Boyhood: Da Infância à Juventude

publicado em:12/03/15 1:23 AM por: Kamila Azevedo DVD

A premissa por trás de “Boyhood: Da Infância à Juventude”, filme dirigido e escrito por Richard Linklater, é tão simples que chega a ser impressionante que ninguém tenha pensado nela antes. Ou pelo menos, imaginado da maneira como foi executada pelo diretor. A obra se passa ao longo de 12 anos da vida de Mason (Ellar Coltrane), acompanhando o seu processo de transição da infância para a juventude, mais precisamente terminando naquele momento em que os jovens norte-americanos deixam o ninho de seus pais e ganham a sua independência quando vão cursar a faculdade.

Para retratar tal história, Richard Linklater teve uma solução narrativa arriscada, mas que, quando vemos o resultado final de seu filme, mostra que valeu a pena. Ele decidiu filmar cada ano da vida de Mason como se fossem curtas-metragens individuais de 15 minutos e reuni-los, ao final, num filme de longa-metragem. A consequência disso é que assistimos a um filme sobre gente de carne e osso (mesmo que se tratem de personagens fictícios) vivenciando conflitos que são facilmente relacionados com aquilo que cada um de nós vivemos em nossas próprias vidas.

Ao longo de 12 anos da vida de Mason, ele passará pelo divórcio e por novos relacionamentos amorosos vividos pelos seus pais (interpretados por Ethan Hawke e Patricia Arquette); por diversas mudanças de cidade; pelo contato com a violência; pelo surgimento de novas amizades; pela descoberta de habilidades que ele não sabia que tinha; e por momentos de transição da vida de uma criança para a adolescência, como o primeiro amor, a primeira festa, a primeira cerveja, a primeira experiência com drogas, a primeira namorada, a primeira decepção amorosa, as incertezas diante do futuro, etc. O que une todas essas pontas é a presença sempre constante dos pais de Mason e de sua irmã (interpretada por Lorelei Linklater, filha de Richard), de uma forma que também acompanhamos o processo deles de transformação ao longo de todos esses anos, bem como as diversas mudanças pelas quais passam o relacionamento que os envolve.

Analisando a sua filmografia, podemos perceber que “Boyhood: Da Infância à Juventude” é a evolução natural de um tema que Richard Linklater trabalhou tão bem na trilogia formada por “Antes do Amanhecer”, “Antes do Pôr-do-Sol” e “Antes da Meia-Noite”. Se, nestes três filmes, acompanhávamos o desenrolar dos encontros e desencontros entre Jesse e Celine, mostrando como o tempo, às vezes, pode andar contra algo que é tão certo; “Boyhood: Da Infância à Juventude”, com a sua simplicidade e a sua falta de momentos extraordinários (que alguns poderiam erroneamente julgar de monotonia), eleva isso à máxima potência. Aqui, acompanhamos Mason quando ele ainda tem a inocência que Jesse e Celine não tinham mais, quando a vida (sim, sempre ela) parecia ser tão cheia de possibilidades.

Indicações ao Oscar 2015
Melhor Filme
Melhor Diretor – Richard Linklater
Melhor Ator Coadjuvante – Ethan Hawke
Melhor Atriz Coadjuvante – Patricia Arquette – VENCEDORA!!!
Melhor Roteiro Original – Richard Linklater
Melhor Edição – Sandra Adair



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


No que objetivo central de Boyhood era seguir dozes anos da vida de um garoto, Richard Linklater constrói uma sociedade onde cada pessoa apresenta virtudes admiráveis e ensinamentos de que o ser humano não precisa ser aquele que todos querem que ele seja, nem se amedrontar em tocar sua vida em meio a um senso comum que diz que tudo dará errado. Novos tempos existem e vão chegando, e nós, quando percebemos, já estamos inclusos nele. Querendo ou não, a adaptação a um novo meio fala mais alto, e como no final tudo dá certo, percebe-se que há sim várias formas de ser feliz e fazer tudo valer a pena.

