Lincoln

É difícil crer que num país tão avançado quanto os Estados Unidos houve um tipo de conflito como a Guerra Civil Americana. Uma batalha interna, que durou quatro anos (de 1861 a 1865), causou a morte de quase 1 milhão de norte-americanos e que foi originada por uma grande divisão dentro do próprio país. De um lado, onze Estados da região Sul que criaram um novo país (os Estados Confederados da América), cuja atividade econômica era predominantemente agrícola e, desta maneira, favorável à escravidão. Do outro lado, os Estados do Norte, cuja atividade econômica era industrial e, portanto, não dependente da mão de obra escrava.

Com a dura tarefa de liderar um país dividido, em crise e em conflito, neste momento histórico, estava justamente a figura de Abraham Lincoln, o 16º presidente dos Estados Unidos. A cinebiografia “Lincoln”, dirigida por Steven Spielberg, faz o registro de um dos momentos mais importantes do primeiro mandato dele como presidente: quando Abraham Lincoln, antes de tomar posse como presidente reeleito, se dedicou às negociações que levaram à aprovação da 13ª emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, que aboliu a escravidão do país – em complemento à Proclamação da Emancipação, que havia extinguido a escravidão nos Estados do Norte ainda durante a Guerra Civil.

Um dos elementos mais importantes em “Lincoln” é o fato de que a obra tem um caráter bastante documental. Talvez, por isso mesmo, o filme passe a sensação de ser um tanto anticlimático (até mesmo no seu momento de maior clímax: a votação da 13ª emenda pela Câmara dos Representantes), resultado de uma direção sóbria de Steven Spielberg. Na forma como foi estruturado pelo excelente roteiro escrito por Tony Kushner, o longa se propõe a fazer uma crônica política sobre um momento bastante delicado vivido por um governante que tinha um país em guerra, procurava uma solução para sair disso (Lincoln acompanhava, passo a passo, os avanços de sua tropa; se dedicava pessoalmente à negociação de acordos de paz entre os dois lados do conflito; bem como foi bastante participativo nas negociações políticas com os representantes dos partidos republicano e democrata visando a aprovação da 13ª emenda), mas esbarrava nos meandros da máquina política e, principalmente, nos desejos da sempre famigerada opinião pública.

Imagine estar na pele desse homem, com todas essas responsabilidades e ainda se vendo no papel de marido de uma esposa de personalidade bastante forte (Mary Todd Lincoln, interpretada por Sally Field, indicada ao Oscar 2013 de Melhor Atriz Coadjuvante) e de pai de quatro filhos (um deles desencarnou durante o primeiro mandato de Lincoln como presidente). Talvez, isso explique a maneira como Daniel Day-Lewis (em atuação indicada – e favoritíssima – ao Oscar 2013 de Melhor Ator) compôs a personagem título deste filme. Sua atuação é bastante contida, dando à Lincoln ombros curvados como se ele carregasse um grande peso em suas costas (o que, de fato, ocorria), com uma fala mansa e um jeito, aparentemente, inabalável. Características que são, aliás, bem fiéis à forma bem-sucedida e admirável com que o estadista Abraham Lincoln conduziu as ações de seu governo. Ele tinha um pensamento à frente do seu tempo, escutava seus auxiliares, porém a decisão final era sua. De todas as maneiras, ele tinha uma postura bem apropriada ao momento difícil que o país passava.

Com doze indicações, “Lincoln” é o filme que obteve o maior número de indicações ao Oscar 2013. Porém, passa longe de ser o favorito ao prêmio máximo do cinema, devido ao retrospecto positivo conquistado por “Argo” nos shows de premiações recentes, como o Critics Choice, o Golden Globe e o SAG Awards. Entretanto, é inegável a força que “Lincoln” possui, não só na sua narrativa, como também em sua parte técnica. O longa tem aquele quê tradicional, da linguagem cinematográfica clássica, que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas adora reconhecer. A fotografia de Janusz Kaminski rende algumas das mais lindas tomadas de 2012 e o elenco está quase todo irrepreensível. Além disso, esse é um filme que evoca alguns dos valores mais arraigados da sociedade norte-americana, especialmente os de glória e liberdade. Definitivamente, Abraham Lincoln é um exemplo de estadista e isso está muito bem captado pela cinebiografia de Steven Spielberg.

