Nine

Baseado no musical da Broadway vencedor de 5 prêmios Tony, que, por sua vez, foi inspirado no clássico “8 1/2”, do diretor italiano Federico Fellini, “Nine”, de Rob Marshall, possui uma estrutura narrativa que privilegia a discussão da concepção artística daqueles que se dedicam à arte. No caso particular de Guido Contini (Daniel Day-Lewis, num de seus papeis mais inusitados da carreira), diretor/gênio do cinema italiano que vive o chamado “bloqueio de autor”, os limites entre vida e arte sempre se misturam. Ou seja, ele respira arte e esta, consequentemente, acaba se confundindo muito com a vida dele. 

A estrutura narrativa de “Nine” é muito simples: enquanto tenta realizar e conceber seu mais novo filme, Guido Contini se depara com uma série de memórias sobre as diversas fases de sua vida. Em certos momentos, essas lembranças chegam a se confundir com a própria realidade de Guido e pouco fazem para atenuar os seus problemas de criação ou a sua crise pessoal. A impressão que se tem, aliás, é a de que Guido está numa enorme jornada de auto descoberta. Ele precisa descobrir aquilo que é importante para ele, ele necessita se redescobrir de forma a se recriar como autor e como o gênio que ele é. 

Neste sentido, todos os sonhos de Guido envolvem aquelas mulheres que fizeram ou fazem parte da sua vida. Desde Saraghina (Fergie), que ele conheceu quando era ainda uma criança; passando pela sua mãe (Sophia Loren), pela sua melhor amiga e figurinista (Dame Judi Dench), pela jornalista que fala do estilo de seus filmes (Kate Hudson), pela sua amante Carla (Penélope Cruz, totalmente à vontade na pele da personagem), pela sua atriz favorita e musa inspiradora (Nicole Kidman, muito mal utilizada); até chegar na mais importante delas: Luisa (Marion Cotillard), a esposa de Guido, o porto seguro dele, a pessoa que foi totalmente sufocada pela genialidade do marido, mas que se dedica por completo à ele, suportando até as piores coisas por puro amor. 

Um detalhe importante a se notar em “Nine” é que a importância dessas mulheres para a trama nunca fica totalmente clara para a plateia até a parte em que Guido desvenda seu filme para a musa Claudia Jenssen. Esse é somente um dos pontos falhos do roteiro escrito por Michael Tolkin e Anthony Minghella. O outro reside no próprio Guido, que é um personagem que nunca causa empatia na gente. O eixo do filme, portanto, acaba sendo Luisa Contini (e, por consequência, a performance da francesa Marion Cotillard), que, na cena em que canta “My Husband Makes Movies”, desvenda Guido e nos ajuda a entrar definitivamente nesta história. 

É bom prestar atenção nesta cena por outra razão: é nela em que Rob Marshall atinge o auge da excelência em “Nine”. Todo o momento em que Cotillard canta e encena “My Husband Makes Movies” é um belo exemplo de como os elementos estéticos, se bem trabalhados, funcionam em prol de um filme. Neste sentido, Rob Marshall é um baita coreógrafo, que sabe muito bem aproveitar os espaços em que suas cenas ocorrem. Interessante também perceber que, em “Nine”, muitas vezes, temos a impressão de estar assistindo a uma “cópia” de “Chicago” - o cenário final do filme de Guido lembra muito o da cena “Cell Block Tango”. Fato que é bem natural, afinal ambos os filmes possuem o mesmo diretor, os mesmos diretores de arte e a mesma figurinista. A se lamentar, porém, o fato de este ser um longa que não faz muito jus ao elenco de estrelas reunidos por Rob Marshall. Eles mereciam mais!

Cotação: 6,0

Nine (Nine, 2009)
Direção: Rob Marshall
Roteiro: Michael Tolkin e Anthony Minghella (com base no musical de Arthur Kopit e Maury Weston)
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cotillard, Penélope Cruz, Judi Dench, Fergie, Kate Hudson, Nicole Kidman, Sophia Loren

25 comments

  1. Cassio Bezerra 2 junho, 2010 at 00:01 Responder

    Rob Marshall ficou em dívida com o seu público mas, principalmente, com o próprio Cinema a que se propôs homenagear. Uma pena!
    Cottilard e Daniel Day-Lewis é quem realmente sustentam o filme e, secundariamente, Penélope. O resultado poderia ter sido ainda pior se não houvessem sido escalados estes magníficos atores.
    Quanto à Cotillard: ela é dona de um talento genuíno que não sei bem explicar… Só sei que é uma das raras atrizes capazes de expressar emoções através do olhar.
    Só não entendo o porquê, de apenas a Academia, ter preterido ela em favor de Penélope, quando da nomeação para Melhor Atriz Coadjuvante?!

