Livre

publicado em:21/03/15 12:32 AM por: Kamila Azevedo Filmes

Se Cheryl Strayed (Reese Witherspoon, indicada ao Oscar 2015 de Melhor Atriz), personagem principal do filme “Livre”, dirigido por Jean-Marc Vallèe, tivesse uma frase de cabeceira, com certeza, seria: “Perder-se também é caminho”, de Clarice Lispector. Essa afirmativa resume muito bem a jornada pela qual ela vai passar no decorrer do longa, que acompanha a personagem enquanto ela se aventura, totalmente sozinha, pela Pacific Crest Trail, trilha que possui um total de 4620km e se estende da fronteira dos Estados Unidos com o México até a fronteira deste país com o Canadá.

Da mesma maneira, existe muito de Cheryl no sobrenome que ela adotou após se divorciar de Paul (Thomas Sadoski). A palavra strayed, em inglês, significa extraviado. E foi justamente isso que acabou acontecendo com Cheryl após a morte de sua mãe, Bobbi (Laura Dern, indicada ao Oscar 2015 de Melhor Atriz Coadjuvante): ela perdeu o contato consigo mesma, passando a vivenciar o seu luto com um comportamento inconsequente, que incluía o vício em heroína e a infidelidade constante ao marido.

O que leva, então, uma pessoa que tem uma vida completamente abusiva a deixar tudo para trás para embarcar, sem experiência passada nesse tipo de situação, para uma aventura solitária em uma das trilhas mais inóspitas existentes nos Estados Unidos? É a essa pergunta que “Livre” tenta responder. Existe dentro de Cheryl um desejo forte e, talvez, mais inconsciente: os 4620km da Pacific Crest Trail representam, para ela, um caminho de penitência, em que ela, além de se permitir vivenciar a dor física do luto que ela negou dentro de si, encontra no contato puro e profundo com a natureza o reencontro consigo mesma e com a pessoa que ela era antes de ela se perder de si.

É uma história que tem um quê filosófico, mas que, na sua essência, nos deixa uma mensagem muito bonita de recomeço e que está relacionada diretamente com uma frase linda de Chico Xavier que diz que: “embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”. Foi isso que Cheryl se permitiu: recriar a sua história. Acompanhar esse caminho dela de (re)descobertas, por meio da atuação natural e de entrega de Reese Witherspoon, é inspirador.

Indicações ao Oscar 2015
Melhor Atriz – Reese Witherspoon
Melhor Atriz Coadjuvante – Laura Dern



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Kamila Azevedo

Jornalista e Publicitária



Comentários


Encontrei certas semelhanças em “Na Natureza Selvagem”(que é bem superior a esse filme).Dois protagonistas em crise e viajando pela américa em busca de si e precisando se perdoar.”Livre” é mais um grande filme de Jean-Marc Vallèe(“Crazy” é muito bom!) e Reese Whiterspoon está ótima.Ela esta em ótima fase e destaco “A Boa Mentira”(ela entrega o filme para um grupo de atores sudaneses.”Zero vaidade”) e a namorada do Mud em “Amor Bandido” do Jeff Nichols(diretor de “O Abrigo”).Essa nomeação ao Oscar por “Livre” veio coroar a bosa fase de Reese Whiterspoon.A Cheryl já entrou para a galeria dos grandes personagens dela,juntamente com June Carter de “Johnny e June” e a Tracy Flick de “Eleição” do meu querido Alexander Payne.Gostei da frase de Chico Xavier.

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Paulo, entendo as comparações entre “Livre” e “Na Natureza Selvagem”, mas acho que as motivações de Cheryl Strayed são totalmente diferentes da do Christopher McCandless.

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