Nise: O Coração da Loucura

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Para tentar compreender o caminho percorrido pela médica psiquiatra Nise da Silveira, é necessário entendermos a pessoa que ela foi. Militante do Partido Comunista Brasileiro, passou 18 meses presa, durante a Intentona Comunista, após ser denunciada pela posse de livros marxistas. Depois de ser libertada, por razões políticas, viveu oito anos no exílio, ao lado do marido, o sanitarista Mário Magalhães da Silveira, ao mesmo tempo em que foi obrigada também a se afastar do serviço público.

O filme Nise: O Coração da Loucura, dirigido e co-escrito por Roberto Berliner, acompanha o momento em que Nise da Silveira (Glória Pires) retorna do exílio e volta ao serviço público com o trabalho desenvolvido no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, localizado no bairro de Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Quando Nise retorna ao trabalho, a realidade que ela encontra é completamente diferente da que ela conhecia, na medida em que se tem a popularização de técnicas agressivas aos pacientes, como a lobotomia e o eletrochoque.

O que Nise da Silveira oferecia aos seus clientes (ela se recusava a chamar os internos do Centro de pacientes) era a oportunidade de eles terem um tratamento mais humanizado. Por isso mesmo, foi perfeita a decisão do então diretor do Centro Psiquiátrico, Dr. Nelson (Zé Carlos Machado), de colocá-la à frente da Seção de Terapêutica Ocupacional - mesmo ele achando que estava, na realidade, punindo-a pelo fato de ela se recusar a praticar as novas técnicas com os internos. Foi ali que Nise desenvolveu uma técnica pioneira, criando ateliês de pintura e de escultura, nos quais os clientes portadores de esquizofrenia podiam entrar em contato, novamente, com suas realidades e encontravam uma maneira criativa de se expressar.

A história de Nise da Silveira nos é retratada de uma maneira muito bonita pelo diretor Roberto Berliner. É tão bom ver relatos assim, de pessoas que acreditam no amor como uma maneira de transformação e de cura. Nise, ao tratar seus clientes como os seres humanos que eles eram, merecedores de confiança e de compaixão, pôde dá-los a oportunidade de se reconectar com o mundo em que eles estavam inseridos, com os laços que eles tiveram com pessoas amadas e com as lembranças que os tornaram os indivíduos que eles são; e que, um dia, eles perderam.

Nise: O Coração da Loucura (Nise, 2016)
Direção: Roberto Berliner
Roteiro: Patrícia Andrade, Leonardo Rocha e Roberto Berliner (com base no roteiro escrito por Flávia Castro, Maurício Lissovski, Maria Camargo e Chris Alcazar)
Elenco: Julio Adrião, Flavio Bauraqui, Fabrício Boliveira, Fernando Eiras, Charles Fricks, Georgiana Góes, Claudio Jaborandy, Zé Carlos Machado, Augusto Madeira, Bernardo Marinho, Simone Mazzer, Glória Pires, Roberta Rodrigues, Roney Villela

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