Cisne Negro

Para muitos, a perfeição é somente uma ideia, uma condição que é uma verdadeira utopia, portanto deve ser almejada, uma vez que não existe. Sendo analisado por um ponto de vista um tanto simples, o filme “Cisne Negro”, dirigido por Darren Aronofsky, retrata uma história de uma jovem bailarina chamada Nina Sayers (Natalie Portman) em busca da perfeição. Para ela, isso talvez decorra do treinamento exaustivo, da entrega total à arte que ela escolheu, da disciplina que ela possui e da vontade de ser mesmo a melhor no seu ramo. Porém, a partir do momento em que seu diretor e coreógrafo Thomas Leroy (Vincent Cassel) acrescenta um elemento sentimental a esta equação (é dele a frase: “a perfeição não é somente uma questão de controle. É também uma questão de se deixar levar. Surpreenda a você mesma de forma a surpreender a audiência. Transcendência! Poucos têm isso dentro de si.”), “Cisne Negro” deixa de ser um filme sobre balé e passa a ser um suspense psicológico sobre a desintegração emocional de sua personagem principal – a partir do instante, é bom frisar, que ela decide se deixar levar em busca daquela perfeição inatingível.

Neste sentido, é muito importante prestar atenção à forma como o roteiro escrito por Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin compõe a personagem de Nina. Super protegida pela mãe (Barbara Hershey), frágil e um tanto delicada (em certas cenas, ela parece uma criança pequena louca pelo colo de sua mãe), dá para se perceber que Nina foi criada para concretizar o que sua mãe nunca conseguiu na sua própria carreira como bailarina e, em consequência disso, ela deixou que a vida dela fosse toda consumida pelo balé. Entretanto, na medida em que “Cisne Negro” vai se aprofundando, as máscaras vão caindo e Nina revela-se um poço de nenhuma perfeição, pelo contrário, uma jovem um tanto problemática, com questões emocionais sérias a serem tratadas.

Em sua essência, “Cisne Negro” é um filme sobre o processo de criação. Ele se passa dentro de uma companhia de dança, mas bem que poderia acontecer num grupo de teatro, num set de filmagens, num estúdio de gravação, na sala em que um escritor trabalha, no ateliê de um pintor, etc. O filme lida com questões primordiais da profissão artística, como o fato da carreira deles ser um tanto curta, o medo da substituição por alguém que seja mais novo (ou melhor) que eles, o temor de não corresponder às expectativas daqueles que eles devem agradar e, principalmente, o receio de falhar. Em uma situação de extrema pressão (Nina acaba de ser escolhida a substituta da bailarina principal de sua companhia e vai estrelar a nova versão de “O Lago dos Cisnes” tendo sempre a concorrência de bailarinas do coro, de bailarinas mais bonitas ou mais sexies que ela – Mila Kunis está aqui para exercer este papel com afinco), em que tem que entrar em contato com seus sentimentos mais íntimos (até mesmo aqueles que ela não deseja enfrentar), quem não tem uma estrutura emocional forte (já demos provas aqui de que Nina não é essa pessoa) sucumbe rapidamente a qualquer tipo de pensamento ruim.

Por ser um filme de mergulho emocional dentro da mente doentia de um personagem, aqui o trabalho mais importante acabou sendo o da atriz Natalie Portman. Impressiona, na gente, a entrega total dela ao personagem de Nina Sayers, à dupla personalidade, aos dois Cisnes. A própria atriz praticou balé dos 4 aos 13 anos de idade, então tinha certa familiaridade com os movimentos de dança. Mas, neste filme, até mesmo na sensacional sequência de encenação de “O Lago dos Cisnes”, todas as danças, incluindo as mais complexas, são executadas por Natalie. O abuso dos closes feitos por Aronofsky em seu rosto também são muito eficientes no sentido de nos mostrar todo o processo de destruição emocional e doentio pela qual Nina passa.

Um outro elemento de extrema competência em “Cisne Negro” é a direção de Darren Aronofsky. Quando falamos aqui de “A Origem”, comentamos sobre o fato de Christopher Nolan fazer um filme quase que orquestrado. A mesma sensação temos diante do trabalho de Aronofsky neste longa. Se Nolan fez um uso muito feliz dos elementos visuais, aqui Aronofsky não só usa seus elementos visuais, como os complementa com um excelente uso da trilha sonora composta por Clint Mansell (seu habitual parceiro) e, claro, das músicas de Tchaikovsky para “O Lago dos Cisnes”. Em “Cisne Negro”, as câmeras dançam (literalmente) em tela, focalizando Natalie Portman por todos os ângulos possíveis, utilizando os espelhos presentes nos objetos de cena, fazendo uma edição cuidadosa e crescendo a música – tudo para potencializar o processo de perturbação pelo qual seremos levados.