Indicações ao Oscar 2013
Melhor Fotografia - Janusz Kaminski
Melhor Figurino - Joanna Johnston
Melhor Diretor - Steven Spielberg
Melhor Edição - Michael Kahn
Melhor Trilha Sonora Original - John Williams
Melhor Direção de Arte - Rick Carter e Jim Erickson
Melhor Mixagem de Som
Melhor Filme
Melhor Ator - Daniel Day-Lewis
Melhor Ator Coadjuvante - Tommy Lee Jones
Melhor Atriz Coadjuvante - Sally Field
Melhor Roteiro Adaptado - Tony Kushner

14 comments

  1. Pablo 31 janeiro, 2013 at 23:00 Responder

    Assistir o filme hj e achei bem legal, como não vi Argo não posso dizer qual dos dois é melhor, mas para mim o melhor filme do ano passado foi As Vantagens de ser Invisivel.
    Daniel Day Lewis é barbada no oscar, pq ta parecendo que Lincoln incarnou nele durante o trabalho, Sally Field tb está muito boa no papel da esposa Mary e Steven Spielberg dirigindo o filme da um show na direção.
    Lincoln pelo o que fez e pela pessoa que foi é até hj adorado pelos americanos, mas durante o filme eu fiquei pensando, nos Estados Unidos os grandes nomes da história sempre tiveram um fim triste, como Lincoln, Martin Luther King, John Kennedy, Malcolm X etc.

  2. Matheus Pannebecker 1 fevereiro, 2013 at 00:28 Responder

    O filme poderia ser chato, o que não acontece. Mas por ser tão longo e convencional, acabou não me fisgando. O que mais me chamou atenção em “Lincoln” foi, claro, o elenco. Todos estão muito bem em cena. No entanto, se merecem levar prêmios nessa temporada… Bem, aí é uma história completamente diferente. Ontem, por exemplo, assisti a “O Mestre” e Joaquin Phoenix tem a minha total torcida. Longe de mim subestimar Day-Lewis (que é um grande ator e interpreta Lincoln com sua habitual competência), mas fico me perguntando se essa enxurrada de prêmios era mesmo necessária e se esses votos que ele recebe não são um tanto… preguiçosos.

  3. Brenno Bezerra 1 fevereiro, 2013 at 14:21 Responder

    Acho que trata-se de um filme que poderia ser mais bem trabalhado. Enxerguei ali a construção (por parte de Spielberg) de personagens desinteressantes em meio a um grande capítulo da história americana. O destaque, claro, é o elenco, mas confesso que não fiquei tão entusiasmado com Daniel Day Lewis. Que ele está ótimo ninguém pode negar, mas eu esperava mais. Não garanto torcer por ele no Oscar, visto que ainda não vi os demais 4 indicados.

    Beijos

    • Kamila Azevedo 2 fevereiro, 2013 at 13:07 Responder

      Pablo, ainda não assisti “As Vantagens de ser Invisível”, mas, no comparativo com “Argo” e com outros filmes dessa temporada de premiações, como “O Impossível”, acho que “Lincoln” perde por causa da frieza do retrato da história.

      Matheus, realmente, o filme não é chato. O elenco é um dos destaques do filme, mas, pra mim, a melhor atuação foi do Tommy Lee Jones. Preciso assistir a “O Mestre” urgentemente!!!

      Brenno, não sei se poderia ser mais bem trabalhado. Melhor do que já foi trabalhado. Não achei os personagens desinteressantes. Pelo contrário: trata-se de um dos momentos fundamentais da história norte-americana. Também não fiquei muito entusiasmada com a atuação do Daniel Day-Lewis. Achei-o “normal”. Porém, esperava bem mais, tendo em vista o favoritismo absoluto dele nessa atual temporada de premiações. Beijos!