    • Kamila 2 junho, 2010 at 00:18 Responder

      Cassio, discordo que Daniel sustenta o filme. Achei que ele foi uma escolha equivocada para o papel principal. A Penélope foi indicada porque a personagem dela chama mais atenção, só isso!

  2. Fael Moreira 2 junho, 2010 at 02:21 Responder

    Complicado falar desse filme. É difícil saber o objetivo de Marshall ao vermos seu musical. A quem ele quer agradar? Falo isso porque amo musicais e nem a mim ele agradou. Concordo em todo do seu texto principalmente você ter lembrado que Nicole Kidman está muito mal utilizada no pouco que aparece no filme. Eu era daqueles que acreditavam muito no sucesso de “Nine”, mas não desceu goela abaixo. O filme é chato mesmo.

  3. Cristiano Contreiras 2 junho, 2010 at 04:17 Responder

    Ah, esse eu devo ver lá pro fim do ano, rs…desde quando o processo deste filme estava na pré-produção (onde blogueiros e críticos apontavam que seria o FILME do ano e do Oscar) eu não tive interesse.

    Talvez, veja antes pela Penelope Cruz! rs

    beijo

    • Kamila 3 junho, 2010 at 00:00 Responder

      Fael Moreira, eu também amo musicais e esse filme não me agradou!

      Cristiano, você gosta da Penelope? Beijo!

      Dudu, eu imagino que não faça seu tipo! rsrsrsrrs Beijos!

  4. Reinaldo Matheus Glioche 2 junho, 2010 at 12:58 Responder

    Achei sua crítica bastante ponderada e austera Kamila. Não discordo, mas também hesito em concordar. Acho Nine um bom filme. Também acho que poderia ser melhor. Mas é um musical digno e de belos momentos (sejam eles coreografias ou apenas atores/atrizes em seus solos). Quanto a Day Lewis, ele demora a achar o tom, mas acha. Guido, tal qual Felinni, não é um sujeito de provocar empatias. Não creio que essa fosse uma pretensão da narrativa. De qualquer maneira, achei sua análise, como já disse, das mais isentas e ponderadas que li na blogsfera.

    bjs

  5. Paulo Ricardo 2 junho, 2010 at 15:01 Responder

    O filme me decepcionou muito.Ver Nine é o mesmo que ver uma peça teatral no cinema.O filme tem um roteiro horrivel e uma distância do público.De bom no filme as atuações de Daniel Day-Lewis,e a música “Cinema Italiano” interpretada por Kate Hudson.

    • Kamila 3 junho, 2010 at 00:02 Responder

      Reinaldo, não sei se levo seu comentário como uma crítica ou um elogio, mas obrigada! Eu acho que esse musical só tem um belo momento, que citei em meu texto. Beijos!

      Vinícius, exatamente…. Ele, pelo jeito, vai ser um diretor de um filme só.

      Paulo Ricardo, também me decepcionou! E não gostei de “Cinema Italiano”.

  6. Otavio Almeida 2 junho, 2010 at 15:45 Responder

    Kamila, oi!

    Acho que o estilo manjado (e picareta) de Rob Marshall para fazer (ou forçar) uma nova geração de cinéfilos apreciar os musicais, com cortes mostrando os atores cantando e dançando para explicar o drama da “cena real” em questão, é recurso de cineasta de segunda categoria.

    Quando filmes de outros gêneros explicam exageradamente seus finais ou insistem na narração em off para não deixar o público com dúvidas na saída do cinema, tem gente que reclama. Agora, quando Rob Marshall faz o mesmo em seus musicais, aí pode? Por exemplo, Marion Cotillard discute com Daniel Day-Lewis em cena. Então, Rob Marshall apresenta, paralelamente, um delírio musical explicando 100% o que ela já queria dizer com todas as letras.

    Mais: Todo o glamour, com belas mulheres, cortes espertos na edição, muita iluminação aqui e ali não escondem um conteúdo vazio, sem paixão na hora de ser contado ao público. Lembre daqueles filmes de ação com muito tiro, correria, pancadaria e explosão que escondem uma trama banal. Lembre do show de efeitos visuais em outros filmes que desviam a fragilidade da história.

