O Juiz

Dramas de tribunais são um verdadeiro gênero clássico do cinema norte-americano. “O Juiz”, filme dirigido por David Dobkin, vem para acrescentar algo novo a essa receita. Mais do que um drama de tribunal, o longa é um verdadeiro drama familiar, na medida em que seu roteiro fala sobre uma história de um pai e de um filho que, no meio de uma situação de extrema gravidade, se reconectam e conseguem aparar todas as arestas de um relacionamento que sempre foi complicado.

Ao retornar para casa para acompanhar o velório de sua mãe, o renomado advogado Hank Palmer (Robert Downey Jr.) vai ter que enfrentar muito mais do que a dor da perda do ente querido. Ele vai ter que encarar de frente o resultado de anos de abandono, uma vez que, por escolha dele próprio, ele abdicou de tudo que existia ali, como, por exemplo, o contato mais direto com os dois irmãos (Vincent D’Onofrio e Jeremy Strong) e com o seu pai (Robert Duvall, indicado ao Oscar 2015 de Melhor Ator Coadjuvante), a quem ele culpa por tudo de errado que aconteceu em sua vida.

Na cidade em que ele nasceu e cresceu, o pai de Hank é um cidadão extremamente respeitado. Juiz da cidade há 42 anos, ele é aquela pessoa que todos admiram e usam como exemplo positivo de caráter e de retidão. “O Juiz” acrescenta uma dúvida – e um conflito – razoável a essa ilibada trajetória quando o juiz Joseph Palmer é acusado de atropelar e abandonar à morte alguém que a polícia descobre ser um homem que ele condenou há 20 anos. É justamente aqui que Hank entra novamente, pois ele, a contragosto do pai e de si próprio, se debruça sobre o caso, na medida em que assume a defesa de seu genitor.

O lado mais bonito de um filme como “O Juiz” é mostrar como, da incompreensão e da intolerância que naturalmente existe entre Hank e Joseph, poderá também nascer a oportunidade em que toda a verdade estará em cima da mesa para que esses dois personagens possam chegar ao fechamento de um ciclo em um relacionamento delicado. Vemos isso acontecer em tela num verdadeiro embate entre dois grandes profissionais do direito, em que eles, de argumentação em argumentação, de depoimento em depoimento, de discussão em discussão, vão derrubando, um por um, todos os motivos de discórdia entre eles, passando a se conhecerem de verdade. É uma lição interessante sobre ter a humildade e sabedoria suficientes para deixar o ego e o orgulho de lado em prol de uma coisa muito simples: colocar-se no lugar do outro para melhor compreendê-lo. Duas grandes atuações dos Roberts Downey Jr. e Duvall.

Indicação ao Oscar 2015
Melhor Ator Coadjuvante - Robert Duvall

6 comments

  1. Amanda Aouad 18 abril, 2015 at 19:54 Responder

    Gosto também de O Juiz e o eterno duelo entre pai e filho que sempre rende bons dramas. Não acho a atuação de Robert Downey Jr ruim, mas acho que ele está caindo em uma caricatura perigosa. Agora, Robert Duvall está mesmo incrível.

    • Kamila Azevedo 18 abril, 2015 at 23:45 Responder

      Amanda, também não acho o Robert Downey Jr. ruim aqui. Na verdade, acho que ele repete, nesse filme, muitos dos seus trejeitos. Entendo o que você fala sobre a caricatura. Apesar de não concordar muito com isso. Robert Duvall está sensacional!

  2. Reinaldo Glioche 22 abril, 2015 at 15:09 Responder

    Gostei da sua crítica. Tão respeitosa e acalentadora quanto o filme em si. Sabia que gostaria da produção, tal como você, por já ter em grande estima os dramas de tribunal e os dramas familiares. Mas a elegância e robustez da fita de David Dobkin, aqui não menos que surpreendente, potencializaram a experiência.
    Bjs

    • Kamila Azevedo 22 abril, 2015 at 23:41 Responder

      Reinaldo, obrigada! Adoro dramas de tribunais e acho que esse aqui foi muito bem conduzido pelo diretor. Me emocionei em vários momentos da história.

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