  4. Amanda Aouad 1 fevereiro, 2013 at 18:02 Responder

    Daniel Day-Lewis é o ponto alto do filme, está incrível em sua transformação, assim como Tommy Lee Jones está ótimo, mas Sally Field achei apenas ok.

    Lincoln tem uma importância histórica e social, inegável. E o filme consegue nos apresentar bem esse homem admirável e seus ideais. Mas, de fato, é longo em excesso. Poderia ser mais objetivo.

    • Kamila Azevedo 2 fevereiro, 2013 at 13:09 Responder

      Amanda, não só ele, como todo o elenco está muito bem no filme, na minha opinião. E todo mundo concorda em relação ao excesso de duração do filme.

  5. Elton Telles 3 fevereiro, 2013 at 16:08 Responder

    Wow, bem positiva sua avaliação.
    Eu não desgostei de “Lincoln”, mas esperava um projeto mais, digamos, do personagem-título.
    Como comento em minha crítica, o filme deveria se chamar “A 13a Emenda”, pois pouco de Lincoln é explorado e tal, e isso porque o filme leva o nome do ex-presidente.
    Tem momentos bem bacanas, outros marcantes, mas no total, foi uma decepção em quase todos os sentidos, exceto o formidável elenco.

    • Kamila Azevedo 3 fevereiro, 2013 at 18:12 Responder

      Elton, o filme é mais sobre a 13ª emenda, mas é também sobre o legado político que um estadista do porte de Abraham Lincoln deixou para o seu país. Neste sentido, acho que o longa se configura como uma cinebiografia de Lincoln. O que me decepcionou no filme foi somente o retrato anticlimático e frio da história. Isso não é digno de Spielberg.

  6. bruno knott 5 fevereiro, 2013 at 00:16 Responder

    assim como o Matheus não achei o filme chato, mas não me conectei com ele…
    tb achei o filme um tanto frio. me impressiona quando falam que o spielberg apela para um final emotivo… sinceramente, não vi isso.

    • Kamila Azevedo 5 fevereiro, 2013 at 01:48 Responder

      Bruno, também não achei o filme chato, mas achei o relato da história muito frio e anticlimático. Eu também não acho que o Spielberg apelou para um final emotivo.

  7. Clóvis Tayllon 21 fevereiro, 2013 at 16:41 Responder

    Também achei o filme bastante frio. A mim, pareceu que houve uma divergência de roteiro e direção aqui. O texto de Tony Kushner retrata bem esse momento tão importante, mas a direção do Spielberg é fria e impessoal demais. Nem mesmo os momentos mais dramáticos, quando ele discute com a esposa sobre a morte do filho, me passou um pingo de emoção. O elenco é ótimo, com destaque para o Tommy Lee Jones que me surpreendeu positivamente. Só não acho essa saraivada de prêmio ao Daniel Day-Lewis tão justa assim. Ele está incrível sim, mas Hugh Jackman está tão bem quanto ele e o Joaquin Phoenix está soberbo em “O Mestre”. Sally Field está boa, embora ela tendesse ao overacting em certos momentos. No mais, achei a cena final completamente desnecessária. Deveria ter terminado com a saída do Lincoln para o teatro.

    Nota: 8,5

    Abs.

    • Kamila Azevedo 21 fevereiro, 2013 at 18:45 Responder

      Clóvis, pode ser que tenha havido uma divergência de roteiro e direção. O roteiro de Tony Kushner é sensacional. A direção do Spielberg que foi estranha. O Tommy Lee Jones foi o melhor do elenco, na minha opinião. O Daniel Day-Lewis, pra mim, está um tanto burocrático. Por enquanto, em Melhor Ator, o Hugh Jackman é meu favorito. A Sally Field está do jeito dela. Eu gostei, particularmente. Concordo também que o filme deveria ter terminado com a saída do Lincoln para o teatro.

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