Carlos

Minissérie dividida em três capítulos, “Carlos”, do diretor Olivier Assayas, teve uma trajetória bem interessante, uma vez que, antes de encontrar espaço para distribuição na televisão norte-americana, a obra foi veiculada em alguns dos festivais de cinema mais importantes da indústria, como o de Cannes, por exemplo, sendo indicado ou vencendo premiações prestigiadas como o European Film Awards, o London Critics Circle Film Awards, o Los Angeles Film Critics Association Awards, a National Society of Film Critics Awards, o Golden Globe Awards e o New York Film Critics Circle Awards.

O programa conta a história de Ilich Ramírez Sánchez, o popular “Carlos, o Chacal”, terrorista e assassino que atuou nas décadas de 70 e 80, especialmente no continente europeu, local onde trabalhou em prol das causas comunistas, árabes e islâmicas. Neste sentido, o roteiro escrito por Olivier Assayas, Dan Franck e Daniel Leconte tem uma estrutura um tanto convencional, uma vez que contextualiza a entrada de Carlos na vida terrorista, na medida em que o vemos se envolvendo em diversas ações, como assassinatos de políticos, policiais e funcionários de embaixadas; explosões e invasões de prédios e locais públicos; culminando naquele que foi o trabalho que mais lhe deu notoriedade: o ataque à sede da Organização dos Países Exploradores de Petróleo (OPEP), em 1975, em Viena (Áustria).

Apesar de termos inúmeros personagens relacionados à Carlos, nenhum será tão importante para a minissérie quanto o próprio protagonista. Os três capítulos do programa nos mostram que Ilich Ramírez Sánchez tinha uma reputação tão grande que a mesma o precedia. Além de ser um militante muito vibrador, ele se dedicou à causa palestina de corpo e alma, com toda a frieza, coragem e intolerância à traição que este dever exige. Talvez, por isso mesmo, a ironia do destino dele, antes de ele ser preso pelas autoridades francesas, em 1994: apesar do seu histórico de ações a favor de muitos líderes políticos árabes, após a queda do comunismo na Europa e a necessidade dos países terem um bom relacionamento com os Estados Unidos, Carlos virou uma espécie de “persona non grata” e renegada pelos regimes que ele tanto ajudou, vivendo uma existência de isolamento – como se ele fosse um fantasma – que muito o atingiu emocionalmente.

Talvez, por isso mesmo, o elemento mais importante de “Carlos” acaba sendo a atuação do venezuelano Édgar Ramírez. O ator está presente em todas as cenas da minissérie e a sua entrega emocional ao personagem foi tão grande que Ramírez se sujeitou a uma transformação física notável para ficar ainda mais parecido com Carlos. Chama a atenção também na minissérie indicada a 2 Primetime Emmy Awards 2011 a impecável reconstituição de época e a trilha sonora maravilhosa. Com certeza, um programa que cumpre o seu papel de apresentar a história do destino de um homem, ao mesmo tempo em que faz a análise de um momento histórico cujas ressonâncias ainda podem ser encontradas nos dias de hoje, tendo em vista a própria indefinição da situação palestina e das ações cada vez mais constantes de terror ao redor do mundo.

Cotação: 8,5

Carlos (Carlos, 2010)
Direção: Olivier Assayas
Roteiro: Olivier Assayas, Dan Franck e Daniel Leconte
Elenco: Édgar Ramírez, Alexander Scheer, Alejandro Arroyo, Fadi Abi Samra, Ahmad Kaboour, Talal El-Jordi, Juana Acosta, Nora von Waldstatten, Christoph Bach, Rodney El Haddad

14 comments

  1. Reinaldo Matheus Glioche 16 setembro, 2011 at 00:52 Responder

    Queria ter visto na HBO, mas não consegui. Sua avaliação faz coro a todas as críticas que li a respeito dessa minissérie do Assayas.
    Eu, particularmente, achei muito interessante o debate que “Carlos” instaurou no fetsival de Cannes a respeito da legitimidade da produção em um festival de cinema.
    Bjs

  2. Mateus Selle Denardin 16 setembro, 2011 at 02:52 Responder

    Também adorei. Claro, Ramírez merece todos elogios possíveis (ficava impressionado toda vez que ele começava a falar uma nova língua, ou aparecia fisicamente diferente, ou nas constantes sutilezas corporais — que atuação!). Mas, como os créditos informam, não se deve ver a minissérie como veracidade histórica, uma vez que faz várias concessões e adições apenas por fins dramáticos. O que, no entanto, pouco muda os fatos: que é bem escrita, bem dirigida, bem montada e, claro, muito empolgante.
    [8/10]

  3. Paulo Ricardo 16 setembro, 2011 at 05:27 Responder

    Lembro da indicação dessa minissérie no último Globo de Ouro(não tenho certeza,acho que ganhou).Não vai demorar muito para o venezuelano Edgar Ramírez participar de vários filmes hollywoodianos,fazendo cia aos talentosos parceiros latinos Diego Luna,Rodrigo Santoro e Gael Garcia Bernal.Há proposito de projetos feitos para TV estou com o DVD “Você Não conhece Jack” com Al Pacino.Eu não vi na tv e vou ter a chance agora,você já viu Kamila? beijos.

    • Kamila 16 setembro, 2011 at 22:37 Responder

      Mateus, perfeito comentário! Assino embaixo.

      Cristiano, obrigada! Beijo!

      Paulo, ganhou, sim. Também acho que não demorará para a carreira do Edgar Ramírez deslanchar em Hollywood. Já vi esse telefilme que você citou. Inclusive, tem crítica dele por aqui! 🙂 Beijos!

    • Kamila 16 setembro, 2011 at 22:41 Responder

      Pedro, obrigada!! Imagino que deve ter sido uma experiência legal ver essa obra de uma tacada só! 🙂 Abraço! E sim, você poderá assinar o RSS do blog no link que se encontra na parte direita do site, abaixo do logo da SBBC. 🙂

      Cleber, tente assistir sim!

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