Birdman (Ou A Inesperada Virtude da Ignorância)

publicado em:7/03/15 12:15 AM por: Kamila Azevedo Cinema

Riggan Thomson (Michael Keaton, em atuação indicada ao Oscar 2015 de Melhor Ator) é um ator que ficou conhecido mundialmente pelo papel de Birdman, um herói proveniente das histórias em quadrinhos, na franquia multimilionária que levava o nome da personagem que ele interpretava. Naquilo que fica subentendido como o auge de sua carreira profissional, ele se recusou a participar da terceira parte dessa série cinematográfica. Foi aí que a sua vida mudou por completo e ele passou a entrar em decadência – pessoal e profissional.

De uma certa maneira, a trajetória da personagem que Keaton defende tão bem em “Birdman (Ou A Inesperada Virtude da Ignorância)”, filme dirigido e co-escrito por Alejandro González-Iñarritu, se confunde com a sua própria carreira. Na década de 90, Michael Keaton era um grande astro do cinema e o primeiro ator a interpretar um verdadeiro ícone das histórias em quadrinhos: o Batman; até que, no final da década de 90/início dos anos 2000, por mais que ele tenha se mantido em atividade, Keaton não conseguiu repetir o mesmo sucesso.

Essa é somente uma das primeiras referências que podemos tirar de “Birdman (Ou A Inesperada Virtude da Ignorância)”, um filme que, a partir das funções referencial e metalínguística, fala sobre o cinema utilizando o próprio meio, através de uma forma de comunicação direta e objetiva; e que, por mais que utilize uma linguagem metafórica em vários de seus momentos, toca no meio da ferida da indústria cinematográfica norte-americana, sem dó nem piedade.

Por meio do relato da jornada de Riggan Thomson para montar a peça dos seus sonhos na Broadway, baseado num conto escrito por Raymond Carver, vemos ser destiladas em tela uma série de críticas diretamente dirigidas à maneira como as coisas são feitas em Hollywood: a falta de histórias originais, o excesso dos filmes de super-heróis, a rápida circulação de informação (na medida em que todos somos geradores de conteúdo por meio de redes sociais como o Twitter e o Facebook), atores com egos inflados e que querem as coisas do seu jeito, atores que seguem fielmente o método até fora dos palcos (leia-se a personagem interpretada por Edward Norton), atores que só encontram o sentido para a sua vida dentro de um palco, produtores que vivem para sanar problemas causados por terceiros, críticos frustrados que detonam obras só pelo desejo (ou birra) de arruinar algo e, finalmente, as pessoas que são mais afetadas pelo convívio com seres ególatras e que só olham para o próprio umbigo.

O sonho de Riggan Thomson, em “Birdman (Ou A Inesperada Virtude da Ignorância”), de muitas maneiras, lembra o sonho que Norma Desmond (Gloria Swanson) alimentou durante “Crepúsculo dos Deuses”, filme dirigido por Billy Wilder, e que também faz uma crítica direta à indústria cinematográfica hollywoodiana. Porém, se o sonho de Norma de voltar a viver um momento de glória no cinema vira uma loucura; o sonho de Riggan significa para ele muito mais do que o desejo de voltar a viver um bom momento em sua carreira. Para ele, o sucesso de sua empreitada teatral marca a sua liberdade e a oportunidade de (re)começar tudo do zero; talvez, agora, da sua maneira, sem qualquer imposição da indústria cinematográfica no seu caminho.

Um filme como “Birdman (Ou A Inesperada Virtude da Ignorância)”, no papel, é muito corajoso. É bom ver também que, na prática, o filme transpôs essa coragem por meio de uma série de elementos novos em termos de linguagem cinematográfica. Começando pelos planos sequência perfeitamente orquestrados por Iñarritu e seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, que nos colocam dentro dos bastidores de uma peça teatral e culminando com a trilha sonora inovadora de Antonio Sanchez, utilizando as batidas de uma bateria, que podem ser interpretadas quase que como uma extensão da mente frenética de Riggan.

Para quem aprecia o cinema, a existência de um filme como “Birdman (Ou A Inesperada Virtude da Ignorância”) é um deleite. Mais confortante ainda é saber que uma proposta diferente e inovadora como essa, que mexe diretamente com a mesmice atual da própria indústria cinematográfica hollywoodiana, tenha sido reconhecida com 9 indicações ao Oscar 2015, das quais ganhou 4, dentre elas a principal da noite: Melhor Filme. Ainda existe luz no fim do túnel de remakes e sequências hollywoodianos.

Indicações ao Oscar 2015
Melhor Filme – VENCEDOR!!!
Melhor Diretor – Alejandro González-Iñarritu – VENCEDOR!!!!
Melhor Roteiro Original – Alejandro González-Iñarritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo – VENCEDOR!!!!
Melhor Direção de Fotografia – Emmanuel Lubezki – VENCEDOR!!!!
Melhor Ator – Michael Keaton
Melhor Ator Coadjuvante – Edward Norton
Melhor Atriz Coadjuvante – Emma Stone
Melhor Edição de Som
Melhor Mixagem de Som



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


Concordo com tudo na sua crítica.”Birdman” é um filme inovador e mereceu todos os prêmios da temporada.Esse filme foi uma unanimidade.

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Paulo, pois é! Só não sei dizer se “Birdman” foi uma unanimidade. Pode perguntar isso para a Sasha Stone, por exemplo, que era a maior defensora de “Boyhood” nessa temporada de premiações.

