Amor

Na sua concepção literal, amor é a grande afeição que uma pessoa sente por outra. Porém, se fôssemos estudar o que significa esse conceito, chegaríamos à conclusão de que o amor não tem uma definição clara e certa. É um sentimento completamente abstrato. O amor não se mede e, muito menos, tem explicação. Ele está ali para ser sentido e vivido. E é justamente esse sentimento que permeia os 125 minutos de duração de “Amor”, co-produção austríaca e francesa dirigida e escrita por Michael Haneke.

A história enfoca o relacionamento entre Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva). Ambos estão na faixa dos 80 anos. Ambos estão lidando com um outro tipo de sentimento: o do ocaso. Não do amor. Mas, sim, da vida em si. Isso está mais latente ainda quando, após uma complicação de uma cirurgia para desobstrução de uma artéria, algo completamente simples, Anne entra na estatística contrária, a dos 5% que têm uma complicação. Com o lado direito do corpo paralisado, ela fica totalmente dependente dos cuidados do marido.

Um elemento fundamental a se prestar atenção no decorer de “Amor” é acompanhar o trabalho de direção feito por Michael Haneke. A sua câmera se dedica ao relato completo do cotidiano deste casal. São cenas longas, quase sempre com a câmera num único movimento, sem muitas variações de ângulos, com o objetivo de nos mostrar que o amor ali, ou a “obrigação” colateral do amor (cuidar de seu parceiro na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, todos os dias de sua vida) se tornou um peso. Para os dois. Ambos se tornam prisioneiros do apartamento onde vivem. Ambos pouco conversam sobre a situação precária de saúde de Anne. O dia a dia deles se resume a esperar o dia em que a situação vai se tornar tão insustentável que o fim será natural.

É isso que faz de “Amor” um filme dilacerador, pois todos sonhamos em encontrar um amor com quem poderemos envelhecer juntos, mas a gente não pensa muito no fato de que envelhecer é difícil, para todo mundo. E ver quem a gente ama, ainda mais se for uma pessoa ativa e inteligente como Anne, sofrendo e se perdendo pouco a pouco dia após dia é muito complicado. Em consequência disso, “Amor” é um filme que dispensa julgamentos, até porque o sentimento que dá nome ao filme e os atos que ele nos concita a fazer também nunca suscitam o julgamento, visto que nunca que serão compreendidos.

Indicado a cinco Oscars 2013, “Amor” se torna um filme emocionante e poético não só por causa da força das imagens filmadas por Michael Haneke (a cena em que o pombo fica vagando pelo apartamento é uma das mais bonitas do ano, até agora), como também por causa de um final aberto, entregue à interpretação do público; mas, principalmente, por causa das atuações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (a melhor dentre as indicadas ao Oscar 2013 de Melhor Atriz), duas lendas do cinema francês que, neste longa, entregam performances viscerais que nos relembram cena após cena das alegrias e das dores de se entregar ao amor, a um relacionamento duradouro, com alguém que a gente não imagina viver sem.

Indicações ao Oscar 2013
Melhor Diretor -
Michael Haneke
Melhor Filme Estrangeiro
Melhor Filme
Melhor Atriz -
Emmanuelle Riva
Melhor Roteiro Original - Michael Haneke

15 comments

  1. Pablo 20 fevereiro, 2013 at 00:44 Responder

    Um dos filmes mais belos que vi nos últimos anos e a maior prova de amor que vi em um filme desde Diário de uma Paixão, sem querer comparar um com o outro, mas os dois são belíssimos e exploram o amor de formas diferentes.
    Esse filme Amor além de uma história muito bem feita e escrita, ainda contou com duas atuações espetaculares do casal Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant, um injustiça não ter sido indicado para melhor ator.
    Dos 9 filmes indicados a melhor filme, para mim Amor só fica atrás de O Lado Bom da Vida e As aventuras de Pi. Seria muito bom se Emmanuelle Riva conseguisse levar a estatueta de Melhor Atriz, pois ela interpretou Anne de uma forma tão espetacular que parecei que ela estava sendo ela mesma.
    Já que ele não vai levar melhor filme, pelo menos o de Melhor filme estrangeiro ele vai consegui, pois Intócaveis, o maior concorrente dele segundo a critica, merecidamente não foi indicado.
    Todos deveriam ver esse filme para aprender o que é amor e como a velhice as vezes pode ser muito dura.
    Para terminar, desde Longe Dela não tinha um filme que explorava o tema da terceira idade tão bem feito quanto esse.

    • Kamila Azevedo 20 fevereiro, 2013 at 00:48 Responder

      Pablo, sem dúvida, é um belíssimo filme! Dos 9 filmes indicados ao Oscar 2013, só não assisti “Indomável Sonhadora” e “Amor” é meu favorito, até agora. Torço pela Emmanuelle Riva e acho que tem boas chances de ela vencer. Se isso se confirmar, vou ficar felicíssima! Vou ficar feliz com todas as vitórias que “Amor” conquistar. Isso será muito merecido. O filme merece o reconhecimento. Bem lembrado sobre “Longe Dela”. Enquanto assistia “Amor”, pensei muito nesse filme da Sarah Polley.

