Game Change - Virada no Jogo

Eu me lembro até hoje da campanha para presidente dos Estados Unidos, em 2008. Acompanhei atentamente cada passo, como muitos outros habitantes de outros países, por uma simples razão: uma das maiores potências mundiais tinha a chance de fazer história ao eleger aquele que seria o primeiro presidente negro da história do país. Nesta campanha, o então Senador Barack Obama representava o novo, era uma estrela a nível mundial e carregava consigo o símbolo de esperança de um país que precisava acreditar neste sentimento de mudança - especialmente tendo em vista o fato de que os Estados Unidos estavam no meio de uma séria crise econômica, que tem efeitos na economia do país até os dias de hoje.

A verdade é que a situação do oponente de Obama, o Senador John McCain, não era nada fácil. Representante do Partido Republicano, McCain tinha a sua imagem inevitavelmente ligada a do então presidente George W. Bush, que vinha numa grande crise de queda de popularidade, não só por causa da situação econômica, como também em decorrência de toda a conjuntura envolvendo as guerras contra o Afeganistão e o Iraque. McCain precisava de um elemento novo, de alguma coisa que o fizesse ter chance de mudar esse jogo e de oferecer resistência à ascensão meteórica de Obama.

O telefilme “Game Change - Virada no Jogo”, do diretor Jay Roach, acompanha justamente os bastidores da campanha de John McCain (Ed Harris) à presidência dos Estados Unidos. Porém, o roteiro escrito por Danny Strong tem um interesse em particular: o momento em que a campanha de McCain decide a estratégia que eles achavam que poderia levar o Senador à vitória na eleição. Provavelmente, Steve Schmidt (Woody Harrelson), Rick Davis (Peter MacNicol) e Mark Salter (Jamey Sheridan) nunca imaginaram que, ao indicarem o nome da então Governadora do Alaska Sarah Palin (Julianne Moore), não só eles mexeriam com o jogo da eleição, como também criariam uma das figuras pop mais controversas dos últimos anos, bem como uma das personalidades norte-americanas com o maior índice de rejeição dos últimos tempos.

Se “Game Change - Virada no Jogo” reforça alguma coisa é o sentimento de que ou você ama ou você odeia Sarah Palin. Em 2008, assim como Obama, Palin era uma relativa desconhecida, alguém que representava o novo, com uma fundamental diferença: ela é ultra-conservadora e agradava por completo às bases em que John McCain (um homem muito bem intencionado e justo, diga-se de passagem) mais sofria para atingir. Sarah também tinha uma qualidade que atuava muito a seu favor: ela sabia falar a linguagem do norte-americano comum, sem muitos rodeios, além de ser uma presença magnética em discursos e aparições públicas bombásticas.

O telefilme de Jay Roach é muito incisivo na sua intenção de retratar Sarah Palin como o ponto mais forte e mais vulnerável da campanha de John McCain à presidência dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo em que ajudou o Senador, Palin atrapalhou-o demais e pode ser considerada como um dos fatores principais que o levaram a derrota na eleição. Entretanto, “Game Change - Virada no Jogo” se torna uma obra um tanto completa por nos fazer visualizar um futuro que seria muito sombrio para os norte-americanos: em que Sarah Palin - uma figura muito despreparada para a responsabilidade que ela poderia assumir, caso McCain fosse eleito - se tornaria uma das líderes mais importantes do Partido Republicano com grandes chances de se tornar Presidente dos Estados Unidos, um dia. O mais forte ainda nesta mensagem do telefilme é que ele reforça muito o papel dos coordenadores de campanha: Palin foi um monstro criado por eles mesmos. É com este sentimento de culpa que Schmidt, Davis e Salter terão que lidar pelo resto da vida.