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Brenno, bom, eu discordo um pouco de sua opinião sobre o propósito de Richard Linklater em relação a esse filme, mas eu concordo com uma coisa no seu comentário: a adaptação a um novo meio sempre fala mais alto. Pra mim, a mensagem principal de “Boyhood” passa pelo fato das transições que a família viveu e das transformações que foram sendo impostas àqueles personagens, alguns em tão tenra idade e outros na sua idade mais adulta. Pra mim, o filme é muito incisivo ao acompanhar personagens na sua infância e juventude, antes de eles perderem a sua inocência e de conhecerem o mundo por si próprios (na faculdade).

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Sua crítica captura belamente o espírito dessa obra vanguardista. Linklater faz um filme memorável pela ambição estética contrastada com sua simplicidade narrativa.
Bjs

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Reinaldo, obrigada! “Boyhood” me tocou muito, achei um filme lindo e que bom que consegui passar isso na minha resenha crítica.

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A passagem do tempo não é algo novo no cinema de Richard Linklater,vimos com nossos próprios olhos Julie Delpy e Ethan Hanke se apaixonarem na juventude,viver os conflitos da fase adulta e a crise no casamento na trilogia “Antes do Amanhecer/Por do sol/Meia da Noite” que consumiram no total 18 anos.Mais seu novo filme “Boyhood” não é dividido em partes,mas sim em um único filme de quase três horas,mas que passa rápido como a vida.

O projeto “Boyhood” teve inicio em 2002 quando o diretor teve a idéia de rodar a infância até a maioridade de Mason(Ellar Coltrane).O filme não tem uma trama propriamente dita,é como a vida real cheia de pequenos momentos,gestos e descobertas.Mason quando criança joga boliche com o pai(Ethan Hawke) e a irmã(Loralei Linklater,filha do diretor),conversa com os amigos da escola,joga vídeo game,assisti filmes pornográficos e tem uma vida como de qualquer garoto nessa idade.

Mas o poder do filme é impressionante pelas atuações do elenco e como o filme retrata a passagem do tempo e a transformação de Mason.Repare na cena que o pai fala do governo Bush e a guerra no iraque e ele criança dando pouca atenção a tudo e alguns anos mais tarde um engajado adolescente colando placas do então candidato à presidência Barack Obama.Mason está deixando de ser um garoto para se tornar um homem.

Richard Linklater também aborda o papel importante que a mulher conquistou no novo século,a mãe de Mason(Patricia Arquete,ótima)trabalha,é divorciada,passou por algumas relações conturbadas(uma delas com um homem alcólatra e violento) mas criou dois filhos sem a ajuda do pai(Ethan Hawke) que não é tão bem sucedido quanto a ex esposa.Teve dificuldades mas insistiu na carreira de professora e conciliou filhos e faculdade,a cena final dela é soberba e comovonte(não vou revelar detalhes,mas é um dos melhores momentos do filme).Só posso dizer que depois dessa cena eu pensei como a vida passa em um piscar de olhos.

Richard Linklater ganhou o urso de prata de melhor direção no festival de berlim,globo de ouro de melhor diretor e três nomeações ao oscar(melhor filme,direção e roteiro original).Um merecido reconhecimento desse diretor tão cultuado por filmes como os já citados “Antes do Amanhecer/Por do Sol/Meia Noite”,o delicioso “Escola do Rock” e as animações “Waking Life” e “O Homem Duplo”.Gosto também de “Nação Fast Food”(que não foi bem recebido,mas que apreciei) e “Bernie” que segundo Linklater é “o seu Fargo” e considero um dos seus melhores trabalhos.“Boyhood” é uma obra original,ambiciosa(e se algum ator tivesse morrido no decorrer desse tempo?) e de um cineasta corajoso e importante no cinema independente americano.Um dos melhores filmes de 2014.

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Paulo, belo comentário, que reforça os pontos mais positivos de “Boyhood”, meu filme favorito, até agora, da temporada Oscar 2015, pela sua simplicidade e pela história que causa empatia com todos nós.

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