresso e viver “o sonho americano”.O Travis não,é um ex combatente atormentado que se droga pra dirigir,sofre de insônia,solidão e a violência o corrompe.Ele quer salvar duas mulheres(Betsy que trabalha para Palantine e a prostituta íris).Enfim…dois personagens distintos.O que faltou para “O Abutre” ser um filme superior(e é um grande filme) é a ambiguidade que o protagonista não tem.O cara não sente nada,passa por cima de todos e no final se dá bem.Vale destacar a grande atuação de Rene Russo(superior a Keira Knightley em “O Jogo “Harvey Weinstein da Imitação”).”O Abutre” é um grande filme que merece ser visto.E de novo…parabéns pela crítica.

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Bruno, obrigada! Eu também assistia o “Aqui Agora”. Acho que todo mundo assistia! rsrsrsrs

Paulo, obrigada! Concordo que Jake Gyllenhaal está excelente, mas preciso ver todos os indicados ao Oscar de Melhor Ator para ver se ele poderia entrar no lugar de alguém. Os que vi até agora, acho que as indicações foram justíssimas. Não tinha feito esse analogia entre “O Abutre” e “Taxi Driver”. Pois é, concordo contigo sobre a falta de ambiguidade do personagem. O filme termina com uma moral não muito legal, mas isso acaba sendo condizente com o nojo que é o showrnalismo…

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Às vezes acho que “O Abutre” não explora o psicológico do protagonista tanto quanto deveria, mas a crítica feita ao mercado jornalístico e a ótima interpretação do Jake Gyllenhaal (de novo!) certamente validam demais a experiência!

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Matheus, sim, talvez, a psicopatia do personagem não tenha sido tão bem explorada, mas, de toda maneira, acho que isso não prejudica “O Abutre”, um filme de muitas qualidades.

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Bela crítica. Acho que mais do uma análise ferrenha dessa espetacularização da notícia, “O abutre” oferece uma investigação assustadora da deturpação do sonho americano. Afinal, Bloom vai revelando uma psicopatia irrefreável à medida que prospera em seu novo ofício. O filme trabalha em paralelo com essas duas camadas; Elas se completam e ofertam um painel angustiante dos rumos que o ser humano tomou.
Bjs

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Reinaldo, obrigada! Um bom ponto o que você levanta (investigação assustadora da deturpação do sonho americano). Concordo com seu comentário!

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