Guerra dos Mundos

Em 1938, o então radialista Orson Welles possuía um programa de rádio, no qual encenava – ao lado do grupo Mercury Theater – uma peça teatral. Nesse mesmo ano, Welles apresentou uma edição do programa que se tornaria histórica. Ele fez uma adaptação de “Guerra dos Mundos”, famoso livro de H. G. Wells, que retratava a invasão da terra por seres alienígenas nada bonzinhos. Quem estava acostumado com o programa, se divertiu. Já quem ouviu o programa pela primeira vez (ou o pegou pela metade) entrou em pânico – famílias abandonaram seus lares e algumas pessoas chegaram até a cometer suicídio. Ao descobrirem a verdade, muitos acharam a “brincadeira” de Welles de muito mal gosto; mas, entre mortos e feridos (desculpem-me pelo trocadilho), Welles se deu muito bem: a publicidade decorrente desta edição do seu programa de rádio lhe abriu as portas de Hollywood, cidade na qual ele teve uma carreira de altos e baixos e realizou a grande obra-prima do cinema, o filme “Cidadão Kane”.

Eis que no longínquo ano de 2005, o diretor Steven Spielberg se reúne ao grande astro Tom Cruise para fazer a sua adaptação de “Guerra dos Mundos”. No filme, Spielberg relata os efeitos da invasão da terra por malvados alienígenas em uma determinada família. Ray Ferrier (Cruise) é um homem divorciado que trabalha nas docas. Ray não parece se adequar muito ao papel de pai: não sabe que a filha Rachel (a excelente Dakota Fanning) tem alergia à pasta de amendoim e sofre de claustrofobia ou que o filho Robbie (Justin Chatwin) não tem mais idade para brincar com ele de arremesso de baseball. E é justamente no fim de semana que Ray passa com os filhos que todo tipo de desgraça começa a acontecer e ele se vê obrigado a tomar a sua posição de homem protetor – situação que os filhos demoram a aceitar.

Ao decidir filmar “Guerra dos Mundos”, Steven Spielberg mostrou ter uma noção de timing perfeita. Desde os atentados de 11 de Setembro, os norte-americanos possuem um medo constante de que algo de muito ruim irá acontecer novamente. Ao ver a cidade de Nova Jersey sendo – literalmente – partida ao meio, a primeira pergunta que a pequenina Rachel faz ao pai é: “são os terroristas?”. O pânico, alarde e desespero vistos em cada rosto encontrado por Ray e sua família também fazem referência ao maior receio dos norte-americanos desde o dia em que as Torres Gêmeas caíram.

Tudo isto nos leva à grande mensagem de Steven Spielberg em “Guerra dos Mundos”: a de que, assim como no 11 de Setembro, todo sofrimento, dúvidas e problemas podem ser superados porque temos alguém em quem nos apoiar, alguém que nos ama. Ray, Robbie e Rachel passam por tudo o que vemos no filme para notarem que existe, sim, amor entre eles. Ray recebe a prova de sua vocação para ser pai. A partir do momento que “Guerra dos Mundos” acaba, estes três personagens serão mais fortes, pois possuem uns aos outros.

“Guerra dos Mundos” pode não ser o melhor filme de Steven Spielberg e pode ter sido criticado por ter privilegiado contar a história da reestruturação de uma família; mas ninguém pode acusar o filme de ser ruim. Se Orson Welles fez muitos estragos usando somente a força das palavras – e da imaginação de seus ouvintes, Steven Spielberg levou o apelo ao visual a outro nível e fez um filme impecável do ponto de vista técnico, com cenas grandes e bem elaboradas cenas de ação. No entanto, o diretor pecou justamente naquilo que é o seu ponto mais forte, pois em “Guerra dos Mundos” sobra competência, mas falta emoção.

2 comments

  1. Amanda Aouad 4 outubro, 2013 at 03:12 Responder

    Engraçado dizer que falta emoção em um filme de Steven Spielberg, rs, mas é verdade. Mais do que isso, falta alma. O filme é tecnicamente correto, mas passa por a gente e não diz muita coisa.

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