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pois é… unanimidade não foi. muitas acharam uma m… o que não dá pra entender. para mim foi o melhor do ano junto com o boyhood. simplesmente não consigo decidir o meu preferido entre eles. bacana essa comparação com crepúsculo dos deuses, kamila!

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Kamila,um filme que crítica hollywood tem todo meu respeito.Quando eu afirmei em comentários anteriores sobre a originalidade do filme é pela temática,a parte técnica(a fotografia que vc mesmo citou) a inovadora trilha de Antonio Sanches e a sacada de Iñarritu de escalar atores que se confudem com seus personagens,Michael Keaton que foi o super héroi “Birdman” e “Batman”,a Gwen Stacy vivida por Emma Stone e o “Hulk” Edward Norton(nesse caso eu acredito que se deve pelo temperamento dele).Essa mistura de Iñarritu rendeu esse filme maravilhoso que só daqui á alguns anos vamos saber se é esse filme todo(algumas respostas vem com o tempo,eu realmente estou muito entusiasmado com esse filme).E sobre a unanimidade é pelo fato do filme ter sido apreciado por diferente premiações

4 Oscar-Melhor Filme,Diretor,Roteiro Original e Fotografia

2 Globo de Ouro-Melhor Ator Comédia/Musical(Michael Keaton) e Roteiro.

1 BAFTA-Fotografia

SAG de melhor elenco

3 Independente Spirit Awards de Melhor filme,Ator e Fotografia

DGA de melhor diretor

2 prêmios National Board Review para Ator(Michael Keaton) e Ator Coadjuvante(Edward Norton)

Eu torci tanto pro Michael Keaton levar melhor ator,concorda comigo que ele merecia esse prêmio?

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Paulo, Michael Keaton estava excelente, mas, depois de ver “A Teoria de Tudo”, impossível não ter dado o Oscar ao Eddie Redmayne.

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Bem conduzido com bastante precisão por Iñarritu (Indicado ao Oscar 2015 de Melhor Diretor por este Filme), Birdman é um filme possuidor de uma narrativa que não se permite chegar a complexidade e constitui-se de uma história onde o espectador está completamente ligado a trama e seu protagonista, sem desprender-se dos demais personagens e dos contextos que estão diretamente ligados, para no fim constatar que está num mundo bem real.

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Tem alguns elementos de “Birdman” que me lembrou “Adaptação” de Spike Jonze.Algumas semelhanças entre os dois filmes:

Ambos são metalinguagem,”Birdman” é sobre um ator que ganhou uma fortuna interpretando o super herói,quando Keaton viveu a mesma história,já no filme de Spike Jonze,o protagonista de “Adaptação” é o roteirista que escreveu o filme “Quero Ser John Malkovich” e ele mistura sua história na pré produção do filme anterior,com o filme que estamos vendo,entendeu Kamilinha ? rsrsrrs

Em “Birdman” Riggan está obcecado em adaptar Raymond Carver,é a chance de provar seu talento e no passado o autor fez um elogio a ele em um guardanapo(o personagem do Norton explica pra ele que isso é um delirio e que Carver deveria estar bêbado!) mas essa peça é uma obsessão do protagonista.Já no filme de Spike Jonze,Charlie Kaufman cisma com o livro de Susan Orlean(Meryl Streep) e essa “Adaptação” é uma forma de Kauffman provar seu talento depois do sucesso de “Quero Ser John Malkovich”(estou falando do filme?mas na vida real foi assim…rsrsrs)

Quando Edward Norton interpreta um ator temperamental e Michael Keaton intepreta um ator que estrelou uma franquia de super heroi,realidade se mistura com ficção.Como Nicolas Cage interpretando o escritor Charlie Kaufman,o autor do filme que ele está protagonizando.

O alter ego de Riggan é “Birdman”,já Charlie Kaufman é Donald Kaufman(o ficticio irmão gêmeo do Charlie que até nomeado ao Oscar foi rsrsrsr)

A narrativa de ambos os filme não tem nada a ver(“Birdman” é mais experimental”) e a trama também não(Hollywood é o tema recorrente,mas um é no teatro,o outro em los angeles).Mas essas semelhanças entre “Birdman” e “Adaptação” me chamaram muita atenção.Mas sem dúvida são dois grandes filmes.

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Paulo, bem notado. Não tinha percebido essas semelhanças, mas você tem razão. Apesar de eu não ser a maior fã de “Adaptação”.

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Perfeito! Disse tudo” “Birdman” é deleite para qualquer cinéfilo que se preze. Finalmente a academia deu o Oscar de melhor filme ao melhor filme concorrente!
Bjs

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Reinaldo, eu gostei de “Birdman” e acho que a sua vitória no Oscar foi merecida, mas, particularmente, meu filme favorito da seleção desse ano foi “Boyhood”, que me tocou bem mais.

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A obra-prima de Iñarritu, é um filme completo, surpreendente, bem escrito, bem atuado e principalmente bem dirigido, os planos sequência extremamente bem encaixados um ao outro me deixaram pasmo, gostei de tudo como um todo e fiquei mais que feliz por seus prêmios no Oscar. O melhor filme de 2014.

http://movieseldridge.blogspot.com.br/

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Cleber, “Birdman” é um filme que, sem dúvida alguma, mexe com a linguagem cinematográfica, sendo um trabalho muito consistente por parte de Iñarritu. Pelos seus elementos inovativos, mereceu os Oscars conquistados.

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Kamila, apesar dessa cara, não consegui gostar tanto de Birdman, pensei muito num filme chamado Holy Motors a todo o momento. Não é uma pelicula que vai envelhecer bem, e acho que sua “criatividade” não é bem original.

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