    E olha que muitos reclamaram de “Avatar”, quando o exemplo do mau cinema cheio de plumas e paetês está em “Nine”.

    Bjs!

  7. Cassiano 2 junho, 2010 at 16:25 Responder

    Hummm Kamila, não concordo com a semelhança com Chicago!

    Nine é um filmaço para poucos apreciadores é verdade, é acima de tudo uma homenagem ao cinema italiano.

    Mas acho que no final eles dão show mesmo, uma pena que o público de hoje em dia não curte mais musicais e muito menos Fellini. Estamos na era da diversão rasa e rala.

    Ahh, uma coisa vc há de concordar comigo, nunca essas atrizes estiveram tão lindas numa pelicula.

  8. Raspante 2 junho, 2010 at 16:37 Responder

    Gostei de Nine, mas o roteiro ficou muito em cima de Guido, o que acabou ficando chato e enjoativo demais, quando chegou na última música, nãoa guentava mais ouvir elas cantando Guidooo Contiiiniiii, afinal todas as músicas o nome dele era citado, rs
    Abs.

    • Kamila 3 junho, 2010 at 00:03 Responder

      Otavio, belo comentário! E concordo contigo. Beijos!

      Cassiano, sem problemas! E não vi essa homenagem ao cinema italiano…. E as atrizes, realmente, estão todas lindas!

      Raspante, mas ele era o muso delas. rsrsrsrsrs Abraços!

  9. Roberto Queiroz 2 junho, 2010 at 21:34 Responder

    Eu gostei muito da parte estética. Achei a fotografia encantadora, mas ficou claro que falta algo nessa produção (se bem que, cá entre nós, não sou a pessoa mais indicada para falar sobre musicais – gênero que admiro de paixão -, pois minhas opiniões sempre divergem dos demais).

    • Kamila 3 junho, 2010 at 00:03 Responder

      Roberto Queiroz, também sou muito suspeita para falar de musicais, porque AMO esse gênero, mas não dá pra ignorar as falhas de “Nine”.

  10. John Nova 3 junho, 2010 at 12:44 Responder

    6,0 Kam? Que issooo… Generosa demais…
    Um lixo de filme. Parece aqueles clipes bem ruins que passam na MTV (principalmente a cena principal da Kate Hudson).

    Mas é claro que a [minha] Marion Cotillard dá um show.

    E que desperdício de Sophia Loren e Judi Dench.

    Bjs Kam Bom Final de Semana!

  11. Mayara Bastos 3 junho, 2010 at 19:00 Responder

    Uma pena que um filme com um elenco bom tivesse um resultado tão decepcionante, mas digo isso pelos comentários, por que não vi ainda. rsrsrs. Mas concordo com relação a Marion, as melhores músicas da trilha pertencem a ela e “My Husband Makes Movies” é muito bem interpretada por ela e que voz essa mulher tem. Ela devia lançar um CD. rsrs.

    Beijos! 😉

    • Kamila 3 junho, 2010 at 20:02 Responder

      John, não é tão lixo assim! rsrsrsrsrsrs A Sophia Loren foi desperdiçada, mas com aquele botox todo será que ela conseguiria fazer alguma coisa??? Beijo e bom final de semana!

      Mayara, eu amei “My Husband Makes Movies” e também acho que ela tem uma bela voz! Beijos!

  12. Reinaldo Matheus Glioche 4 junho, 2010 at 12:12 Responder

    Permita-me explicar melhor então: Seu texto indica que Nine foi uma experiência bem regular para vc. Um filme que, na soma geral, deu errado. Discordo desse ponto de vista. No entanto, admiro a construção do seu texto. Que, como disse antes, foi ponderada e isenta. Algo que não ocorreu em muitas críticas profissionais e de muitos blogueiros que andam por aqui tb. Fiz uma deferência a sua capacidade analítica e ao fato dela ter se imposto em relação ao seu gosto pelo filme. Foi só isso.
    Enfim, um elogio.
    bjs

  13. Luis Galvão 5 junho, 2010 at 12:09 Responder

    Pelo menos você ponderou as críticas. Muitas pessoas estão simplesmente detonando o filme, que – para mim – não merecia tal trato. É verdade que Rob é um diretor falho, mas não posso negar que cada cena feita era um extase para meus olhos (talvez por eu já conhecer o musical de looongas datas e saber exatamente o que motivava os atos de Guido). Vou me conformando que serei um dos poucos que apreciaram essa obra;

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