Para voltar à frase de Thomas Leroy que citamos no início de nosso texto, não só Nina, como a própria Natalie, o próprio Darren, todos os envolvidos nesse filme (até mesmo nós da plateia) somos convidados a nos deixar levar. O filme nos surpreende e nos deixa sem estrutura. A gente mergulha junto da viagem de Nina. Por transcender qualquer tipo de limite, acaba sendo uma obra muito bem construída e totalmente merecedora de suas cinco indicações ao Oscar. E só ficamos com uma constatação:  a perfeição deixou de ser uma utopia. Ela foi alcançada. Todos nós sentimos.

Cotação: 10,0

Cisne Negro (Black Swan, 2010)
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz e John J. McLaughlin (com base na história de Andres Heinz)
Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Winona Ryder, Benjamin Millepied

35 comments

  1. Cristiano Contreiras 22 fevereiro, 2011 at 03:10 Responder

    Muito bom seu texto.

    Não chamaria o ‘processo’ de Nina de desintegração. Vejo mais como uma metamorfose mesmo, visto que há um sentido todo psicológico e até simbólico no filme. É interessante como sentimos TUDO que Nina vivencia dentro de si, seu processo de encontro a sua sombra (lado negro), este que precisa de sensualidade e até malícia, coisa que ela não possui, é algo assombroso!

    Sinceramente, ainda estou sem palavras pra esse filme! Achei um trabalho grandioso, desde já meu favorito do Oscar. O filme é todo perfeito em suas esferas técnicas e, principalmente, interpretativa. Tão cheio de nuances, realmente me deixou boquiaberto.

    Natalie Portman é deusa aqui, expressa uma interpretação única. A maneira como sua personagem se desnuda, aos nossos olhos, é algo revelador…e a mão cuidadosa de Aronofsky ajuda, ao colocar a personagem aos nossos olhos e sentidos, com todas suas fragilidades e anseios, é assombroso.

    O filme pulsa, é todo psicológico. Me arrepiei bastante. A cena em que Nina explode, visualmente e metaforicamente, seu “Cisne Negro” desde já é um momento clássico do cinema moderno.

    Belo filme mesmo!
    Vou ruminá-lo mais um pouco, depois escrevo (tento) algo…

    Beijo

    • Kamila 22 fevereiro, 2011 at 04:44 Responder

      Pedro, assista logo! 🙂

      Cristiano, obrigada! Metamorfose é uma boa forma de definir a transformação de Nina no filme e eu concordo contigo que a gente entra no turbilhão de emoções que ela passa a sentir. É um trabalho grandioso, sim, e que é meu favorito ao Oscar, até agora. Fiquei de queixo caído quando terminou. Concordo sobre a performance da Natalie Portman e com seus comentários sobre o filme. Espero que você escreva mesmo algo sobre ele. Merece! Beijo!

  2. cleber eldridge 22 fevereiro, 2011 at 13:14 Responder

    Belissimo texto, e é bem por ai, é um filme que toca, que faz quem o está assistindo delirar, se assustar, se apaixonar – é uma obra-prima, o melhor filme de Aronofsky e sem duvida a melhor performace de Portman!

    • Kamila 23 fevereiro, 2011 at 02:14 Responder

      Rafael, concordo!

      Flávio, não acho que a Winona Ryder seja um ponto fraco no filme… Mas, concordo que ela só interpreta papeis de loucas varridas… E foi um pouco caricata, sim.

      Cleber, obrigada!!! 🙂

  3. IvanN 22 fevereiro, 2011 at 13:45 Responder

    Eu tb queria ver a Winona Ryder. em um papel bom.

    O filme realmente é ótimo, li muitas críticas negativas aqui no Brasil, do mesmo tipo de pessoas que não gostaram de ‘A Origem’, vai entender… Mas a Natalie está ótima em um papel que parece ser desgastante de compor.. e o diretor dispensa comentários!

    Parabéns pelo texto!

    • Kamila 23 fevereiro, 2011 at 02:16 Responder

      Ivan, não acredito que você leu críticas negativas sobre este filme. Obrigada!

      Reinaldo, it was perfect indeed… Beijos!

      Otavio, poxa, muito obrigada! Fiquei feliz com esse comentário! Vindo de você é uma honra. Beijos! Obrigada!!! 🙂

  4. Mayara Bastos 22 fevereiro, 2011 at 20:57 Responder

    10! Que lindo! *-*

    O filme é incrível, ele mexe com os sentidos, deixa sem fôlego. A sutileza da cena introdutória, mostrando o sonho que Nina quer tanto realizar, causando essa busca da perfeição e que estrapola em seus limites, muito bem trabalhado. Merecia mais que as cinco indicações. È uma obra de arte! rsrs.