Aos poucos, a dupla Jay Roach e Danny Strong vêm se especializando no retrato de histórias sobre os acontecimentos mais importantes da história política recente dos Estados Unidos. Foi dos dois o excelente telefilme “Recontagem”, que retratou o caso da eleição mais problemática do país em todos os tempos: a de 2000, que elegeu George W. Bush como presidente após aquela situação mal explicada dos votos da Flórida. Assim como ocorreu em “Recontagem”, “Game Change - Virada no Jogo” tem um caráter um tanto documental, com uma direção segura e que é apoiado, basicamente, num roteiro de primeira linha e em atuações de um elenco inspirado (Julianne Moore deve ganhar todos os prêmios de televisão pela sua atuação neste telefilme e Woody Harrelson merece o reconhecimento pela sua performance também). Aqui, temos um caso em que o cinema acompanha o momento em que a história foi feita. Veremos o que o futuro reserva para Sarah Palin.

Cotação: 9,0

Game Change  - Virando o Jogo (Game Change, 2012)
Direção: Jay Roach
Roteiro: Danny Strong (com base no livro escrito por Mark Halperin e John Heilemann)
Elenco: Julianne Moore, Woody Harrelson, Ed Harris, Peter MacNicol, Jamey Sheridan, Sarah Paulson, Ron Livingston

20 comments

    • Kamila Azevedo 4 junho, 2012 at 11:42 Responder

      Luís, eu também adoro filmes com teor político e esse é um subgênero importante do cinema norte-americano. Julianne é um dos grandes destaques do telefilme.

      Raspante, e ela está mesmo excelente como Sarah Palin. A caracterização dela também ficou muito boa.

      Amanda, mas é interessante mesmo. Se você tiver HBO, sugiro conferir.

  1. Luís 2 junho, 2012 at 21:17 Responder

    Li opiniões tão boas sobre esse telefilme, inclusive a sua, que realmente me sinto ansioso para vê-lo! E, além dos bons textos que tenho lido, há ainda uma motivação maior: adoro Julianne Moore e quero muito vê-la atuando e, por que não?, sendo premiada, já que ela parece uma atriz meio esquecida pelas premiações…

  2. Matheus Pannebecker 3 junho, 2012 at 21:50 Responder

    Não preciso nem elogiar a Julianne Moore, né? Se ela não vencer todos os prêmios da próxima award season é porque algo está MUITO errado! Mas o que mais me chamou a atenção, além dela, foi o filme em si mesmo: Jay Roach está se especializando no gênero e, aqui, tira o filme do lugar-comum e realiza um drama extremamente interessante. Resultado realmente exemplar!

    • Kamila Azevedo 4 junho, 2012 at 11:45 Responder

      Luís, eu também adoro a Julianne Moore. Ela é uma das minhas atrizes favoritas e é sempre tão bom vê-la em filmes bons como esse e em papeis desafiadores como o de Sarah Palin. Ela é, sem dúvida, um dos grandes destaques do filme.

      Matheus, acho que ela é a favorita, por enquanto a vencer, mas sofrerá uma boa concorrência, especialmente da Nicole Kidman. Concordo totalmente com o teu comentário!

  3. Paulo Ricardo 4 junho, 2012 at 19:13 Responder

    Também fiquei apreensivo com a campanha para presidencia americana em 2008 e história foi feita com a vitória de Obama.Você ficou entusiasmada com a atuação de Julianne Moore.Quantas alegrias essa atriz me deu.Seja na pele de Amber(“Boogh Nights”),Linda(“Magnolia” e a soberba cena que ela discute com um farmaceutico),Cathy(pra mim o melhor trabalho dela em “Longe do Paraíso”),Charley do subestimado “Direito de Amar” e Laura Brown.Quero ver “Game Change” .

    Beijos

    • Pedro Paulo 1 julho, 2012 at 22:18 Responder

      Paulo Ricrdo, eu sou DOENTE pela Julianne Moore, minha atriz favorita. Suportei até “Chloe” na Tela Quente, duas semanas atrás, só pela sua presença.

