Há Tanto Tempo que Te Amo

No decorrer dos 116 minutos de duração de “Há Tanto Tempo que Te Amo”, filme francês escrito e dirigido por Philippe Claudel, nos deparamos com uma personagem principal que foi brilhantemente caracterizada por Kristin Scott-Thomas. Na pele de Juliette, a elegante atriz inglesa se mostra despida de qualquer vaidade, com o mínimo de maquiagem possível, com uma cara fechada que impede qualquer tipo de aproximação das pessoas, com um ar misterioso que tanto nos intriga. A nossa vontade é a de penetrar no íntimo desta mulher, ainda mais porque somos apresentados a tantas poucas informações sobre ela. 

Quando a encontramos pela primeira vez, Juliette está chegando a uma pequena cidade francesa, após 15 anos ausente. Ela está ali para reencontrar a irmã mais nova, Léa (Elsa Zylberstein), que vai abrigá-la na casa em que mora com o marido, as duas filhas adotivas e o sogro. Aos poucos, ficamos conhecendo a mulher por trás daquela fachada fria. Acontece que Juliette estava longe de tudo e de todos, pois estava presa, cumprindo pena por assassinato. Para se ter uma idéia, o crime que ela cometeu é tão mal visto que poucos são aqueles que confiam nela, que têm coragem de encará-la nos olhos, que têm a bondade de lhe oferecer uma segunda chance. 

Léa é uma destas pessoas. É importante perceber também a maneira como esta personagem foi escrita por Philippe Claudel e atuada por Elsa Zylberstein. Juliette acostumou-se com a rejeição, mas Léa a quebra com um instintivo lado maternal, com um carinho enorme, com a vontade de ver a irmã bem, de recuperar um tempo que foi perdido, de conhecê-la e de fazer parte da vida dela. A função dela, em “Há Tanto Tempo que Te Amo”, é muito clara. Léa existe para mostrar à irmã que ela está viva, que ela é amada, que ela não foi esquecida, que ela tem alguém com quem contar e com quem pode dividir o peso de suas angústias. 

O interessante do filme de Philippe Claudel é que a experiência vivida por Juliette e Léa é totalmente compartilhada conosco, porque, como plateia, também temos a curiosidade de saber quem é Juliette, Léa e a lacuna que existe entre elas e que está relacionada a tragédia que acometeu a ambas, porque os efeitos do ato de Juliette atingiram a Léa também. “Há Tanto Tempo que Te Amo” tem cara de vida real, foge daquela tentação de querer fazer um retrato da difícil rotina daqueles que tentam retomar as suas vidas, até porque esta não é a jornada de Juliette. A personagem precisava entrar em contato consigo mesma e saber que ela não estava anestesiada por completo. No final, todos estaremos aqui com ela. 

Cotação: 8,0

Há Tanto Tempo que Te Amo (Il y a Longtemps que Je T’Aime, 2008)
Direção: Philippe Claudel
Roteiro: Philippe Claudel
Elenco: Kristin Scott-Thomas, Elsa Zylberstein, Serge Hazanavicius, Laurent Grévill, Frédéric Pierrot, Claire Johnston

33 comments

  1. Matheus 19 fevereiro, 2010 at 23:44 Responder

    Para mim, está longe de ser um grande filme – mas tem méritos irrempreensíveis. E o maior deles, sem dúvida, é o elenco. Kristin Scott Thomas e Elsa Zylberstein estão impecáveis!

  2. Paulo Ricardo 20 fevereiro, 2010 at 01:19 Responder

    Belissimo filme,completamente ignorado pela academia ano passado.Foi nomeado ao Bafta na categoria roteiro original(Philippe Claudel)e Atriz(Kristin Scott Thomas),e ao Globo de Ouro de Atriz Drama.Como você muito bem diz,o filme tem cara de vida real e considero o maior trunfo é não julgar a protagonista .Um filme a ser descoberto,boa dica Kamila.

  3. Ciro 20 fevereiro, 2010 at 02:39 Responder

    Eu achei esse filme lindo. Confesso que já nem lembro mais da história direito, mas me deixou com uma sensação de peso depois vê-lo. As atuações são incríveis. Vale a pena sempre rever.

    Beijos!

    • Kamila 21 fevereiro, 2010 at 19:14 Responder

      Jack, tudo bem, obrigada. E com você? Por quê não conseguiu terminar de assistir a este filme???

      Ciro, concordo contigo! Beijos!

      Vinícius, exatamente! As duas atrizes se sobressaem aqui!

  4. Elton Telles 21 fevereiro, 2010 at 16:22 Responder

    filmaço! De uma sensibilidade e dedicação… gosto muito da forma como o filme é desenvolvido. E não só Kristin Scott Thomas está um furacão, mas Elsa Zylberstein também entrega uma atuação excepcional.

    ABS!

    • Kamila 21 fevereiro, 2010 at 19:18 Responder

      Luís, concordo contigo!

      Cassiano, me lembro da sua crítica sobre este filme, foi uma das que me motivou, inclusive a assistir a esta obra. Obrigada!

      Elton, concordo plenamente contigo. Abraços!

  5. Rafael Carvalho 22 fevereiro, 2010 at 14:00 Responder

    Esse para mim foi um dos filmes mais cortantes do ano passado, com u texto maravilhoso do Claudel que ia nos dando informações sobre as personagens e seus atos pouco a pouco, sem pressa, numa construção cuidadosa e delicada. Kristin Scott Thomas foi a melhor atriz para mim ano passado, pena que não tenha tido o reconhecimentou que merecia.

  6. Vulgo Dudu 22 fevereiro, 2010 at 19:56 Responder

    Eu perdi esse filme, mas confesso que o argumento não me animou nem um pouco. Eu gosto de textos bem trabalhados, até. Mas sabe quando não bate uma empatia? Mas de repente rola de dar uma chance, né?

    Bjs!

    • Kamila 24 fevereiro, 2010 at 02:33 Responder

      Mayara, procure-o, sim. Beijos!

      Rafael C., concordo plenamente contigo em todo seu comentário!

      Dudu, dê um chance. Acho que você não vai se arrepender. Beijos!

  7. André C. 1 março, 2010 at 16:40 Responder

    Kamila,
    desta vez vimos o mesmo filme! Achei a atuação de Elsa Zylberstein exuberante, deixando a atuação de Kristin Scott Thomas ainda mais forte e dura. A diferença das duas e o amor presente no ar entre elas é a alma do filme.

    Bjo,
    André

  8. elloa 3 março, 2010 at 13:45 Responder

    Além da atuação de Kristin Scott-Thomas, o que mais me marcou nesse filme foi a reflexão que promove aos espectadores, colocando-os em xeque sobre se agiriam de igual modo se estivessem na pele da protagonista. Achei a história um pouco lenta e bastante linear, não há pontos aaaaltos no filme, mas recomendo e assino embaixo da sua nota!

  9. celio pires de araujo 16 janeiro, 2011 at 11:36 Responder

    o filme tem um ritmo perfeito e vai revelando os fatos na medida certa, sem a pressa do cinema amerciano, com atuações maravilhosas e a música do final é muito boa. o que me impressionou é a exigência da sociedade em querer saber os segredos das pessoas e achar isso um direito, não há lugar para as pessoas reservadas, tristes ou com algo que só interessa só a si.

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