    Beijos! 😉

    • Kamila 23 fevereiro, 2011 at 02:17 Responder

      Paulo, está cedo ainda para dizer se é o melhor filme do ano! 😉 Beijos!

      Amanda, obrigada mesmo! Eu também ainda estou me deixando levar por essa obra.

      Mayara, :). Seu comentário está perfeito e concordo plenamente com ele. Beijos!

  5. Wallace 22 fevereiro, 2011 at 21:53 Responder

    Bom texto, Kamila. Também faço parte do grupo dos apaixonados por Cisne Negro, acho um filme perturbador e comovente, uma experiência dramática poderosa, conduzida pelo Aronofsky num ritmo alucinante, que nos deixa mesmo, como você disse, “sem estrutura”. Talvez seja o melhor dentre os indicados ao Oscar, apesar de também gostar muito de Toy Story 3, Bravura Indômita, A Origem e A Rede Social (ainda não vi O Vencedor e Inverno da Alma). Pena que não tem a menor chance de sair da premiação com as estatuetas de filme e direção. Só espero que o Oscar de Portman esteja mesmo garantido…

  6. matheusfragata 23 fevereiro, 2011 at 00:10 Responder

    Parece que todas as críticas que li a decisão é unânime: perfeito!
    Kamila, espero que você também leia a crítica que fiz de “Cisne Negro” (fiz com a intenção de ser a melhor de todas que escrevi, mas pelo jeito já a superei hehe).
    Também vou linkar seu blog ao meu, espero que não fique incomodada com isso…
    bjs

    • Kamila 23 fevereiro, 2011 at 02:20 Responder

      Wallace, obrigada! Ainda não assisti a todos os indicados ao Oscar 2011, mas esse filme aí é meu favorito, até agora. E eu espero também que o Oscar de Portman esteja totalmente garantido.

      Rogerio, obrigada!

      Matheus, o filme parece ser uma unanimidade mesmo. Lerei sua crítica, sim, pode deixar. E não me incomodo com o link. Pelo contrário: te agradeço por isso! Beijos!

  7. Cláudio 24 fevereiro, 2011 at 03:12 Responder

    Falando em Oscar, assisti aos 10 filmes indicados ao prêmio. Eu decidiria assim:

    1 – O Discurso do Rei
    2 – Cisne Negro
    3 – A Rede Social
    4 – 127 Horas
    5 – Toy Story 3
    6 – A Origem
    7 – Bravura Indômita
    8 – Inverno da Alma
    9 – Minhas Mães e Meu Pai
    10 – O Vencedor.

    Abçs

    • Kamila 24 fevereiro, 2011 at 22:25 Responder

      Cláudio, concordo. O filme explode mesmo diante da gente. A Natalie está sensacional! Pena que ainda não consegui conferir aos 10 indicados ao Oscar de Melhor Filme! Abraços!!

  8. Dewonny 25 fevereiro, 2011 at 16:59 Responder

    Muito bom trabalho do Aronofsky, gostei bastante, mas o filme cresce de fato na segunda metade levando para um desfecho brilhante e perfeito!
    A Natalie já tem q chegar no tapete vermelho com o oscar na mão..hehe..
    Abs! Diego!

  9. Os Melhores Filmes de 2011 « Cinéfila por Natureza 28 dezembro, 2011 at 01:57 Responder

    […] O filme nos surpreende e nos deixa sem estrutura. A gente mergulha junto da viagem de Nina. Por transcender qualquer tipo de limite, acaba sendo uma obra muito bem construída e totalmente merecedora de suas cinco indicações ao Oscar 2011. E só ficamos com uma constatação:  a perfeição deixou de ser uma utopia. Ela foi alcançada. Todos nós sentimos. (Crítica publicada em 22 de fevereiro de 2011) […]

  10. Melhores do Ano (2011): Filme | O BRADO RETUMBANTE! 15 janeiro, 2012 at 15:42 Responder

    […] ” […] Não só Nina, como a própria Natalie, o próprio Darren, todos os envolvidos nesse filme (até mesmo nós da plateia) somos convidados a nos deixar levar. O filme nos surpreende e nos deixa sem estrutura. A gente mergulha junto da viagem de Nina. Por transcender qualquer tipo de limite, acaba sendo uma obra muito bem construída e totalmente merecedora de suas cinco indicações ao Oscar. E só ficamos com uma constatação:  a perfeição deixou de ser uma utopia. Ela foi alcançada. Todos nós sentimos.” Kamila Azevedo, CINÉFILA POR NATUREZA. […]

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