Lendo - "Bonequinha de Luxo"

“A personalidade mediana se transforma com freqüência, a cada intervalo de tempo nosso próprio corpo sofre uma metamorfose completa – desejável ou não, é natural que nos transformemos”. (p. 54)

Protagonista do livro “Bonequinha de Luxo”, de autoria de Truman Capote, quando encontramos Holly Golightly, ela deve estar vivendo o auge dos seus vinte anos e chegou ao ponto em que inventou tantas coisas, acontecimentos, pessoas e personas em sua vida, de forma que ela mesma já perdeu o contato com a sua realidade. Ela acredita piamente na história que criou e abraçou para si mesma – talvez, como uma forma de parecer mais forte ou, quem sabe, de se proteger daquilo que ela mesma gostaria de esconder dos outros.

A história de Holly nos é contada pelo ponto de vista de um narrador onisciente, aspirante a escritor, que mora no mesmo prédio que ela. Boa parte de “Bonequinha de Luxo” se dedica à descrição dele do fascínio que Holly exercia nele, da vontade que ele sentia de se aproximar dela, do desejo que ele tinha de penetrar na verdadeira personalidade dela e da necessidade que ele sentia de protegê-la. É como a música “Logo de Cara”, do grupo Ira!, de autoria de Kiko Zambianchi e Marcelo Rubens Paiva, que fala sobre a relação do interlocutor com alguém que mexe demais com os pensamentos dele.

Portanto, “Bonequinha de Luxo” nada mais é do que o retrato dos efeitos e das emoções que o contato com a personalidade de Holly Golightly causam no narrador. Ele sente a necessidade de contar a história dela, como se para fechar um próprio capítulo de sua vida, como se ele pudesse, finalmente, seguir em frente. Quando a realidade, na verdade, é que Holly sempre será uma sombra na vida daqueles que foram tocados por ela – uma vez que a personalidade independente dela, o desapego dela, a melancolia, a inocência, o senso de não (querer) pertencer a algo e a falta de identidade definida a transformassem num pássaro selvagem e traiçoeiro, que vai querer sempre voar para um novo lugar e deixando as pessoas olhando pro céu e imaginando: “onde será que ela estará agora?”.

Livro que deu origem ao filme dirigido por Blake Edwards, “Bonequinha de Luxo”, como idealizado por Truman Capote, é uma obra muito diferente do material adaptado por George Axelrod. O livro enfoca muito mais a figura de Holly, seu caráter alienado e suas idiossincrasias do que o relacionamento que se desenvolve entre Holly e o narrador. O que interessa a Truman Capote é o retrato de um estilo de vida elegante e fútil que tanto o fascinava – e que foi fruto da observação atenta de Capote junto às suas amigas da alta-sociedade nova-iorquina.

Bonequinha de Luxo (2005)*
Editora: Companhia das Letras
Autor: Truman Capote

*A edição nacional vem com um bônus de três contos escritos por Capote: “Uma Casa de Flores”, “Um Violão de Diamante” e “Memória de Natal”, que possuem temáticas relacionadas e que são complementares à história do livro.

11 comments

  1. Minne. 11 janeiro, 2012 at 00:22 Responder

    Vi esse filme ontem, há tempos ele estava na minha lista de “preciso ver desesperadamente” e só na noite de ontem consegui entender o porquê de tantos comentários sobre o mesmo, a personalidade de Holly é realmente algo muito observável, tenta tanto viver num mundo imaginário, que quando a realidade lhe dá as caras, ela simplesmente foge, mesmo a realidade seja algo de que ela precisa, de amor. Eu ainda não li o livro, e sou louca pra o fazer, lendo a tua resenha, adorei o fato de um cara do prédio contar a história a partir da sua observação. A Atuação de Audrey Hepburn, em minha opinião, foi perfeita, não imagino outra pessoa pra o papel, e a capa do livro é super convidativa, do jeito que eu gosto, pena que é difícil achá-lo, ao menos por aqui.

  2. Clóvis Tayllon 11 janeiro, 2012 at 02:10 Responder

    Nunca assisti ao filme, mas escuto falarem muito sobre ele. A sua resenha me deixou com vontade de conferir o livro, a história parece ser interessante. Quando eu terminar de ler “O Espião que Sabia Demais”, acho que lerei esse.

    Abs.

  3. Paulo Ricardo 11 janeiro, 2012 at 06:16 Responder

    Conheci o filme através de você.E gostei muito.Vou colocar o livro na minha lista de prioridades(quando estou só vejo mais filmes mesmo).Bjs

    • Kamila 11 janeiro, 2012 at 12:19 Responder

      Minne, perfeita a sua interpretação sobre a Holly. É isso mesmo que você disse: ela foge da realidade dela e cria algo novo, não sei se para proteger a si mesma de algo. Leia o livro, que é muito bom e apresenta uma visão bem diferente da que o filme nos mostra. Eu adoro a atuação da Audrey Hepburn nesse filme e, se puder te recomendar algo, leia “Quinta Avenida, 5 da Manhã”, que fala sobre o processo de adaptação de “Bonequinha de Luxo” para o cinema. Tem resenha desse livro aqui no blog, se você quiser se familiarizar com o tema. “Bonequinha de Luxo” é, realmente, um livro bem difícil de ser encontrado. Eu mesma demorei muito tempo até encontrá-lo.

      Clóvis, como assim, nunca assistiu ao filme?? Veja, sim, é muito bom!! Você é a segunda pessoa que eu conheço que está lendo atualmente “O Espião que Sabia Demais”. Abraços!

      Paulo, eu gosto de equilibrar meu tempo assistindo filmes e lendo livros, mas nem sempre consigo isso… Beijos!

      Raspante, o livro é difícil de ser encontrado, mas recomendo a leitura, especialmente pelo fato do material original ser bastante diferente do que acabamos assistindo no filme, que tem esse viés mais romântico, que falta ao livro.

  4. Luís 11 janeiro, 2012 at 16:36 Responder

    Eu infelizmente não conheço a obra literária, embora queira mesmo me aprofundar nos textos de Capote, que parecem ser bastante interessantes, não apenas pela leitura por entretenimento, mas para a leitura por estudo também.

  5. Eri Jr. 11 janeiro, 2012 at 22:54 Responder

    Já li o livro Kamila, mas não assisti o filme ainda!! Uma pena… Ainda quero comprá-lo em DVD!
    Quanto ao livro, gostei demais quando li ele. Holly é mesmo encantadora e confesso que, como o protagonista, acabei me apaixonando por ela tbm! hahaha É uma obra bem gostosa de se ler!
    E sou outro que quero ler O Espião que Sabia demais, depois que terminar a bio do Steve Jobs!
    Bejos

    • Kamila 12 janeiro, 2012 at 00:20 Responder

      Eli, o filme é maravilhoso. Tão bom quanto o livro. Eu estou lendo “O Diário de Anne Frank” e “O Espião que Sabia Demais” ao mesmo tempo. A biografia do Steve Jobs está na fila! 🙂 Beijos!

      Celo, esse, como eu disse, foi o primeiro livro do Capote que eu li.

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