        • Pedro Paulo 23 julho, 2012 at 01:01 Responder

          Imperdoável! Filme fraco, mas se sustenta nos dois grandes atores Julianne Moore e Liam Neeson.

          Ka, acabei de assistir “Game Change”. FILMAÇO! Engraçado que ao contrário do imaginado, fiquei com certa pena da Sarah palin, refém de seu próprio conservadorismo e impulsividade excessiva.

          Uma atriz que tem uma presença forte também é Sarah Paulson. Fui até conferir se ela não havia sido indicada ao Emmy, porque se não fosse… a parte que ela finalmente ameaça jogar a toalha, na secretária eletrônica do Schmidt, é um verdadeiro show.

          A caracterização da Julianne em Palin ficou irretocável!

          • Kamila Azevedo 23 julho, 2012 at 01:37

            Pedro, eu também fiquei com pena da Sarah Palin em diversos momentos do telefilme. A Sarah Paulson é uma grande atriz, que sempre se destaca naquilo que faz. Ela é uma coadjuvante de luxo. Amava a atuação dela na série “Studio 60 on the Sunset Strip”.

  4. :: Cinéfila por Natureza :: 1 julho, 2012 at 21:11 Responder

    […] 2011, dirigido por Lynne Ramsay) 07. Drive (Drive, 2011, dirigido por Nicolas Winding Refn) 08. Game Change – Virando o Jogo (Game Change, 2012, dirigido por Jay Roach) 09. Os Descendentes (The Descendants, 2011, dirigido por Alexander Payne) 10.Tão Forte e Tão […]

  5. Pedro Paulo 23 julho, 2012 at 03:40 Responder

    Kamila, pois é, não conhecia essa fantástica atriz Sarah Paulson. Vi o Imdb dela e é uma espécie de “Dylan Baker”, baita atriz mas sempre renegada aos papéis de coadjuvate na TV.

    Achei que ela teve uma presença forte depois do trio principal – eu, que tenho uma verdadeira adoração por atuações comedidas (porque será que Laura Brown é minha personagem favorita em “The Hours”?) fiquei fascinado pela calma (e como ela conseguiu passar o auto-controle) dela diante de uma à-beira-do-histerismo Sarah Palin…

    Quando vi a capa do filme (aqui mesmo, no “Último Filme Visto”) pensei: deve enfatizar a “vilã” Palin das eleições 2008, mas me surpreendi com um filme que me pareceu querer explicar a Sarah que muitos não entenderam naquele ano (também acompanhei, ela foi acusada de ser a causadora da derrota do McCain, mas a verdade é que a eleição já tava perdida), quase um pedido de desculpas.

    Me deu dó dela na última cena, não conseguindo fazer o discurso (mas realmente foi uma idéia sem noção). Enfim, ela foi vítima da sua empolgação excessiva (parece que ela achou que ELA era a candidata, e juntando com seu ego elevado, afinal ela tinha consciência de seu carisma e poder de persuasão), acabou virando a segunda “celebridade” das eleições, como ressaltaram.

    Um filme maravilhoso. Preciso conferir “Recount”, e os concorrentes desse ano.

    Ka, ótimo telefilme, muito comovente, é Grey Gardens, não sei se você já assistiu. Beijos e boa noite!

    • Kamila Azevedo 23 julho, 2012 at 23:00 Responder

      Pedro, a Sarah Paulson tem uma carreira bem respeitada na Broadway também! Eu também me surpreendi com a visão de Sarah Palin que foi passada por esse filme. Acho que eles humanizaram demais a personagem, a ponto da gente chegar a sentir pena dela em certos momentos, mas isso tudo faz parte da intenção deles de mostrar o despreparo dela e como ela não está pronta para aquilo que ela acha que vai conseguir galgar, para a responsabilidade que ela não sabe que ainda irá enfrentar. Assisti “Grey Gardens”, sim. Tem texto aqui no site sobre ele:

      http://cinefilapornatureza.com.br/2009/10/27/grey-gardens/

      Beijos e boa noite!

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