      • Pablo 20 fevereiro, 2013 at 02:55 Responder

        Kamila, assisti Indomável Sonhadora ontem e ate agora não consegui entender como esse filme ficou entre os 9 finalista e As vantagens de ser invisível não.
        Só vc assistindo para ter uma noção do filme, pq dos 7 que eu vi até agora, ele foi o pior.

  2. CasarotoRafa 20 fevereiro, 2013 at 00:53 Responder

    Vou te dizer que eu estava aguardando ansiosamente por essa critica sua viu, Kamila.
    Porque outros blog que fui, não consegui uma opinião que descrevesse exatamente o que eu senti vendo este filme. E eu concordo com o que você escreveu.

    Estes dias você postou a cena da semana, e teve gente que não entendeu a cena do pombo.
    Acho muito simples entender a cena. O pombo, significa: amor, paz, esperança e sobretudo, uma felicidade recuperada.
    Quando Georges tenta pegar o pombo, está claro, que são essas as coisas que ele mais deseja naquele momento. E quando ele pega o pombo, ele poe a ave em seu colo, como se estivesse segurando um bebê. A cena é muito bonita mesmo. (Pelo menos foi assim que eu interpretei).

    Dos filmes que concorre ao Oscar este ano, esse é o meu favorito, e ontem eu assisti “O Lado Bom da Vida” (único que faltava).
    Jennifer Lawrence consegue contracenar muito bem com o monstro que é o Robert DeNiro, está muito boa mesmo! Eu gosto muito dela, e fico feliz se ela levar, mas eu queria mesmo que a Emmanuelle Riva ganhasse, ela me emocionou bastante.

    • Kamila Azevedo 20 fevereiro, 2013 at 01:27 Responder

      Rafael, obrigada! Sua interpretação da cena do pombo é muito boa. Concordo em partes com ela. Mas, acho que ela representa outra coisa: o estado de espírito e de saúde do Georges naquele momento. Gosto muito da atuação da Jennifer Lawrence e, pra mim, ela é a favorita a vencer, mas eu torço pela Emmanuelle Riva.

      Yuri, tanto a Riva quanto o Trintignant estão sensacionais. E ele também merecia uma indicação.

      • vianapatricio 20 fevereiro, 2013 at 01:44 Responder

        Minha interpretação da cena do pombo é um pouquinho diferente.
        Eu achei que Georges estava simulado o ato do sufocamento, quando ele prende o pombo, e depois diz que soltou. Eu entendi que ele estava simbolizando que as vezes é preciso prender para poder soltar, visto que o pombo estava preso em sua casa. No caso real, ele prende o ar de sua mulher, que está presa naquela casa, tendo em vista libertá-la.
        Pode ser viagem minha, mas foi assim que interpretei, mas na verdade o bom desses tipos de cena é justo isso, cada um faz a cena da forma que compreende.

        • Kamila Azevedo 20 fevereiro, 2013 at 11:29 Responder

          , uma boa interpretação! 🙂 O fato de somente uma cena suscita toda essa gama de interpretações já mostra a riqueza da obra escrita e dirigida pelo Michael Haneke.

  3. vianapatricio 20 fevereiro, 2013 at 01:38 Responder

    Mô, eu vi que você adorou esse filme, não pelo score dado, nem pelo texto, mas por sua expressão e emoção que percebi quando víamos esse filme. E concordo com você em tudo que disse, seu texto está perfeito!
    É um filme que traduz uma das faces do amor de forma simples e autêntica, assim como é esse sentido, digo sentido, pois o amor é mais que um sentimento, é um sentido para a vida, e é nesse caminho que o filme é abordado, o sentido de viver no companheirismo, no sofrimento e na dor. É possível sentir parte do sofrimento, é possível compreender cada ato de amor, até mesmo o ato de tirar a vida.

  4. Amanda Aouad 20 fevereiro, 2013 at 03:21 Responder

    Realmente, todos sonhamos com um amor para envelhecer juntos, e quando vem algo assim é como tirar nosso chão.

    Amor é um filme muito bem feito e doloroso também. E sem dúvidas, a cena do pombo que você destacou é a mais belas e representativas.

    Ótimo texto.

    • Kamila Azevedo 20 fevereiro, 2013 at 11:32 Responder

      , sim, você sabe o quanto eu adorei o filme. Concordo contigo que esse é um filme em que a gente sente tudo, a cada cena. A gente meio que se coloca na pele daquelas personagens.

      Pablo, muita gente tem elogiado o filme “Indomável Sonhadora”. Não assisti ainda e não posso dizer se a indicação foi justa ou não. Também nem assisti ainda “As Vantagens de ser Invisível”.

      Amanda, obrigada! Acho que doloroso é uma boa forma de descrever esse filme, que mostra a alegria e a dor advindas de amar e de nos entregarmos a alguém.

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